Rafaela Melo

Semana do livro em Pelotas

Em comemoração ao dia do livro, estive na Bibliotheca pública de Pelotense para acompanhar ou pelo menos tentar acompanhar algumas das atividades que aconteceram ao longo da semana. A maioria delas consistiu em apresentações teatrais para crianças pela companhia de Teatro Você Sabe quem, que realizou a leitura do livro “Capitão Mariano, o rei do oceano” de Maurício Veneza no dia 18/04.

E no dia 19/04 aconteceu o recital “A Barda: Folk and Game Music”. No repertório, temas icônicos da música folk e trilhas sonoras de séries e filmes como Game of Thrones e Senhor dos Anéis, além de games consagrados como Skyrim e Chrono Cross.

Outras leituras em grupo das obras “Olavo Holofote” de Leigh Hodgkinson com tradução de Érico Assis e do “Livro sem Figuras” de B.J. Novak interpretado pela VOCÊ SABE QUEM Cia de Teatro.

Ontem a bibliotheca estava meio vazia, mas segue as fotos:

Dia do Livro Infantil: 18 de abril

Para comemorar o dia do livro infantil reli trechos de um livro indicado durante a disciplina de Literatura Infantil com a professora Rosa Maria Hessel Silveira extraído de um texto de Rebecca Lukens: A Teia de Charlotte (no original Charlotte’s web), que muito me marcou, pois o “destino” da gentil, amável, leal e doce aranha não ficou muito claro para os leitores da obra tanto no original quanto na produção cinematográfica.

Na literatura infantil é comum “suavizarmos” temas mais delicados e profundos, o que é uma questão polêmica entre os especialistas em educação infantil, já que as crianças precisam ter diferentes experiências com os livros, dentre estas, poder sentir a dor da perda de um personagem tão querido (quando isto acontece). Pra ser bem sincera, o que mais gostei no livro, além da amizade desenvolvida entre duas espécies tão diferentes como uma aranha e um lindo porquinho, foi da representação de uma espécie que comumente aparece nos livros como um ser “asqueroso”, “venenoso” e “horripilante”, como sendo boa. Por outro lado a tamanha devoção da aranha pelo lindo porquinho demonstrado em forma de apoio incondicional deixa algumas marcas que me faz pensar sobre o sentido da generosidade. Eu me percebo como alguém que muitas vezes foi tão gentil e aberta com tantas diferentes pessoas e que nem sempre fui correspondida a altura. Na maioria vezes recebi milhões de espinhos e muito desprezo e com isso aprendi muito sobre mim mesma e fui até ficando mais individualista, fria e insensível para muitas coisas que aconteciam em minha volta.

Apesar disso, esse trecho abaixo é muito emocionante para mim, pois mostra uma capacidade importante dos seres humanos: a de dar por apenas querer dar e em troca receber apenas a amizade ou qualquer mínima relação de afeto, mesmo que isso gere desconfiança. 

Alguém já se sentiu nesta situação? Eu sim, muito recentemente. 

Eu confesso ter medo de aranhas assim como de baratas e escorpiões, mas uma aranha tão simpática e que de tão amorosa foi chamada de “joy” (que quer dizer alegre e feliz) eu definitivamente não esperava ver algo assim, ponto para o livro que fez uma enorme diferença em minha vida. Embora a história se apresente no Brasil como a relação entre a menina e o porquinho, levando a uma interpretação de que a menina não é um dos personagens centrais da história, como argumentado por  Rebecca Lukens, mas sim a própria aranha (em minha opinião).

A menina se destaca de modo expressivo quando no médico registra-se o seguinte fato: “ela acredita que animais falam” e isto mostra um pouco da fantasia que envolve a literatura infantil em que seres inanimados podem ganhar vida na imaginação das crianças e fazer parte de suas construções, algo que os adultos se esquecem quando crescem é que já passaram por isso. Eu me considero uma mulher de 31 anos que se encanta ao ver animações e livros de literatura infantil com diferentes seres com habilidades e sentimentos humanos. Sobre a imaginação infantil este trecho é brilhante:

E quando se trata de animais podemos reconhecer que estes possuem sentimentos como dor, amor por alguém e pressentimento quando algo de ruim pode acontecer com eles. Este artigo, por exemplo, diz que os animais sentem ainda mais dor do que os seres humanos. Outro momento marcante da obra é quando o porquinho precisa lidar com a frustração de não ter sido o vencedor (algo que significou mais para a aranha e o porquinho do que para a menina). Eu senti uma espécie de “ranço” quando eu vi a reação da menina, afinal todo crédito era do porquinho e pra ela aquilo não significava tanto. Para o porquinho sim, ele teve que lidar com a decepção, mas logo depois superou tudo.

E por fim, a despedida da aranha e o encontro do porquinho com suas três filhas. Como todos sabem as aranhas não vivem muito tempo e dizem que em algumas espécies é comum que seus filhos se alimentem do seu próprio corpo. O modo como a aranha saí de cena me recorda muito o que acontece com os animais quando estão para morrer, eles se afastam dos seres humanos e ficam lá quietinhos em seus últimos momentos. Eu já perdi vários animais deste modo e a dor é horrível, quase insuportável e mais ainda é o sentimento de impotência diante de algo que não podemos mudar, apenas esperar e seguir adiante. A demonstração de afeto de Wilbur para Charlotte é emocionante e definitivamente um lindo testemunhal contado para suas filhas: Joy, Aranea e Nellie.

Lindo, não acham?

Este ciclo de vida dos animais que raramente é percebido pelos seres humanos pode ser analisado nesta obra a partir de várias lentes. Para mim, esta personagem tão especial merece viver eternamente, mesmo que isso contrarie a sua natureza que é morrer para que seus filhos tenham vida. 

E por fim, a sinopse do livro e uma síntese de um texto crítico da obra a partir da viés do personagem. E feliz dia do livro! 

Sinopse: Depois de evitar que um porco seja abatido por ser nanico (anão), uma menina chamada Fern adota-o e o chama de Wilbur. No entanto, ela é obrigada a separar-se do porco e levá-lo para a fazendo do seu tio, Homer Zucherman. Fern continua tendo uma ligação mútua com Wilbur, mas ele é esnobado pelos outros animais do celeiro. No entanto, ele descobre uma voz invisível que promete fazer amizade com ele, prometendo se revelar ao amanhecer. Wilbur descobre que a voz é de uma aranha chamada Charlotte, e faz amizade com Charlotte. No entanto, descobre que corre risco de ser abatido e por isso, Charlotte faz um plano para tentar salvar a sua vida. No dia seguinte, de manhã, os Zuckermans descobrem uma teia com as palavras porco incrível, atraindo uma grande notoriedade e publicidade. Entretanto, as chances de sobrevivência de Wilbur podem ser reforçadas se outros milagres semelhantes ocorressem. Por isso, Charlotte pede ajuda ao rato Templeton para procurar palavras de inspiração para as mensagens na teia. Ao longo que o tempo passa, mais palavras começam a aparecer nas teias de aranha elogiando Wilbur e dizendo que ele é especial. Logo, Wilbur vai para a feira agropecuária, junto com Charlotte e o guloso Templeton, que só foi convencido a ir à feira por causa dos alimentos descartados ao longo da feira. Logo depois, Charlotte tece um saco contendo seus ovos – que ela se refere como a sua “obra prima” – que é fortemente vigiado por Wilbur. No entanto, o porco fica triste ao Charlotte informar a sua morte iminente. Desolado, Wilbur guarda o saco de ovos deixado por Charlotte antes de sua morte. Porém, Wilbur se entristece ainda mais quando as aranhas vão embora logo após o seu nascimento, deixando apenas três filhotes jovens demais para deixar ainda. Satisfeito por ter feito novos amigos após a morte de Charlotte, Wilbur dá às três aranhas os nomes de Joy, Nellie, e Aranea. O livro conclui-se mencionando que mais e mais gerações de aranhas fizeram amizade e companhia com Wilbur, que agora está salvo da morte.

Minha síntese:

Referência: LUKENS, Rebecca. Character. In: LUKENS, Rebecca J. A critical handbook of children’s literature. 5a ed. New York, Harper Collins, 1994. P. 39-59.

Na introdução do texto a autora destaca falas comuns ditas pelas crianças como: “Eu gosto de histórias onde as pessoas começam o livro de um jeito e o terminam de outro”. A partir dessa frase, a autora argumenta que nós professores ainda temos uma noção superior de que as crianças são imaturas demais para reconhecer o que faz um ser humano inteiro (completo) ou para ver como as pessoas podem ser uma coisa em uma hora e depois se tornar outra pessoa com a passagem do tempo e eventos.

E também que admitimos erroneamente que as crianças não tem nenhuma experiência ou não são treinadas pessoa ficcionais e suas diferenças. Como resultados das hipóteses formuladas argumenta-se que devemos parar de subestimar a capacidade das crianças oferecendo outros títulos além de tradicionais, com personagens mais complexos. Outros aspectos destacados pela autora sobre o potencial que as crianças possuem para compreender as várias facetas do ser humano são:

  • As crianças normalmente sabem e esperam consistência nas pessoas;
  • Os personagens contribuem para que as crianças possam detectar as diferenças nas personalidades nos seres humanos/estórias que eles leem.

Definição de Personagem:

O termo é geralmente usado para significar a agregação de qualidades mentais, emocionais e sociais que distinguem uma pessoa. Na literatura, o termo personagem é usado para representar uma pessoa, ou no caso da literatura infantil, ou as vezes um animal personificado ou objeto. A autora adiciona a palavra “desenvolvimento” que também tem um significado especial.

Outros aspectos à destacar:

  • Na vida o desenvolvimento de um caráter de uma pessoa ou personalidade compreende crescimento e mudança;
  • Na literatura o desenvolvimento de um personagem significa mostrar o personagem – que pode ser uma pessoa, ou animal ou objeto – com a complexidade de um ser humano.
  • Cada um de nós na vida real é tridimensional, isto é, nós somos uma mistura de qualidade.
    No desenvolvimento completo de um personagem no senso literário, o escritor o mostra completo, composto de uma variedade de falhas (facetas) que são aquelas dos seres humanos reais.

O escritor

Tem ambos privilégios e responsabilidade em matéria de desenvolvimento de personagem.
NOTA: Desde que nós acompanhamos um personagem central em uma história é a obrigação do escrito fazer que os pensamentos e as ações destas pessoas acreditáveis. Se o personagem é menos importante, o escritor tem o privilégio de fazer o personagem bidimensional ou até mesmo a representação de um grupo (por exemplo, o irmão mais velho mandão…).
A importância de um personagem em uma história em níveis: primário, secundário, menor ou de fundo, determina o quão completo o personagem é desenvolvido ou compreendido.

2. Revelação do personagem

A autora faz uma comparação:

Para decidirmos se gostamos ou não de um vizinho nós observamos a maneira que eles trabalham, falam, agem, respeitam as regras de convivência… Na literatura o processo é o mesmo, entretanto o escritor tem uma alternativa adicional: ele pode escolher contar/dizer o que os personagens estão pensando. O escritor ou ator pode descrever com detalhes sobre as ansiedades internas, sonhos, padrões de comportamento na infância e vida caseira. Nos tópicos a seguir a autora descrever os modos como é possível caracterizar um personagem utilizando como exemplo a obra “Charlotte’s Web” (em Português, a menina e o porquinho).

2.1 Pelas ações

Ela cita o personagem Templeton como um exemplo de personagem que ações ajudam a definir a natureza dele. Esse personagem em questão tem várias características que suas ações revelam para o leitor, aqui as características são descobertas mediante o comportamento das ações do personagens (grosseira, centrado em si mesmo, etc…)

2.2 Pelo discurso

No livro o personagem se auto caracteriza por ele diz, mostra-se sendo cínico e egoísta, ressentido sobre qualquer tipo de intrusão aos seus propósitos.

2.3 Pela aparência

O personagem Gluttony (o rato) tem muitas características e a aparência dele mostra isso. Há uma série de situações na história em que há modificações corporais nele… Ele tem um grande apetite, cresce mais gordo e maior do que qualquer outro rato conhecido. Neste tópico a autora nos ajuda a identificar nos personagens a partir da aparência traços da personalidade nas análises de livros.

2.4 Pelos comentários de outras pessoas

Templeton é caracterizado pelo que ele faz, o que ele veste e pela maneira ele parece. Contudo, aprendemos mais sobre ele pelos comentários dos outros ao seu respeito. A autora destaca que esse tipo de abordagem é utilizada por muitos escritores, pois sabe-se que nós conseguimos confiar mais nas pessoas por aquilo que ouvimos sobre elas, e portanto os comentários dos outros nos ajudam a mostram o caráter.

2.5 Pelo comentário do autor

O autor faz comentários como: “ele não tem moral, não tem consciência dos seus atos e ações, não tem qualquer escrúpulos…” E assim, conhecemos o personagem com mais profundidade pelo modo como ele é descrito pelo autor. 

NOTA: A riqueza de descrições sobre o desenvolvimento dos personagens pode ter levado aos autores a escolher essa obra.

União entre o personagem e suas ações

O escritor cria um completo repertório de personagens para a estória (alguns importantes, alguns menores, alguns complexos, alguns relativamente simples) através do uso dessas técnicas e a partir da maneira como reconhecemos essas características nos personagens, nós respondemos para elas. A autora dá um exemplo sobre como escritores conseguem unir as características de um personagem e suas ações em uma narrativa. Ela diz que um exemplo muito usado é quando o personagem começa uma história de um jeito (malvado, cruel, egoísta, mimado, etc) e muda as suas atitudes no final da história, e isto no meu ponto de vista contribuí para que o leitor também possa mudar o seu ponto de vista sobre o personagem (antes odiado e depois amado).

Em outro exemplo extraído da obra “The Ugly Duckling” de Hans Christian Andersen, a construção desse personagem é baseada em suas características e também através de suas ações na medida que as provas e perseguições que ele passa em sua vida para o seu amadurecimento determinam uma mudança pessoal dele e do seu caráter, ou seja, a história identifica a realidade de maturidade.

Outros exemplos citados pela autora são: “Strider” de Beverly Cleary que o personagem principal muda os seus hábitos ao achar um cachorro, Strider e a compartilha-lo com o seu melhor amigo Berry e eles passam a correr com frequência, e neste processo ele deixa de ser tão sedentário, faz novos amigos e fica mais feliz com si mesmo. Outro exemplo citado é “Like Jack and me” de Mavis Jukes em que um personagem que tem medo de tudo mas a relação com Alex faz com que ele amadureça em alguns sentidos. E continua dando outros exemplos…

Tipos de personagens

Neste tópico a autora destaca que há muitos termos que descrevem os níveis de desenvolvimento de personagens. Os principais tipos são:

1. “Personagem completo”: É aquele que nós o conhecemos bem, que tem uma variedade de características que faz ele ou ela credível. Como uma pessoa real, este tipo de personagem pode nos surpreender ou responder de modo impetuoso (ou precipitado).
2. “Personagem raso”: É menos desenvolvido e tem menos características (detalhes).
3.“Personagem dinâmico”: É um personagem completo que muda suas características ao longo da história.
4.“Personagem estático”: Apesar deste tipo apresentar credibilidade, ele não muda no curso da história. Estes personagens são essenciais para a história, mas eles não são bem desenvolvidos e não parecem existir como um individual ser humano. Quando um personagem tem poucas características que não o distinguem de um grupo de pessoa, ele pode ser chamado de estereótipo. Outro termo utilizado pela autora é “personagem frustrado”, um personagem que tem poucas características em contraste ao personagem principal, o que favorece ao principal. Estes personagens dão poucas contribuições para se conhecer os seres humanos.

Avaliando personagens na literatura Infantil

Neste tópico a autora destaca alguns aspectos que podem ser avaliados na literatura infantil sobre personagens:

  • Literatura Tradicional: Há muitos tipos de personagem na literatura tradicional que apresentam uma variedade de características e ações.
  • Realismo Animal: São aquelas obras em que os animais ganham características humanas. Algumas críticas são feitas a este tipo de abordagem argumentando a existência de uma concepção antropocêntrica do homem sobre os animais. Ela cita Burnford que desenvolveu os seus personagens primeiramente a partir da observação, e depois descreveu aquilo que ela acredita-se que eles são.
  • Ficção Científica: Atualmente há uma grande preocupação com o desenvolvimento dos personagens, de uma realidade subjetiva, e para a sutileza na linguagem.
  • Clássicos: São livros que continuam a ser lidos independente das gerações, são livros com personagens sólidos e memoráveis (Peter Pan, Os três porquinhos, etc.) e que fazem uma contribuição significante na exploração de características dos seres humanos.

A autora concluí o seu texto destacando que tanto na vida quando nos livros, as crianças podem perceber diferenças nos seres humanos e elas são capazes de reconhecer e responder aos personagens bem desenvolvidos e que até mesmo nas mais simples histórias é possível achar personagens que parecem ser partes da natureza humana, e se isso ajuda as crianças, é preciso investir mais nisso.

O livro Charlotte’s Web está disponível em .pdf aqui.

Confie em seu próprio coração, escreva sua própria história e lute em torno disso!

Publicado em inglês aqui.

QUERIDA MADAME PRESIDENTE 
Uma carta aberta para as mulheres que querem dominar o Mundo. Por Jennifer Palmieri. 180 pp. Grand Central Publishing. $20 (sem previsão de lançamento no Brasil).

Não muito tempo depois de Hilary Clinton inesperadamente perder para Donald J. Trump, a diretora das comunicações de sua campanha, Jennifer Palmieri, investiu seu tempo em torno da ideia de um livro. “Eu fui advertida que se eu não tenho algo polêmico/picante para compartilhar sobre Hillary, isto não será interessante para mim”, ela escreve em “Querida Madame President: uma carta aberta para as mulheres que querem dominar o mundo.” Mas, ela adicionou algo, utilizando uma descrição frequente que Clinton faz dela mesma, “não há qualquer coisa picante sobre Hilary porque ela é uma pessoa simples e séria”.

Em qualquer outro ano de eleição, um livro de conselhos vindo do lado de uma funcionária de alto escalão que atuou na campanha oficial da candidata perdedora não deve ser muito lucrativo. Mas 2016 não foi um ano eleitoral e, como se vê Palmieri tem muita sabedoria para dispensar qualquer pequeno boato sobre Clinton.

Neste volume fino, Palmieri descreve ordenadamente uma história pessoal dela de cortar o coração sobre a morte da irmã dela (portadora de Síndrome de Alzheimer) semanas depois de perder as eleições com lições aprendidas vindo dela em sua longa carreira no Partido Democrático e muita sabedoria e sabedoria ao estilo de Mitch Albom (“Quando o inimaginável acontece qualquer coisa pode ser possível”). Palmieri tinha sido diretora de comunicação do Presidente Obama na Casa Branca quando ela aceitou entrar na campanha de Clinton. Ela (como a maioria de nós) pensou que Clinton poderia vencer e não pensava que ser mulher pudesse ser um obstáculo, especialmente depois que Obama quebrou barreiras raciais. 

Clinton advertiu Palmieri do contrário. Antes da campanha começar, Clinton, “aguentou mais do que uma hora” para recapitular cada escândalo, como o alvoroço causado no Arkansas quando ela resistiu em levar o nome de Bill Clinton para a Casa Branca em sua fracassada campanha presidencial de 2008 em que era favorita, mas perdeu nas primárias do Partido Democrata para Obama. “Ela estava desnorteada, assim como qualquer um pelo fenômeno de Hillary Clinton,” Palmieri escreve.

Avancemos para o dia após as eleições de novembro e Palmieri começou a ver quase tudo sobre a percepção pública de Clinton através do prisma do gênero. Ela se irrita com os apoiadores que perguntaram a ela porque Clinton não teve estrutura emocional para atingir os objetivos do seu discurso de concessão durante a campanha. “Sim, eu tenho certeza que você amou o seu discurso de concessão”, eu pensei. “Por que isto é o que você pensa que é aceitável para uma mulher fazer – admite. 

Em meio a um dilúvio de fofocas contadas por agentes políticos (ou o que os repórteres desabafaram), Palmieri merece crédito por transformar sua história em algo que visa inspirar mudanças positivas – ou pelo menos fazer um presente perfeito para o corpo de estudantes da presidente em sua vida. O livro está enraizado em uma recente tradição e cartas abertas por autoras femininas mais notáveis como Chimamanda Ngozi Adichie’s “Dear Ijeawele, ou A Feminist Manifesto in Fifteen Suggestions.” Mas a auto-ajuda do adesivo de Palmieri pode oferecer para o leitor de uma história atraente.

Palmieri tem estado no centro das panelas de pressão de Whitewater para os hacks russos e pegou conselhos que poderiam beneficiar qualquer mulher (mesmo sem as ambições da West Wing). Ela tem muitas anedotas vívidas: a época em que Obama a encorajou em uma reunião no Salão Oval para parar de se estressar sobre “algum artigo idiota de cunho político”, ou na época em que Clinton insistiu que todos comprassem sorvete para animar seu assessor Huma Abedin depois que a F.B.I. encontrou novos e-mails no computador de seu marido, Anthony Weiner. Por que molhá-los com pablum como: “Confie mais no que seu coração do que no dizem para fazer em sua cabeça”, ou “Se você quer continuar lutando, você nunca será derrotado”?

Palmieri, que trabalhou nas corridas presidenciais de John Edwards, dedica tempo ao resgate da esposa dele, Elizabeth Edwards. Eles negociam em T. J. Maxx e comem em um Sonic Drive-In, o que é algo animador desde que Elizabeth Edwards, que morreu de câncer em 2010, havia sido espetada pela imprensa política, com uma reviravolta memorável em “Game Change”, um livro sobre a campanha de 2008 escrito por Mark Halperin e John Heilemann.

É por este motivo que Palmieri diz que decidiu dar 17 horas de entrevistas a Heilemann para seu livro planejado com Halperin sobre a eleição de 2016. Não importa se esta passagem aparece em uma seção do livro que ensina as mulheres jovens “Não procure o seu papel em sua história – Escreva o seu próprio.” Se você não pode escrever a história, pelo menos, ajude a fazer com que ela seja conduzida. (A Penguin Press cancelou o livro em meio a alegações de má conduta sexual contra Halperin.)

Afiliações políticas à parte, é impossível não gostar e ter empatia por Palmieri, especialmente quando ela escreve sobre a dificuldade que Hilary enfrentou ao ter que equilibrar o fim da campanha mais violenta (em níveis de ofensas e ataques pessoais aos candidatos) da história americana com a notícia de que sua irmã Dana poderia morrer a qualquer momento de início precoce do Alzheimer. Quando a campanha chega ao fim e muitas coisas parecem estar indo contra a direção de Clinton, Palmieri não consegue se livrar de uma sensação desconfortável.

“Foi difícil para ela conseguir separar seus problemas pessoais, como a morte de Dana e tudo o que foi causado pelo fim da campanha”, escreve ela.

Faça você Mesmo: Bola de barbante

As bolas de barbante são lindos ornamentos que podem ser combinados à iluminação ou não. Você pode fazer várias bolinhas pequenas e encaixar em cada lâmpada de um cordão de pisca-pisca, por exemplo, ou pode fazer uma grande e pendurar na lâmpada da sala. Pra que ainda não conhece, olha só o que pode ser feito com elas:

É um tipo de decoração romântica, feminina e que você mesmo pode fazer. O processo é bem parecido com aquele a gente mostrou no passo-a-passo da “Luminária de Renda”.

Materiais:

– Barbante.
– Cola branca.
– Bexiga de festa.
– Amido de milho. (OPCIONAL)
– Água morna.
– Vaselina.
– Um pote de conserva vazio (pode ser de vidro ou de plástico).

Observação: Muita meleca envolvida! Use luvas!

Instruções:

Encha a bexiga no tamanho que você deseja que sua bola fique. Não encha totalmente a bexiga, pra manter o formato redondo da bola.

Se você desejar colocar uma lâmpada dentro da sua bola de barbante, desenhe um círculo no topo de cada bexiga, grande o suficiente para acomodar o soquete e a lâmpada. Esse círculo vai ser o limite na hora de enrolar o barbante na bexiga. Se você for usar um cordão de luzinhas de natal, pode pular esse passo.

Enrole um barbante na ponta da bexiga e pendure no teto. Passe vaselina na bexiga.

Faça a seguinte mistura: 4 xícaras de cola branca, ½ xícara de amido de milho e ¼ xícara de água morna. Misture bem, até sumirem as bolhas.

Faça um furo no centro da tampa do seu pote, o suficiente pra passar o barbante. Acomode o barbante dentro do pote e passe a ponta dentro furo. Despeje a mistura de cola dentro do pote com o barbante dentro.

Agora é só ir puxando o barbante dentro do pote e ir enrolando na bexiga. Enrole no sentido vertical e depois no horizontal até cobrir bem a bexiga.

Deixe secar totalmente a cola (cerca de 24 horas) e estoure a bexiga.

DICA: Pra fazer uma luminária grande, use aquelas bolas infláveis ao invés de bexiga.
Faça bolas de diferentes tamanhos e cores de barbantes e pendure no ambiente que desejar. O efeito é incrível!

Minimalismo – um documentário sobre as coisas que são importantes

Quando comecei a desapegar das coisas que acumulei durante toda a vida comecei a ver o que importa…

Procurando algo para assistir na interminável lista de programas, séries, filmes e documentários na Netflix me deparei com um de título “Minimalistic”, produzido em 2016, que no primeiro momento imaginei que se tratasse apenas de tendências de decoração de ambientes (muito em alta nos últimos 3 anos) especialmente divulgadas no Instagram, no Tumblr e por meio de Youtubers.

O documentário começa analisando as diferentes facetas do consumo em larga escala e um dos participantes que deu depoimento chegou a seguinte conclusão: “Compramos muitas coisas e por isso precisamos de muito espaço. O que acontece é que temos espaço sobrando e somos influenciados a ocupá-los com mais coisas e mais coisas que não precisamos. Isto é como uma prisão, pois não conseguimos nos mover com facilidade, por que as coisas nos prendem aos lugares.”

De fato, mais do que uma simples tendência, o “minimal”, que vem de uma escola de pintura abstrata que vê num quadro um objeto estruturado, composto basicamente de formas geométricas elementares executadas em estilo impessoal, reduzindo ao mínimo seus elementos  se apresenta no filme como uma filosofia de vida bastante interessante que se conecta à vários segmentos do budismo e outras filosofias e movimentos estéticos e arquitetônicos, como o das tiny houses.

Depois que me divorciei percebi que acumular muitos objetos ao longo da vida pode ser algo que pode atrapalhar a flexibilidade e a mobilidade. Dentre as várias mudanças que fiz, acabei perdendo muitos objetos pessoais, alguns de valor sentimental, como livros e roupas que ganhei ou comprei em viagens e isso meio que mexe conosco. As coisas possuem sentido e significado em nossas vidas e isso hoje tem sido muito forte para mim. Por outro lado, desapegar de muitas coisas abriu espaço para o vazio e neste vazio consigo pensar em novas possibilidades e experimentações que podem ser muito boas e trazer renovação e novas esperanças. 

Eu por exemplo sou daquelas que adoro comprar objetos de decoração e guardar aquelas lembrancinhas de festas e de eventos na estante. E assim, as coisas vão acumulando, mas ao desapegar de livros, móveis, roupas e objetos há espaço. E neste espaço eu posso refletir muito antes de preenchê-lo com novas coisas. Posso pensar sobre cada uma delas, pois o espaço que elas ocupam numa casa deve refletir um processo de pensamento e construção dentro de mim mesma do lugar para elas. 

No documentário alguém disse “não queremos apenas coisas, queremos o que as coisas trazem para nós”. Eu acrescentaria: “queremos que as coisas façam sentido para nós e depois ocupem espaço. Um sentido que vá além do utilitarismo de um objeto, uma roupa, um móvel ou um livro que li uma vez e guardei para nunca mais pegá-lo novamente”. 

Além de proporcionar esse tipo de reflexão sobre nossa relação com o consumo e os objetos, o documentário apresenta exemplos de pessoas que tomaram decisões radicais em suas vidas. Um ex-corretor de Wall Street mencionou ter passado muitos anos lutando arduamente para chegar ao topo com toda a garra que existe. Assim como outros, percebeu que muitas pessoas bem-sucedidas não eram felizes e desperdiçavam os melhores anos das suas vidas. E decidiu que iria tentar ser bem sucedido e também feliz. O que ele fez? Decidiu parar tudo que fazia, criou um blog, se livrou de boa parte das coisas que comprou e decidiu viajar procurando a felicidade. Eu queria ter este tipo de coragem e admiro muito quem faz. 

Meu processo com relação as coisas e o meu modo de comprar tem sido bem personalizado e adaptado ao tipo de vida que levo hoje. Cada pessoa o faz do seu próprio modo e assim vamos nos transformando nessa dança de desapega-adquire-novas-coisas-repensa-desiste-insiste. 

E ah, algo importante… Muito importante mesmo para quem não entendeu ainda o que significa ser minimalista.

Outra pessoa contou algo que muito me lembrou de como tenho vivido nos últimos meses depois que tive minha mala furtada de um hostel (não vou dizer qual por que eles foram super atenciosos e fizeram o possível para descobrir o que houve, sem muito sucesso). Depois que perdi todas as minhas roupas, fiquei com umas 8 ou 9 peças e sem dinheiro para gastar com isso, pois outras coisas para sobrevivência era mais importante. 

Voltando para o documentário,  Courtney Carver, uma americana que passou por uma situação semelhante (excluindo a parte do roubo made in Brazil) criou o projeto 333 – Simple is the new black), que consistiu em passar 3 meses utilizando apenas 33 itens de roupas, posando no instagram, postando em seu blog e ainda ganhando likes como qualquer outra fashionista que compra horrores e tem aqueles armários explodindo de tantas peças maravilhosas. 

O que ela revelou é tudo aquilo que já sabemos, mas não conseguimos acreditar frente às pressões sociais: NINGUÉM LIGA! É isso mesmo, viver com apenas 33 peças de roupas e ninguém se importa. O segredo para o sucesso? Peças de cores neutras e variadas (jeans, camisetas, casacos, camisa longa, suéteres. moletons e muitas peças pretas e cores que combinam bem). Com isso ela mostrou que é possível se vestir bem e adequadamente sem gastar muito e ter mais espaço para outras coisas ou dividi-lo com outras pessoas.

Em matéria para o “Review Slow Living” a autora do projeto foi além:

Ela não fazia ideia é que milhares de leitores também incorporariam esse desafio minimalista! Agora, já adepta do “slow fashion lifestyle” há quatro anos, ela também viaja com poucos itens na mala e acredita que o projeto tenha mudado não só sua bagagem, mas também sua visão de mundo

Por causa do sucesso do desafio, ela criou uma espécie de guia com algumas dicas para ajudar as pessoas que gostariam de reduzir as peças do seu armário e pensar em formas mais criativas de utilizar suas peças de roupas.

Princípios básicos:

Quando? A cada três meses. Nunca é tarde demais para começar, você pode aderir a qualquer momento.

O que? 33 peças, incluindo roupas, acessórios, jóias, vestuário e calçados.

O que não? esses itens não são contados como parte dos 33 – anel de casamento ou outra jóia sentimental que você nunca tira, lingeries, pijamas, roupa para ficar em em casa e de ginástica.

Como? ao escolher suas peças, guarde o resto de suas roupas, deixe tudo fora de vista e de alcance.

O que mais? considere que você está criando um guarda roupa em que você pode viver, trabalhar e se divertir/sair, por três meses. Lembre-se que este não é um projeto de sofrimento, se suas roupas não servem mais por algum motivo, ou estão em mau estado, substitua-as, sem complicações.

Dicas Bônus

– Use a primeira semana para se ajeitar e adaptar sua seleção de roupas. Também aproveite para doar algumas pecas, caso perceba que existem coisas fora de uso.

– Escolha três peças adicionais e deixe-as separadas em seu armário, para substituir por outras da sua seleção 33.

– Você pode trocar roupas com outras pessoas que participam do Projeto 333. É só postar os itens na página do facebook e se conectar com quem também escolheu participar e viver com menos roupas.

Acima de tudo:

Ainda mais importante do que escolher as roupas, é ser honesto e incluir apenas as que estão em bom estado e que podem ser coordenadas entre si. A autora gosta de frisar que esse não é um projeto para envolver frustração e nem sacrifício, ela só espera que o Projeto 333 traga alegria e leveza e uma maior consciência sobre a quantidade de roupas que a gente realmente precisa para viver bem.

O autor de “Life Edited” compartilhou ideias interessantes para organizar e desenvolver suas vida para incluir mais dinheiro, saúde e felicidade e com menos coisas, espaço e consumo de energia. Uma delas é de como transformar espaços pequenos em ambientes agradáveis e magicamente “mais espaçosos” e funcionais, nem que seja só aparente (para ser bem sincera, ter que desmontar a cama todos os dias é algo meio desconfortável para mim). Tudo muito limpo, com cores neutras e mobiliário simples, que pode ser comprado em qualquer loja de móveis. A parte tecnológica me pareceu interessante, com o uso de aplicativos para regular cortinas, abrir portas e outras funções: misturar a simplicidade, organização, espaços pequenos e internet das coisas me parece uma tendência que veio para ficar. 

Para os mais conservadores, este tipo de movimento parece coisa de radicais (os autores do documentário relataram ter sido comparados com ativistas veganos) sendo acusados de serem uma “ameaça ao sistema” que fortemente incentiva o consumo em larga escala. No começo do movimento só algumas pessoas se interessaram, mas é assim que surgem as boas ideias. Eu penso algo, compartilho com uma ou duas pessoas que fazem isso em suas casas e compartilham suas experiências e isto vai se multiplicando para um maior número de pessoas e de repente… Vira uma tendência de estilo e filosofia de vida. 

Em depoimento emocionante, um participante disse: “quando aderi a esta filosofia comecei a pensar coisas como – quero ter um apartamento do meu jeito. Mas como é o meu jeito? Como este quadro define o meu jeito grosseiro, honesto e complicado de ser? Como esta cafeteira demonstra o homem que eu sou? Do que mais eu preciso para me sentir satisfeito?”

O Minimalismo enquanto filosofia de vida te ajuda a refletir sobre como as coisas podem dizer ao nosso respeito e isso nos ajuda a realizar melhores escolhas e compras conscientes. Então após passarmos por aquele momento de tirar tudo do armário, vamos recolocando novas peças e novos objetos pensando na utilidade, na estética, no valor emocional e como cada peça fala sobre nós. Como nosso espaço de moradia fala sobre nós mesmos em tempos de “kits de seja-assim-assado” e de pacotes de qualidade e de casas todas iguais, tudo muito igual (afinal, tudo igual é tão chato, não é mesmo?). Sendo assim, o minimalismo nos ajuda nessa busca por uma identidade que se perde no meio de tantas coisas.

Resumindo: Tudo pode ser de outros (pessoas, épocas, lugares, lojas, etc), mas aquela xícara me representa por tal motivo. Resolvido!

E por fim, uma mensagem renovadora sobre a arte de morar bem: “ame as pessoas, use as coisas e nunca ao contrário, porque raramente dá certo”. Dica anotada! 

 

 

 

 

Doze dicas para terminar TCC, dissertação de mestrado e tese de doutorado

 Postagem do blog da Biblioteca Central da UFRGS e estou compartilhando aqui.

Pela primeira vez aqui no blog, resolvi pedir a colaboração de colegas professores. Perguntei quais conselhos eles dariam para ajudar os estudantes a terminar seus trabalhos de conclusão de curso de graduação, dissertações de mestrado e teses de doutorado. O resultado foram doze carinhosas lições e dicas – as seis primeiras seguem abaixo.

Minha gratidão e abraço apertado a Aparecida Fonseca Moraes e Adriana Facina, que colaboram neste post. As fontes estão ao lado de cada citação, mas a responsabilidade pela edição, curadoria e eventuais erros de interpretação é minha.

1. Não esquecer do sonho por trás do trabalho:

A professora Aparecida Fonseca Moraes fez um relato sobre seus tempos de mestrado que me emocionou:

Lembro-me que trabalhava tão arduamente na escrita da dissertação que não tinha interesse nem nas necessidades físicas mais básicas, como dormir ou comer. Uma coisa, porém, me relaxava e oferecia ânimo novo: os poemas e outros escritos de Pablo Neruda. Foi por isso que, até o final do mestrado, me acompanhou uma frase do livro autobiográfico do autor, ‘Confesso que vivi’:

“A intermitência do sonho é que nos permite suportar os dias de trabalho”.

Parafraseando Neruda: confesso que assim sobrevivi. (Aparecida F. Moraes)

Amei a frase! Fui até procurar “intermitência” no dicionário, para ter certeza de que tinha entendido. 😉 Mas depois desencanei, porque o sentido do verso foi o conforto que a Aparecida encontrou para escrever, não esquecendo dos sonhos que a moveram para escrever um trabalho acadêmico.

Achei aqui uma versão inteira do poema de Neruda; e achei aqui vários outros textos e vídeos do poeta para inspirar.

2. Concentrar-se no processo: desligar das redes sociais

Adriana Facina escreveu três conselhos simples e profundos, que me tocaram muito! Desdobrei em quatro para dar destaque a cada passo descrito por ela. O primeiro:

Escrever, especialmente trabalhos de grande monta como dissertações e teses, exige foco, disciplina e um certo desligamento do mundo. Meu conselho número 1 a todas e todos que estão nesse processo é: saia das redes sociais.

Aqui você encontrará problemas políticos que vão te preocupar e te trazer incertezas sobre o futuro, debates estéreis (tretas) nos quais você vai querer opinar e que vão sugar suas energias, um monte de gente aproveitando as férias e lugares maneiros aonde você queria estar, eventos que você gostaria de frequentar etc.

Tudo isso rouba seu tempo e sua capacidade de trabalho. Acredite: nós escrevemos mesmo quando não estamos escrevendo. Ainda que nos momentos em que estamos distantes da tela do computador, nossa cabeça está funcionando no modo escrita, elaborando ideias e formatos que se tornarão textos. É muito importante a gente se concentrar nisso. Se divertir, se distrair é importante, mas procure aquelas atividades que te refazem e reenergizam, não as que desgastam e dispersam. (Adriana Facina)

Nossa, esse conselho vale para a vida, a qualquer momento, não apenas para quem está escrevendo tese, concordam? Eu teria naufragado se tivesse que fazer pós-graduação num mundo com redes sociais.

3. Curtir a escrita

Mais um conselho perfeito da professora Adriana Facina:

[Meu] conselho número 2 é: aproveite a escrita. É difícil. Por vezes, solitário. No entanto, é um processo desafiador, instigante, cujos resultados podem ser muito prazerosos (ainda que dificilmente o processo em si o seja).

Faça bons cafés, beba um drink de cara pro computador se isso te ajudar, ouça música ou prefira o silêncio. É a sua arte. Se dedique a ela. Encontre sentido. É sua escolha. É você se inscrevendo no mundo. É o seu pensar autônomo. Não deixe que nada te roube essa experiência tão forte e especial. (Adriana Facina)

Fiquei tão feliz de ler isso! A Adriana tocou num ponto fundamental para mim. É uma delícia quando a gente consegue engrenar no fluxo da escrita, aquele que desliga os sentidos para o mundo lá fora. Vivo para isso. Taí, inclusive, a razão desse blog existir.

4. Cercar-se de pessoas que te ajudem

A quarta lição, e o conselho número três da Adriana:

Procure ajuda se precisar. Se a relação com orientador não estiver fluindo bem (ou mesmo que esteja, mas que não seja o suficiente pra você), procure amigos, pessoas de confiança afetiva e/ou intelectual, parentes. Peça que leiam. Discuta seu trabalho com elas. Mergulhe nisso. Fique obsessiva. Quanto mais a gente mergulha e vive nosso tema, mais insights de escrita surgem. (Adriana Facina)

Esse trecho me lembrou de uma história. No auge do meu sofrimento no doutorado, com o orientador pressionando para que eu defendesse no prazo mínimo, uma das coisas que mais me ajudou foi dar um telefonema. Liguei para a Myriam Lins de Barros, uma das professoras que iria participar da minha banca, e expliquei como estava me sentindo: cheia de dores, ansiosa e fraca, fisica e emocionalmente. Ainda hoje me lembro da voz dela, calma e serena, me tranquilizando de que não havia qualquer problema em adiar a defesa por quatro meses e que ela se dispunha a ligar para o meu orientador para me dar apoio. Nossa, que bálsamo ouvir aquilo! Foi a partir desse dia que consegui retomar a escrita e seguir em frente. Obter apoio de pessoas significativas, que nos afetam, seja no plano pessoal ou acadêmico, tem um valor imenso na conquista da estabilidade necessária para produzir!

5. Ler autores e livros que te inspirem

A quinta lição, e última parte dos conselhos da Adriana Facina:

Por fim, nas horas de descanso, recomendo que leia textos que inspiram a escrever. A hora da estrela, da Clarice Lispector, tem uma linda introdução falando sobre escrita. Mas existe muita coisa disponível, inclusive um blog bem bacana: https://comoeuescrevo.com/. Isso ajuda no compartilhamento dessa experiência incrível que é escrever. Bom trabalho! (Adriana Facina)

Não sei vocês, mas eu vou procurar o meu exemplar de A hora da estrela. Não lembrava que havia uma introdução sobre escrita nesse livro! Sobre o blog “Como eu escrevo”, estou devendo uma entrevista lá! É um site cheio de escritores e professores contando seus rituais e métodos de escrita.

Também nunca é demais recomendar a leitura dos Anexos de A sociedade de esquina (William Foote Whyte), do apêndice “Algumas reminiscências e reflexões sobre o trabalho de campo” do livro Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande (E. Evans-Pritchard), a obra Truques da escrita (Howard S. Becker), além da lista incrível sobre escrita acadêmica compilada pela Eva Scheliga em seu blog …E ETC. *

Claro que, como sugeriu a Adriana Facina, literatura inspira e muito! Meus autores favoritos nessas horas são Mário de Andrade, Eça de Queirós, Virginia Woolf, Oscar Wilde, Anne Lamott, Umberto Eco, Agatha Christie… Na verdade, qualquer texto que me traga bom humor e inspiração já é um grande estímulo!

6. Visualizar a tese pronta

escrevendo tese prontap

Para encerrar as dicas de hoje, retomo a palavra da professora Aparecida Fonseca de Moraes sobre suas memórias de escrita:

Lembrei de outra que adoro contar.  No período de árduo trabalho de escrita da dissertação, meu filho, com mais ou menos dez anos, desenhava esplendidamente e montava algumas estórias em quadrinhos (não foi à toa que acabou trabalhando com cinema).

Bem, um dia chego em casa e encontro um desenho incrível sobre a minha mesa de trabalho. A cena: Um computador grande, como aquele que eu usava para trabalhar, com um personagem ao lado que apertava apenas uma tecla. Do aparelho saíam folhas de um documento onde se lia: “tese pronta”!  Claro que ri muito, mas fiquei imaginando a ansiedade dele para que esse “rival” saísse logo de nossas vidas… rs (Aparecida F. Moraes)

Que delícia de história, que vontade de apertar esse menino nos braços! Queria ter uma super memória para me lembrar de todas as situações desse tipo que já me contaram. Se vocês souberem de alguma, escrevam nos comentários por favor! No meu caso, só tive filhos depois de terminar o doutorado… Por isso, a marca do excesso de trabalho não ficou tão forte nas crianças. Para todos que estão escrevendo: lembrem da delícia que será cumprir as promessas sobre a vida pós-tese que vocês estão fazendo para os amores e família!

[Continua na Parte 2 aqui.]

 Kuschnir, Karina. 2018. “Doze dicas para terminar TCC, dissertação de mestrado e tese de doutorado (Parte 1)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com, url: https://wp.me/p42zgF-3Cz. Acesso em [14/04/2018].

(Evento online e ao vivo): A Literatura Infantil no Século XXI

Descrição extraída da divulgação aqui:

“Você é nosso convidado para um bate-papo com grandes nomes da literatura infanto-juvenil como Ana Maria Machado, Ilan Brenman, Ricardo Azevedo, Lourdes Atié e Marcos Ribeiro.”

Sobre o evento:

A todo momento, encontramos polêmicas nas redes sociais e alguns pais consideram esses temas inadequados para as crianças. Entendemos que debater determinados assuntos faz parte da formação dos pequenos, por isso, nossa principal ideia é falar sobre esses conteúdos. Esperamos por você!

Por que precisamos criar um lar?

Hoje eu estava pensando em como decorar meu apartamento gastando o mínimo possível e procurando algumas ideias interessantes na internet, quando achei esse texto, que complementa as leituras do livreto “Calma & Relacionamentos” do The School of Life.

Segue abaixo. O original está publicado aqui.

Uma das atividades mais significativas que realizamos está na criação de uma casa. Ao longo de vários anos, normalmente com muito pensamento e dedicação considerável, juntamos móveis, panelas, quadros, tapetes, almofadas, vasos, aparadores, torneiras, maçanetas, entre outros, em uma constelação peculiar que associamos à palavra “casa”. Enquanto criamos nossos ambientes, ficamos envolvidos com a cultura com uma empolgação que raramente temos nos domínios supostamente mais altos de museus e galerias. Refletimos profundamente sobre o ambiente para um quadro, pensamos na relação entre cores em uma parede, notamos a consequência que o formato do encosto de um sofá pode ter e questionamos cuidadosamente quais livros realmente merecem nossa atenção constante.

Nossas casas não serão necessariamente os ambientes mais atraentes ou suntuosos nos quais poderíamos passar um tempo – sempre há hotéis ou espaços públicos muito mais impressionantes, mas, depois de fazermos uma longa viagem, depois de muitas noites em quartos de hotel ou camas de amigos, normalmente sentimos uma vontade imensa de voltar para o nosso próprio lugar, uma dor que tem pouco a ver com o conforto material em si. Precisamos voltar para casa para lembrar quem somos.

Nossos lares têm uma função de memorização e o que eles nos ajudam a recordar é, estranhamente, a nós mesmos. Podemos ver esta necessidade de ancorar a identidade em matéria na história da religião. Desde o início, os humanos tiveram enorme cuidado e criatividade na construção de lares para seus deuses. Não sentiam que eles poderiam viver em qualquer lugar, na floresta, como se ficassem em hotéis; acreditavam que precisavam de lugares especiais, lares-templos, onde seu caráter específico poderia ser estabelecido através da arte e da arquitetura.

Para os gregos antigos, Atena era a deusa da sabedoria, racionalidade e harmonia e, em 420 a.C., concluíram uma casa para ela nas encostas da Acrópole. Não era uma casa grande – tinha o tamanho de uma cozinha americana –, mas era excepcionalmente adequada e bonita. O templo parecia digno, mas acessível. Era rigorosamente equilibrado e lógico, sereno e sóbrio. Era sua moradora habilmente esculpida em calcário.

Os gregos cuidavam muito do lar-templo de Atena porque entendiam a mente humana. Sabiam que, sem a arquitetura, lutamos para nos lembrar do que gostamos – e, mais amplamente, de quem somos. Ouvir as palavras de que Atena representava graça e equilíbrio não seria suficiente. Precisava haver uma casa para concretizar a ideia de maneira firme e contínua.

Sem ter nada grandioso ou sobrenatural em mente, nossas casas também são templos – para nós. Não esperamos ser adorados, mas estamos tentando criar um lugar que, como um templo, incorpore adequadamente nossos valores.

Criar uma casa é frequentemente um processo muito árduo porque exige que encontremos nosso caminho até objetos que possam transmitir corretamente nossas identidades. Podemos ter de fazer esforços enormes para rastrear o que consideramos ser os objetos “certos” para funções em particular, rejeitando centenas de alternativas que teriam – no sentido material – sido perfeitamente úteis, em nome daquelas que acreditamos comunicar fielmente a mensagem certa sobre quem somos.

Ficamos exigentes porque os objetos são, à sua maneira, imensamente eloquentes. Duas cadeiras que têm basicamente o mesmo papel físico podem articular visões de vida totalmente diferentes.

Uma cadeira do arquiteto suíço do século 20 Le Corbusier emanará eficiência, empolgação com o futuro, espírito internacional, impaciência com a nostalgia e devoção à razão. A outra, do designer inglês do século 19 William Morris, demonstrará a superioridade do mundo pré-industrial, a beleza da tradição, o chamado da paciência e a atração do local. Podemos não reproduzir roteiros tão precisos em nossa mente ao olharmos para as cadeiras, mas logo abaixo do limiar da consciência podemos ser altamente reativos às mensagens que tais objetos transmitem de forma constante e perpétua ao mundo.

Um objeto parece “certo” quando representa lindamente qualidades que nos atraem, mas das quais não temos doses suficientemente fortes em nossa vida cotidiana. O objeto desejável nos dá uma percepção mais segura dos valores que estão presentes, mas são frágeis, em nós mesmos; ele endossa e estimula temas importantes em nós. As menores coisas em nossas casas sussurram em nossos ouvidos, oferecem estímulos, lembretes, pensamentos consoladores, advertências ou corretivos, enquanto preparamos o café da manhã ou fazemos as contas à noite.

Como todos queremos e precisamos ouvir essas coisas, seremos levados na direção de tipos muito diferentes de objetos. Há um lado profundamente subjetivo na sensação de beleza. Entretanto, nossos conflitos quanto a gosto não são arbitrários nem aleatórios – são fundamentados no fato de que os tipos de mensagens aos quais será bom nos expormos variarão dependendo do que é provisório e está ameaçado em nossa vida.

A busca por construir uma casa está conectada a uma necessidade de estabilizar e organizar nossos “eus” complexos. Não é suficiente saber quem somos em nossa mente. Precisamos de algo mais tangível, material e sensorial para fixar os aspectos diferentes e intermitentes de nossa identidade. Precisamos usar certos tipos de talheres, estantes, armários e poltronas para nos alinharmos com quem somos e queremos ser. Não estamos nos vangloriando; estamos tentando juntar nossas identidades em um receptáculo, preservando-nos da erosão e da dispersão. “Lar” significa o lugar onde nossa alma sente que encontrou seu recipiente físico adequado, onde, todos os dias, os objetos em meio aos quais vivemos silenciosamente nos lembram de nossos compromissos e amores mais autênticos.

Pra quem mora em São Paulo vai rolar uma aula especial no dia 18/04. Inscrições aqui!

O plágio acadêmico como um problema ético, jurídico e pedagógico

Lívia Haygert Pithan, Tatiane Regina Amando Vidal

Resumo:

O plágio tem sido objeto de crescentes preocupações no meio acadêmico brasileiro. Órgãos públicos de financiamento de pesquisa científica, tais como o CNPq, a CAPES e a FAPESP, desde o ano de 2011, têm emitido documentos para orientar que as instituições de ensino tomem medidas preventivas e punitivas em casos de fraude – dentre as quais se inclui o plágio. No âmbito universitário, destaca-se o papel educativo do professor orientador de trabalhos acadêmicos de graduação e pós-graduação. Todavia, há escassa bibliografia nacional sobre a relação entre orientandos e orientadores, sendo que as funções deste também não são claramente determinadas em obras de metodologia da pesquisa ou do ensino. Este artigo busca apresentar uma revisão bibliográfica do plágio, considerado aqui um fenômeno complexo, que necessita ser analisado de forma interdisciplinar e não apenas jurídica.

Palavras-chave:

Plágio; Ética; Direitos autorais; Professor orientador; Integridade na pesquisa; Fraude.

Texto completo: PDF

Por que nos cansamos tão rápido das coisas, lugares e pessoas?

Observando o modo como algumas pessoas vivem, especialmente aquelas que passam toda a sua vida no mesmo bairro, na mesma rua, mora na mesma casa, estão com a mesma pessoa, trabalham no mesmo posto e função há tantos anos, me pergunto porque nós (os mais jovens) nos cansamos tão rápido e queremos de uma maneira inconsciente algo diferente ou novo? 

Seria o tédio e a insatisfação os maiores vilões do bem estar? Afinal de contas poderíamos todos estar de bem com a vida, tranquilo e felizes em alguma medida se não fosse por aquelas insatisfações diárias que nos faz querer sempre algo a mais, um desconforto que posso afirmar que não vem de nós mesmos. É interessante ter vontade de comprar algo novo, seja uma roupa, mobília, uma pequena reforma, viajar para um lugar diferente, conhecer novas pessoas, lugares e experimentar coisas variadas, mas nem sempre isso significa que alguém poderá ser considerado com mais conteúdo ou mais “bem vivido” do que outros que não tiveram as mesmas oportunidades por inúmeros motivos. 

Ser aquela pessoa que viveu inúmeras experiências ou conheceu muitos lugares, leu muitos livros, assistiu muitos filmes não faz de alguém melhor ou mais interessante, ao contrário, essa pessoa pode ter toda essa bagagem e laços frágeis e pouca entrega e disposição em conhecer alguém ou ser conhecido em sua completude. Isso vale para todas as áreas: afetiva, profissional, familiar, pessoal… Por outro lado, queremos sempre mostrar que somos úteis e bons em algo e queremos ser reconhecidos por aquilo que sabemos ou fazemos, mas há tempo e espaço pra tudo e não há porque de se desesperar por que isso não aconteceu.

Há muita coisa nova acontecendo e a tendência é que aquilo que não tem tanta graça desapareça no mar das novas inovações, contudo aquilo que não é visibilizado não significa que não é mais útil, apenas não é tão interessante para um grupo de pessoas hoje por elas terem outros interesses.

Alguém me disse que outro motivo para as pessoas estarem doentes e muito exaustas é por uma cobrança excessiva para que elas sejam algo que elas não podem ser hoje, não foram ontem, mas que talvez possam ser um dia (sem que isso se torne uma obrigação). A insatisfação pode causar outros problemas como por exemplo, fazer escolhas erradas ou obter débitos por compras impulsivas motivadas por desejos repentinos de trocar de carro, casa ou sofá. A questão é que a insatisfação em obter uma coisa nova sempre a cada impulso e este mesmo raciocínio aplicado a pessoas e a relacionamentos pode nos transformar em pessoas cheias com muitas habilidades e características, mas sem aquele sentido de pertencimento.

É possível que haja uma ligação entre cansar de algo que não nos motiva e buscar algo novo e ter aquilo que nos torna permanente em um lugar, permanente e presente de forma completa (parece redundância, mas acredite em mim, é possível viver em piloto automático, ou até mesmo criar cópias de si mesmo para fazer coisas que você não pode ou não quer fazer). 

O não contentamento com aquilo que temos hoje nos torna infelizes e insatisfeitos de um modo geral com o que somos agora. Um pouco de insatisfação nos ajuda a mudar algumas coisas que nos prendem em rotinas e nos estagnar, mas quando isso é algo constante nos prejudica, pois nos torna inconstantes e poucos dedicados a algo em específico. Talvez pode valer a pena investir em algo a longo prazo e se manter firmes naquilo mesmo quando brotar o sentimento de desânimo e daquele velha máxima que “a grama do vizinho sempre é melhor”, quando na verdade é a nossa que merecia um cuidado melhor, uma nova plantinha, uma casinha para os cachorros…