Dia do Livro Infantil: 18 de abril

Para comemorar o dia do livro infantil reli trechos de um livro indicado durante a disciplina de Literatura Infantil com a professora Rosa Maria Hessel Silveira extraído de um texto de Rebecca Lukens: A Teia de Charlotte (no original Charlotte’s web), que muito me marcou, pois o “destino” da gentil, amável, leal e doce aranha não ficou muito claro para os leitores da obra tanto no original quanto na produção cinematográfica.

Na literatura infantil é comum “suavizarmos” temas mais delicados e profundos, o que é uma questão polêmica entre os especialistas em educação infantil, já que as crianças precisam ter diferentes experiências com os livros, dentre estas, poder sentir a dor da perda de um personagem tão querido (quando isto acontece). Pra ser bem sincera, o que mais gostei no livro, além da amizade desenvolvida entre duas espécies tão diferentes como uma aranha e um lindo porquinho, foi da representação de uma espécie que comumente aparece nos livros como um ser “asqueroso”, “venenoso” e “horripilante”, como sendo boa. Por outro lado a tamanha devoção da aranha pelo lindo porquinho demonstrado em forma de apoio incondicional deixa algumas marcas que me faz pensar sobre o sentido da generosidade. Eu me percebo como alguém que muitas vezes foi tão gentil e aberta com tantas diferentes pessoas e que nem sempre fui correspondida a altura. Na maioria vezes recebi milhões de espinhos e muito desprezo e com isso aprendi muito sobre mim mesma e fui até ficando mais individualista, fria e insensível para muitas coisas que aconteciam em minha volta.

Apesar disso, esse trecho abaixo é muito emocionante para mim, pois mostra uma capacidade importante dos seres humanos: a de dar por apenas querer dar e em troca receber apenas a amizade ou qualquer mínima relação de afeto, mesmo que isso gere desconfiança. 

Alguém já se sentiu nesta situação? Eu sim, muito recentemente. 

Eu confesso ter medo de aranhas assim como de baratas e escorpiões, mas uma aranha tão simpática e que de tão amorosa foi chamada de “joy” (que quer dizer alegre e feliz) eu definitivamente não esperava ver algo assim, ponto para o livro que fez uma enorme diferença em minha vida. Embora a história se apresente no Brasil como a relação entre a menina e o porquinho, levando a uma interpretação de que a menina não é um dos personagens centrais da história, como argumentado por  Rebecca Lukens, mas sim a própria aranha (em minha opinião).

A menina se destaca de modo expressivo quando no médico registra-se o seguinte fato: “ela acredita que animais falam” e isto mostra um pouco da fantasia que envolve a literatura infantil em que seres inanimados podem ganhar vida na imaginação das crianças e fazer parte de suas construções, algo que os adultos se esquecem quando crescem é que já passaram por isso. Eu me considero uma mulher de 31 anos que se encanta ao ver animações e livros de literatura infantil com diferentes seres com habilidades e sentimentos humanos. Sobre a imaginação infantil este trecho é brilhante:

E quando se trata de animais podemos reconhecer que estes possuem sentimentos como dor, amor por alguém e pressentimento quando algo de ruim pode acontecer com eles. Este artigo, por exemplo, diz que os animais sentem ainda mais dor do que os seres humanos. Outro momento marcante da obra é quando o porquinho precisa lidar com a frustração de não ter sido o vencedor (algo que significou mais para a aranha e o porquinho do que para a menina). Eu senti uma espécie de “ranço” quando eu vi a reação da menina, afinal todo crédito era do porquinho e pra ela aquilo não significava tanto. Para o porquinho sim, ele teve que lidar com a decepção, mas logo depois superou tudo.

E por fim, a despedida da aranha e o encontro do porquinho com suas três filhas. Como todos sabem as aranhas não vivem muito tempo e dizem que em algumas espécies é comum que seus filhos se alimentem do seu próprio corpo. O modo como a aranha saí de cena me recorda muito o que acontece com os animais quando estão para morrer, eles se afastam dos seres humanos e ficam lá quietinhos em seus últimos momentos. Eu já perdi vários animais deste modo e a dor é horrível, quase insuportável e mais ainda é o sentimento de impotência diante de algo que não podemos mudar, apenas esperar e seguir adiante. A demonstração de afeto de Wilbur para Charlotte é emocionante e definitivamente um lindo testemunhal contado para suas filhas: Joy, Aranea e Nellie.

Lindo, não acham?

Este ciclo de vida dos animais que raramente é percebido pelos seres humanos pode ser analisado nesta obra a partir de várias lentes. Para mim, esta personagem tão especial merece viver eternamente, mesmo que isso contrarie a sua natureza que é morrer para que seus filhos tenham vida. 

E por fim, a sinopse do livro e uma síntese de um texto crítico da obra a partir da viés do personagem. E feliz dia do livro! 

Sinopse: Depois de evitar que um porco seja abatido por ser nanico (anão), uma menina chamada Fern adota-o e o chama de Wilbur. No entanto, ela é obrigada a separar-se do porco e levá-lo para a fazendo do seu tio, Homer Zucherman. Fern continua tendo uma ligação mútua com Wilbur, mas ele é esnobado pelos outros animais do celeiro. No entanto, ele descobre uma voz invisível que promete fazer amizade com ele, prometendo se revelar ao amanhecer. Wilbur descobre que a voz é de uma aranha chamada Charlotte, e faz amizade com Charlotte. No entanto, descobre que corre risco de ser abatido e por isso, Charlotte faz um plano para tentar salvar a sua vida. No dia seguinte, de manhã, os Zuckermans descobrem uma teia com as palavras porco incrível, atraindo uma grande notoriedade e publicidade. Entretanto, as chances de sobrevivência de Wilbur podem ser reforçadas se outros milagres semelhantes ocorressem. Por isso, Charlotte pede ajuda ao rato Templeton para procurar palavras de inspiração para as mensagens na teia. Ao longo que o tempo passa, mais palavras começam a aparecer nas teias de aranha elogiando Wilbur e dizendo que ele é especial. Logo, Wilbur vai para a feira agropecuária, junto com Charlotte e o guloso Templeton, que só foi convencido a ir à feira por causa dos alimentos descartados ao longo da feira. Logo depois, Charlotte tece um saco contendo seus ovos – que ela se refere como a sua “obra prima” – que é fortemente vigiado por Wilbur. No entanto, o porco fica triste ao Charlotte informar a sua morte iminente. Desolado, Wilbur guarda o saco de ovos deixado por Charlotte antes de sua morte. Porém, Wilbur se entristece ainda mais quando as aranhas vão embora logo após o seu nascimento, deixando apenas três filhotes jovens demais para deixar ainda. Satisfeito por ter feito novos amigos após a morte de Charlotte, Wilbur dá às três aranhas os nomes de Joy, Nellie, e Aranea. O livro conclui-se mencionando que mais e mais gerações de aranhas fizeram amizade e companhia com Wilbur, que agora está salvo da morte.

Minha síntese:

Referência: LUKENS, Rebecca. Character. In: LUKENS, Rebecca J. A critical handbook of children’s literature. 5a ed. New York, Harper Collins, 1994. P. 39-59.

Na introdução do texto a autora destaca falas comuns ditas pelas crianças como: “Eu gosto de histórias onde as pessoas começam o livro de um jeito e o terminam de outro”. A partir dessa frase, a autora argumenta que nós professores ainda temos uma noção superior de que as crianças são imaturas demais para reconhecer o que faz um ser humano inteiro (completo) ou para ver como as pessoas podem ser uma coisa em uma hora e depois se tornar outra pessoa com a passagem do tempo e eventos.

E também que admitimos erroneamente que as crianças não tem nenhuma experiência ou não são treinadas pessoa ficcionais e suas diferenças. Como resultados das hipóteses formuladas argumenta-se que devemos parar de subestimar a capacidade das crianças oferecendo outros títulos além de tradicionais, com personagens mais complexos. Outros aspectos destacados pela autora sobre o potencial que as crianças possuem para compreender as várias facetas do ser humano são:

  • As crianças normalmente sabem e esperam consistência nas pessoas;
  • Os personagens contribuem para que as crianças possam detectar as diferenças nas personalidades nos seres humanos/estórias que eles leem.

Definição de Personagem:

O termo é geralmente usado para significar a agregação de qualidades mentais, emocionais e sociais que distinguem uma pessoa. Na literatura, o termo personagem é usado para representar uma pessoa, ou no caso da literatura infantil, ou as vezes um animal personificado ou objeto. A autora adiciona a palavra “desenvolvimento” que também tem um significado especial.

Outros aspectos à destacar:

  • Na vida o desenvolvimento de um caráter de uma pessoa ou personalidade compreende crescimento e mudança;
  • Na literatura o desenvolvimento de um personagem significa mostrar o personagem – que pode ser uma pessoa, ou animal ou objeto – com a complexidade de um ser humano.
  • Cada um de nós na vida real é tridimensional, isto é, nós somos uma mistura de qualidade.
    No desenvolvimento completo de um personagem no senso literário, o escritor o mostra completo, composto de uma variedade de falhas (facetas) que são aquelas dos seres humanos reais.

O escritor

Tem ambos privilégios e responsabilidade em matéria de desenvolvimento de personagem.
NOTA: Desde que nós acompanhamos um personagem central em uma história é a obrigação do escrito fazer que os pensamentos e as ações destas pessoas acreditáveis. Se o personagem é menos importante, o escritor tem o privilégio de fazer o personagem bidimensional ou até mesmo a representação de um grupo (por exemplo, o irmão mais velho mandão…).
A importância de um personagem em uma história em níveis: primário, secundário, menor ou de fundo, determina o quão completo o personagem é desenvolvido ou compreendido.

2. Revelação do personagem

A autora faz uma comparação:

Para decidirmos se gostamos ou não de um vizinho nós observamos a maneira que eles trabalham, falam, agem, respeitam as regras de convivência… Na literatura o processo é o mesmo, entretanto o escritor tem uma alternativa adicional: ele pode escolher contar/dizer o que os personagens estão pensando. O escritor ou ator pode descrever com detalhes sobre as ansiedades internas, sonhos, padrões de comportamento na infância e vida caseira. Nos tópicos a seguir a autora descrever os modos como é possível caracterizar um personagem utilizando como exemplo a obra “Charlotte’s Web” (em Português, a menina e o porquinho).

2.1 Pelas ações

Ela cita o personagem Templeton como um exemplo de personagem que ações ajudam a definir a natureza dele. Esse personagem em questão tem várias características que suas ações revelam para o leitor, aqui as características são descobertas mediante o comportamento das ações do personagens (grosseira, centrado em si mesmo, etc…)

2.2 Pelo discurso

No livro o personagem se auto caracteriza por ele diz, mostra-se sendo cínico e egoísta, ressentido sobre qualquer tipo de intrusão aos seus propósitos.

2.3 Pela aparência

O personagem Gluttony (o rato) tem muitas características e a aparência dele mostra isso. Há uma série de situações na história em que há modificações corporais nele… Ele tem um grande apetite, cresce mais gordo e maior do que qualquer outro rato conhecido. Neste tópico a autora nos ajuda a identificar nos personagens a partir da aparência traços da personalidade nas análises de livros.

2.4 Pelos comentários de outras pessoas

Templeton é caracterizado pelo que ele faz, o que ele veste e pela maneira ele parece. Contudo, aprendemos mais sobre ele pelos comentários dos outros ao seu respeito. A autora destaca que esse tipo de abordagem é utilizada por muitos escritores, pois sabe-se que nós conseguimos confiar mais nas pessoas por aquilo que ouvimos sobre elas, e portanto os comentários dos outros nos ajudam a mostram o caráter.

2.5 Pelo comentário do autor

O autor faz comentários como: “ele não tem moral, não tem consciência dos seus atos e ações, não tem qualquer escrúpulos…” E assim, conhecemos o personagem com mais profundidade pelo modo como ele é descrito pelo autor. 

NOTA: A riqueza de descrições sobre o desenvolvimento dos personagens pode ter levado aos autores a escolher essa obra.

União entre o personagem e suas ações

O escritor cria um completo repertório de personagens para a estória (alguns importantes, alguns menores, alguns complexos, alguns relativamente simples) através do uso dessas técnicas e a partir da maneira como reconhecemos essas características nos personagens, nós respondemos para elas. A autora dá um exemplo sobre como escritores conseguem unir as características de um personagem e suas ações em uma narrativa. Ela diz que um exemplo muito usado é quando o personagem começa uma história de um jeito (malvado, cruel, egoísta, mimado, etc) e muda as suas atitudes no final da história, e isto no meu ponto de vista contribuí para que o leitor também possa mudar o seu ponto de vista sobre o personagem (antes odiado e depois amado).

Em outro exemplo extraído da obra “The Ugly Duckling” de Hans Christian Andersen, a construção desse personagem é baseada em suas características e também através de suas ações na medida que as provas e perseguições que ele passa em sua vida para o seu amadurecimento determinam uma mudança pessoal dele e do seu caráter, ou seja, a história identifica a realidade de maturidade.

Outros exemplos citados pela autora são: “Strider” de Beverly Cleary que o personagem principal muda os seus hábitos ao achar um cachorro, Strider e a compartilha-lo com o seu melhor amigo Berry e eles passam a correr com frequência, e neste processo ele deixa de ser tão sedentário, faz novos amigos e fica mais feliz com si mesmo. Outro exemplo citado é “Like Jack and me” de Mavis Jukes em que um personagem que tem medo de tudo mas a relação com Alex faz com que ele amadureça em alguns sentidos. E continua dando outros exemplos…

Tipos de personagens

Neste tópico a autora destaca que há muitos termos que descrevem os níveis de desenvolvimento de personagens. Os principais tipos são:

1. “Personagem completo”: É aquele que nós o conhecemos bem, que tem uma variedade de características que faz ele ou ela credível. Como uma pessoa real, este tipo de personagem pode nos surpreender ou responder de modo impetuoso (ou precipitado).
2. “Personagem raso”: É menos desenvolvido e tem menos características (detalhes).
3.“Personagem dinâmico”: É um personagem completo que muda suas características ao longo da história.
4.“Personagem estático”: Apesar deste tipo apresentar credibilidade, ele não muda no curso da história. Estes personagens são essenciais para a história, mas eles não são bem desenvolvidos e não parecem existir como um individual ser humano. Quando um personagem tem poucas características que não o distinguem de um grupo de pessoa, ele pode ser chamado de estereótipo. Outro termo utilizado pela autora é “personagem frustrado”, um personagem que tem poucas características em contraste ao personagem principal, o que favorece ao principal. Estes personagens dão poucas contribuições para se conhecer os seres humanos.

Avaliando personagens na literatura Infantil

Neste tópico a autora destaca alguns aspectos que podem ser avaliados na literatura infantil sobre personagens:

  • Literatura Tradicional: Há muitos tipos de personagem na literatura tradicional que apresentam uma variedade de características e ações.
  • Realismo Animal: São aquelas obras em que os animais ganham características humanas. Algumas críticas são feitas a este tipo de abordagem argumentando a existência de uma concepção antropocêntrica do homem sobre os animais. Ela cita Burnford que desenvolveu os seus personagens primeiramente a partir da observação, e depois descreveu aquilo que ela acredita-se que eles são.
  • Ficção Científica: Atualmente há uma grande preocupação com o desenvolvimento dos personagens, de uma realidade subjetiva, e para a sutileza na linguagem.
  • Clássicos: São livros que continuam a ser lidos independente das gerações, são livros com personagens sólidos e memoráveis (Peter Pan, Os três porquinhos, etc.) e que fazem uma contribuição significante na exploração de características dos seres humanos.

A autora concluí o seu texto destacando que tanto na vida quando nos livros, as crianças podem perceber diferenças nos seres humanos e elas são capazes de reconhecer e responder aos personagens bem desenvolvidos e que até mesmo nas mais simples histórias é possível achar personagens que parecem ser partes da natureza humana, e se isso ajuda as crianças, é preciso investir mais nisso.

O livro Charlotte’s Web está disponível em .pdf aqui.

Avaliação da obra: “As Lembranças de Maria” da Editora Ciranda Cultural

Fonte: Divulgação.

A obra escolhida para análise tem como título “As lembranças de Maria” escrito por Anna Obiols e ilustrado por Subi, da editora Ciranda Cultural, tendo o seu público-alvo crianças de 4 a 10 anos. A obra foi escolhida para análise não por apresentar uma forte narrativa, mas pelos recursos de editoração gráfica que a obra oferece, e em razão desta ser obra fazer parte daquele grupo de livros com forte apelo comercial, impressos e distribuídos a baixo custo e revendidos em supermercados e feirões promocionais, e, portanto, muito populares. Obras que costumam ser bastante criticadas pelos analistas por uma série de lacunas, questões estas que irei discutir mais adiante. Entretanto, esta obra tem como tema central a memória, mais especificamente as memórias de uma menina com a sua avó que morreu.

Maria, a personagem principal, começa a relembrar momentos que viveu com a sua avó a partir de fenômenos da natureza, como por exemplo, a chegada da neve, sobre o bolo que Maria fez de presente para o aniversário da sua avó, do modo como ela fez bolo e das sensações que o bolo provocava nela, do trajeto da sua casa até a da sua avó em um trenó em companhia do seu gato, do chá da tarde, de olhar fotos antigas no álbum de fotografias, das brincadeiras com seu gatinho na neve, dentre outras lembranças.

Para analisar a obra utilizarei os critérios narrativas infanto-juvenis desenvolvidos por Gemma Lluch (2003), além de outros textos utilizados na disciplina. Também me utilizo dos critérios para avaliação e seleção de livros didáticos estabelecidos pelo PNBE – Programa Nacional de Biblioteca na Escola financiado pelo FNDE/MEC.

Utilizando-me do critério “o contexto comunicativo” (Lluch, 2003, p.28) é preciso antes de tudo conhecer as condições pelas quais este livro foi desenvolvido. Uma das primeiras fases para análise de uma obra para esta autora é a contextualização, que envolve o levantamento de dados que nos auxiliam na compreensão do seu processo de produção, o círculo literário o qual este pertence a partir da análise do catálogo, da publicidade e pelo modo como este chega aos leitores.  

Sobre o contexto comunicativo, na obra escolhida não consta a bibliografia dos autores e nem a contextualização da obra no universo literário. O livro foi impresso na China (como boa parte dos livros comerciais à venda no mercado) e revendido a baixo custo pela Ciranda Cultural (que produz títulos como “Bob Esponja, Patati Patatá, Jolie, Dora a Aventureira, Ever After High, Royals and Rebels, Polly Pocket and Bubble Grumppies”). Boa parte dos títulos dessa editora são impressos em grandes lotes em países asiáticos e revendidos no Brasil em feiras com valor reduzido se comparado aos títulos de outras editoras com impressão nacional, o que contribuí com a sua popularização.

Classifico as obras mencionadas anteriormente como “comerciais” por tratar-se de reproduções impressas utilizando-se de “narrativas do audiovisual”, ou seja, aquelas obras que utilizam personagens ou histórias extraídas de desenhos animados, filmes, programas de TV, bandas ou ícones musicais, etc., por meio do licenciamento de marcas de personagens infanto-juvenis.

De acordo com Feijó e Lage (s/a, p.4), o licenciamento (ou licensing) de um produto constitui-se como uma ferramenta de marketing que consiste no direito contratual de utilização de determinada marca, imagem, ou propriedade intelectual e artística registrada, que pertença, ou seja, controlada por terceiros, em um produto, serviço ou peça de comunicação promocional ou publicitária, durante um determinado período, em uma área geográfica específica, em troca de uma remuneração (royalty) normalmente definida como um percentual aplicado sobre o valor gerado com as vendas ou prestação de serviços que utilizam esse licenciamento.

Deste modo, uma editora que faz o uso de uma marca licenciada precisa arcar com os royalties do proprietário e os demais custos: impressão, material e distribuição. A produção em grandes lotes e a importação destes produtos de países com mão-de-obra barata são fatores que permitem que uma obra derivada de uma marca licenciada chegue ao público consumidor com preços reduzidos e na maioria das vezes preços abaixo do mercado.

Apesar dos fatores que viabilizam o acesso a esta obra, especialmente pelas classes populares, quando estas chegam à escola sabe-se muito pouco ou quase nada sobre os seus autores, o que inviabiliza uma contextualização adequada da obra. Tais obras são denominadas como de autor global (LLUCH, 2003) ou seja, obras em que sua autoria é atribuída a diferentes profissionais e são produzidas e distribuídas com intuito de vender em grandes quantidades ou por um valor promocional.

Portanto, neste quesito a obra deixa a desejar, o que já era um tanto esperado pelo fato da própria editora se configurar mais como uma distribuidora e revendedora de obras importadas e marcas licenciadas que trabalhar na criação de novos títulos. Contudo, quando realizei a escolha desse livro estava ciente da questão, com o intuito de argumentar que é possível encontrar obras com alguma qualidade (narrativa e gráfico-editorial) nos feirões e promoções de livros.

1. Análise da narrativa

Com relação a narrativa proposta pelo livro, esta é capaz de propiciar interação lúdica na linguagem poética, através de efeitos gráficos-editoriais produzidos por diferentes tamanhos de fontes e desenhos gráficos, o que tratarei mais adiante. Outro aspecto a mencionar sobre a estrutura narrativa diz respeito aquele que se trata da interação que o livro proporciona, especialmente quando as possibilidades de comunicação são restritas.

Além disto, ao final do livro é proposto algumas atividades e jogos para estimular a memória, tais jogos são para serem feitos em grupo ou individual (jogos para recordar de peças de roupas dos amigos, jogos de cartas, falar o maior número de coisas com relação a um determinado tópico). 

Convém a destacar que a obra se apresenta como sendo livre de qualquer tipo de moralismo, preconceitos, estereótipos ou discriminação étnica, racial, social, etc., sendo assim, considero a faixa etária estipulada como adequada, por apresentar um tema relativo ao universo infantil, como memórias de um parente que morreu e os momentos bons que os personagens passaram juntos.

Entretanto, faço uma ressalva, pois considero a obra de interesse para as crianças de 4 a 6 anos, não mais que isso. Crianças de 8 a 10 anos, especialmente dos centros urbanos já estão interessadas por outros temas, envolvendo relacionamentos, fortes elementos de ficção e fantasia e temas de maior complexidade. A questão da faixa etária estipulada é sempre muito relativa, pois depende de fatores culturais, escolares e sociais de cada criança. 

Quanto a qualidade do texto, considero que este contribuí razoavelmente para a ampliar o repertório das crianças. Entretanto, destaco alguns trechos em que considero ricos do ponto de vista linguístico em razão da presença de figuras de linguagem como aliteração e onomatopeias (conteúdos explorados nos anos iniciais do ensino fundamental):

Lá fora, era lindo de se ver. Eu me lembro de que tudo estava coberto com um casaco branco. Eu estava perdida em meus pensamentos quando, de repente… Crash, bang, ploft!

Com relação aos aspectos estruturais da narrativa, esta é composta por períodos simples, em que são marcados aspectos que a personagem principal se recorda de um acontecimento. Para Lukens (1994) personagem é um termo geralmente usado para significar a agregação de qualidades mentais, emocionais e sociais que distinguem uma pessoa. Um personagem pode ter várias características e pode se classificar como completo, raso, dinâmico ou estático (LUKENS, 1994).

A personagem Maria (personagem principal e narradora de sua própria história) pode ser classificada como um personagem completo, com sentimentos, aspectos da personalidade bem delimitados pelos autores e características próprias. Como nos trechos abaixo:

Eu não gosto muito do inverno, mas adoro a neve!” (p.2)

Eu estava tomando café da manhã com os meus pais enquanto eles falavam sobre o que dariam de presente para ela. – Um bolo! Nós podemos fazer um bolo com recheio para ela. Gritei animada […]. Eu me lembro de que, sem nem mesmo esperar meus pais concordarem, corri para colocar o meu avental e o chapéu de cozinheiro. (p.4)

Eu me lembro de que tudo estava coberto com um casaco branco. Eu estava perdida em meus pensamentos quanto, de repente…. Nós capotamos”. (p.15)

Eu me lembro de que perdi a noção do tempo, a noite tomou conta de tudo e as luzes iluminavam e protegiam os céus. (p.26)

Nesses trechos a autora mostra algumas características marcantes da personagem Maria que aparecem em sua própria narração. E assim, sabemos que Maria não gosta do inverno, mas adora a neve, que Maria é uma garota muito animada e feliz, que vive no mundo da sua imaginação, e é também impulsiva e ansiosa. Com relação aos personagens secundários, a sua avó (que não sabemos o nome) também ganha um destaque significativo. Esta personagem secundária se apresenta como uma senhora simpática, divertida, carinhosa, emotiva, exibindo um lindo sorriso, atenciosa, etc. Outro personagem é o gatinho de Maria. Este pode ser considerado um personagem raso, ou seja, um personagem desenvolvido, mas com poucas características.

Quando o trenó, o bolo e eu estávamos descendo a colina, ouvi: -miau, miau, miauuuu!” Era o meu gato correndo para nos alcançar. Lembro-me de ter freado bruscamente para ele poder subir no trenó”. (p.13)

Uma grande pedra que estava coberta pela neve nos fez voar no ar. O bolo caiu de um lado, o gato de outro e eu no meio, prendendo a respiração. Por sorte ninguém se machucou.” (p.15)

Meu gato também brincou na neve. Ele subiu e desceu das árvores e telhados e, várias vezes, veio até perto de mim e deu voltas ao redor do boneco de neve que eu estava fazendo.” (p.23)

Sobre os personagens, Lluch (2003) destaca que uma possibilidade de trabalho com as crianças para um aprofundamento da obra consiste na identificação dos personagens por elas, pois apesar de nós habitualmente subestimarmos essa capacidade, a autora acredita que tanto na vida quando nos livros, as crianças podem perceber diferenças nos seres humanos e elas são capazes de reconhecer e responder aos personagens bem desenvolvidos e que até mesmo nas mais simples histórias é possível achar personagens que parecem ser partes da natureza humana, com esse argumento acredito no potencial que a obra, embora fazendo parte do grupo de livros “comerciais de autores globais” e com alguns critérios a desejar apresente para os leitores.

2. Sobre a memória

A memória constitui-se como tema central do livro. Toda a estrutura do enredo consiste nas lembranças que Maria possuí dos momentos com a sua avó. Narrativas que envolvem memórias são comuns em obras voltadas para o público infanto-juvenil.

Analisando dissertações e alguns trabalhos publicados sobre o tema, a memória pode ser considerada como “essencialmente um ato de evocação, isto é, o ato de recuperar mentalmente a imagem”, portanto, é um ato de representação do real que se dá através de imagens mentais, pois o passado enquanto tal não volta (OTERO, 2002, p.23).

Na obra esse ato de evocação de imagens mentais é apoiado pelas ilustrações que ajudam ao leitor se situar das lembranças da personagem, um exercício importante, pois de acordo com Otero (2002) com este processo a história estrutura-se, a fim de reconstituir os traços da subjetividade e da emoção humana. Dentre os aspectos destacados pela autora, estão memórias de ações, pessoas, momentos, expectativas e planos, e ainda a memória dos sentidos, dando relevância a elementos como sons, cheiros, texturas e sabores, como posso destacar nestas passagens:

Quando passei meu dedo na massa para provar, eu estava coberta de farinha, desde a cabeça até os pés. Quando minha mãe me viu assim, ela começou a dar gargalhadas. Hoje, eu ainda consigo me lembrar de como o bolo era docinho, apesar de não ser fácil lembrar-se de um sabor ou de um cheiro.”

Estava tão bom… Huuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuum!

Então, meu pai o colocou no forno e quando o tiramos, escrevemos com cobertura, em letras maiúsculas: FELIZ ANIVERSÁRIO!” (p.8)

O ato de narrar as memórias da infância em suportes de leitura pode ajudar as crianças a reconstituírem as suas próprias lembranças utilizando-se de diferentes linguagens como textos, desenhos, movimentos corporais, musicalidade, expressão, dentre outros.

Outro aspecto que pode ser explorado/desenvolvido a partir desta obra é com relação a morte a partir do levantamento de questões como: O que podemos fazer para guardar aquele ente querido em nossa mente? Como encarar a morte de outra maneira, pelo menos mais positiva? A obra apresenta caminhos para tratar destas questões, pois em toda narrativa a lembrança dos momentos felizes e positivos de Maria se concentram mais no que na dor da perda do ente querido que só é revelado no final do livro.

3 Análise gráfico-editorial

Com relação a este tópico a obra motiva a leitura pelos recursos gráficos presentes no texto e não pelas ilustrações que ficam em segundo plano, o que contribuí para propiciar uma experiência significativa de leitura e ampliação das referências estéticas, culturais e éticas do leitor. Outro aspecto a destacar com relação ao projeto gráfico-editorial é o fato da obra romper com o padrão estabelecendo mudanças no tamanho da fonte para marcar ou enfatizar o momento em que Maria se recorda de algo:

O ponto forte da obra são as várias intervenções gráficas que conduzem o leitor para dentro e para fora do texto principal. As intervenções produzem e expressam as sensações, sentimentos e percepções de Maria mediante o que é narrado. Quanto as condições de legibilidade do ponto de vista tipográfico, esta se apresenta como adequada para crianças cuja a faixa etária se destina.

A obra apresenta poucas linhas de textos por página e tamanho de fonte em tamanho acessível, inclusive para pessoas de baixa visão, contudo em algumas páginas é preciso virar o livro para ler o texto que é colocado em outras posições, mas o movimento provocado por esse efeito gráfico contribui para melhorar a interação do leitor.

Considerações Finais

A partir da análise da obra “As lembranças de Maria” que tem como tema central a memória, considero que esta pode contribuir para a reflexão sobre a realidade sobre si e sobre o outro, na medida em que Maria nos conta suas lembranças e todos os aspectos relacionados a esta, principalmente suas lembranças sensoriais.

As lembranças de Maria nos revelam aquilo que para esta é mais importante: a afetividade, as brincadeiras, as sensações produzidas na sua interação com o meio, e por fim, o seu lidar com a dor da perda de um ente tão querido, que nos aproxima e nos toca. Como ponto forte, a obra apresenta inúmeras intervenções gráfico-editorais que contribuem para transportar o leitor para dentro e fora do livro, além de produzir novos sentidos e significados nos leitores.

Na minha avaliação final, considero a obra adequada para a faixa etária estipulada com algumas ressalvas que destaquei ao longo do texto, apresenta narrativa simples com foco em uma sequência de ações de memórias selecionadas por Maria, personagens principais bem desenvolvidos e consistentes, intervenções gráficas e ilustrações que propiciam melhor interação e possibilidade de exploração de outros temas como a morte, e ainda, considero a obra acessível a todas as camadas sociais devido ao seu baixo custo.

Referências

BRASIL, Ministério da Educação. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Edital de Convocação para inscrição de obras de literatura no processo de Avaliação e seleção para o Programa Nacional Biblioteca na Escola – PNBE temático 2013. Disponível em <http://www.fnde.gov.br/programas/biblioteca-da-escola/biblioteca-da-escola-consultas/item/3981-edital-pnbe-tem%C3%A1tico-2013> Acesso em 13 mar. de 2017.

FEIJO, A.M.; LAGE, A.P.M. Licenciamento de personagens: A associação de nomes de sucesso do universo infantil a produtos como estratégia de marketing. Anais de Congresso Instituto Federal Fluminense. Disponível em: <http://bd.centro.iff.edu.br/bitstream/123456789/93/1/%20ARTIGO%20-%20Licenciamento%20de%20personagens-%20A%20associa%C3%A7%C3%A3o%20de%20prod.pdf> Acesso em 13 mar. De 2017.

LlUCH, G. Cómo analisamos relatos infantiles y juveniles. Argentina: Grupo Editorial Norma, 2005. P. 25-45.

LUKENS, R. Character. In: LUKENS, R. A critical handbook of children’s literature. 5a. ed. New York, Harper Collins, 1994. P. 39-59.