Mais sobre as comemorações dos 130 anos do escritor T.S. Eliot

Original em Inglês publicado aqui.

The Hindu: No aniversário de 130 anos de TS Eliot este mês, ainda estamos fazendo as perguntas impressionantes sobre arte, vida e sociedade que ele fez pela primeira vez. 

Artigo por: 

Vaishna Roy

Foi há cinco anos que me deparei com a versão em quadrinhos on-line de Julian Peters, de “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock”, de TS Eliot. Era como se o poema icônico, que provavelmente fez um poeta desajeitado de todos os graduandos, tivesse surgido misteriosamente vivo, atraindo-nos para as “ruas de intenção insidiosa” em seus painéis preto e branco.

Fazendo uma história em quadrinhos de um poema? Mas é claro. Vimos como o intenso impressionismo da poesia de Eliot, preenchido com o que Ezra Pound chamou de “detalhes luminosos”, se oferecia infinitamente à criação de imagens. Eliot foi magistral, uma “lanterna mágica” que “jogou os nervos em padrões em uma tela”.

Palavra como imagem

Em seu 130º aniversário (ele nasceu em 26 de setembro de 1888), parece particularmente relevante lembrar-se dele nesta nossa época de incessante criação de imagens, quando a vida é vivida com a lente sempre ligada, com os eus encolhidos para selfies e toda a experiência anulada, a menos que seja encarcerada em pixels.

Como a comunicação humana se transformou de fala em texto para imagens, parece quase irônico lembrar hoje um homem cujas palavras eram imagens. “Você jogou um cobertor da cama, / Você deitou de costas, e esperou; / Você cochilou, e assistiu a noite revelando / As mil imagens sórdidas …”

Para os estudantes no início dos anos 80, ainda sendo empurrados insensivelmente para uma Inglaterra cada vez mais estranha, sempre Wordsworthiana, foi a de Eliot:

Julian Peters 'ilustrou' Prufrock '.

Julian Peters ‘ilustrou’ Prufrock ‘.  

A paisagem e a paisagem urbana que ela evocou foi a primeira enterrada na água fria da vida. Você tremeu com reconhecimento. De repente, palavras mortas e imagens mortas foram substituídas por “um campo aberto, ou uma fábrica, ou um bypass. / Pedra velha para um novo edifício …”

De riachos desconhecidos e pássaros e frontões, você foi catapultado para os braços do presente, com toda a sua desesperança e cinismo cansado. Ali estava um poeta que fazia música do aqui e agora – a chuva forte, os restos encardidos, o nevoeiro amarelo, o cheiro fraco de cerveja.

“Um poeta”, disse Eliot, “deve tomar como material o seu próprio idioma, como é falado ao seu redor”. E Eliot usou isso para moldar a poesia da vida como ela realmente foi vivida ao seu redor.

Mesmo assim, quando o tumulto do milênio ainda estava longe e vidas eram vividas em uma quietude inocente de telefones celulares e da Internet e do barulho da criação de imagens, mesmo assim Eliot quebrou o repouso, forçado a perguntar se a “sabedoria” ‘fomos alimentados à força foi’ apenas o conhecimento de segredos mortos ‘; a serenidade “apenas uma hebetude deliberada”. Hoje, sua poesia é como rap: imediata, enérgica, rápida, visual. Veja esta passagem de ‘Four Quartets’:

‘Eu disse à minha alma, fique quieto e

espere sem esperança

Por esperança seria esperança para o

coisa errada; espere sem amor,

Pois o amor seria o amor do

coisa errada; ainda há fé

Mas a fé e o amor e

a esperança está toda na espera.

Isso é música, cru e jovem e sangrando. Como disse o crítico AR Scott-James, Eliot destacou-se “apresentando-nos à nossa própria geração”. Nisto, ele fez poesia com o que Salinger fez com o romance, quebrando-o e reformulando-o numa forja torturada própria, criando algo que era ao mesmo tempo lúcida e obscura, mas sempre viva.

Ruas da cidade

Com Eliot, podia-se dizer com segurança que se tinha ido “ao entardecer pelas ruas estreitas / E observado a fumaça que se eleva dos canos / De homens solitários de mangas de camisa” e possuir intimamente as palavras e o momento vivido, com a familiaridade de uma fotografia antiga, a facilidade de uma lembrança.

Ele estava, por assim dizer, nos introduzindo nas estradas secundárias de nossas cidades, e foi uma importante razão pela qual ele se tornou uma personificação do moderno. A cidade de Eliot era um “monumento à humanidade”, suas “ruas meio desertas” sempre uma metáfora da vida moderna, hesitante, em busca de vazio, medo demais de perguntar porque tem medo demais de acreditar e, portanto, sempre levando, mas nunca pedindo a “pergunta esmagadora”.

O bioscópio-wala

Leonard Unger comparou “Prufrock” a uma série de slides, cada um “uma imagem fragmentada e isolada”, mas produzindo juntos a sugestão de uma história maior. Ler Eliot é realmente como entrar na galeria de fotos em seu smartphone: imagens transmitidas por, pai lendo jornal, gato na janela, chuva nas árvores, ruas, pôr-do-sol, flores, seu próprio rosto espelhado de novo e de novo, usando todos os rostos que você usa “Para conhecer os rostos que você encontra.” Eliot girou essas imagens ao redor e ao redor, como aquelas velhas bioscopas, e você olhou para dentro, fascinado pelos vislumbres de um mundo nas suas próprias bordas.

Há outra razão pela qual sua poesia toca com particular ressonância nesses tempos. Ele estava falando para uma geração desesperadamente desiludida por uma guerra mundial, mas assistindo à ascensão de um novo monstro na Europa. Sua paisagem poética de aridez espiritual, de paixões estéreis que nascem, nada fala tão poderosamente como hoje. “Depois de tal conhecimento, que perdão?”

Escrever sobre Eliot parece muito com o ato de escrever, e pode-se fazer pior do que admitir isso com suas próprias palavras:

“E assim cada empreendimento

É um novo começo, um ataque

o inarticulado

Com equipamento gasto sempre

deteriorando

Na confusão geral de

imprecisão de sentir …

O último adeus da Sexton Blake em Pelotas

Trago notícias: minha história em Pelotas terminou, foi ótimo ter passado os últimos meses morando naquele simples apartamento (só meu) na Duque de Caxias. Morar totalmente sozinha tem suas vantagens e desvantagens, sobre a última é a de não ter com quem contar ou segurar as pontas quando as coisas ficaram difíceis.

O lado positivo: Pelotas é uma cidade acolhedora e tudo me fazia lembrar sobre os meus livros do Gilberto Freyre e tudo que eu tinha aprendido sobre nossa identidade de colonizados na escola, com ênfase nos aspectos mais positivos e menos dramáticos. Ter ido ao festival internacional de música e para a FENADOCE foram coisas do tipo “made my day” e muito divertidas também.

Por fim, seguem minhas últimas fotos em Pelotas. De uma referência ao famoso Pagode Chinês “The Liuhe Pagoda” (Six Harmonies Pagoda) de Hangzhou, situado na província de Zhejiang na China, construído em 1165 AD durante a Song Dynasty presente no prédio arquitetônico da rodoviária de Pelotas.

De Pelotas fui para Porto Alegre onde eu e minha tia Ivone ficamos por cinco dias e lá aproveitamos bastante para conferir as últimas exposições nos principais museus da cidade, fazer uma pausa para o lanche no Chalé XV, e o mais bacana: assistir ao 3° Festival BB de Blues e Jazz e ufa! após longas caminhadas pelo centro histórico e Bom Fim e compras de livros arrumamos as malas e voltamos para Recife.

É bom voltar para casa. Nada melhor que rever a família e amigos e se preparar para o natal. 

O que fazer quando se não consegue ser além do que se consegue ser?

Os imperativos para sermos melhores, mais ricos, mais bem sucedidos e bem “apanhados” são muitos, entretanto quando sentimos que são muitas as pressões sobre nós e as limitações e barreiras para conseguirmos atender a determinadas exigências e critérios que muitas vezes são utópicos, até para aqueles que os designam é preciso respirar fundo e pensar se há algum outro caminho entre ser exatamente aquilo se exigem de nós com tanta rapidez e entre ser tudo isso aos poucos como uma escalada que vamos alcançando com base em nossos esforços e aprendizagens diárias. 

Eu sempre fui uma daquelas pessoas que sempre se sentiu muito cobrada pelo meu círculo familiar e de amigos, acredito que por ser a única filha mulher na família e também ser a mais velha (de dois irmãos) com mais responsabilidades e cobranças de comportamento “exemplar”. As cobranças que apareciam geralmente nas reuniões de família eram as mais diversas possíveis, desde tirar boas notas no colégio, andar em boas companhias até mesmo sobre o tipo de lugares que eu frequentava e o tipo de assunto ou conversa que é permitido para alguém como eu.

As notas do colégio, as aspirações para o futuro e principalmente a aparência eram sempre assuntos da mesa nos eventos familiares: “quando você vai se arrumar melhor?” ou “quando você vai arrumar um namorado?”, “fulana de tal está estudando pra ser médica”, “o que você vai fazer na vida?” todas essas perguntas eram interpretadas por mim como pressões sociais e frequentemente me causavam muita tristeza e frustração por eu não conseguir atingir tais objetivos ou trabalhar neles em outro ritmo.

O sentimento de decepção era algo que eu precisava lidar quando as cobranças vinham até mim e eu não sabia como lidar com elas. Embora eu soubesse meios de enfrentar as pressões e tentar realizá-las ora para me sentir melhor comigo mesmo, ora para agradar as pessoas (ou ser menos criticada por elas). A questão é que eu não gostava muito de ser vista pelos parentes por qualquer motivo que fosse (seja para ser colocada em um pedestal e tomada por modelo de perfeição ou de sucesso) ou para ser escrutinada por todos e ter sempre aquelas inúmeras pessoas pegando no meu pé “faz isso” ou “faz aquilo”, na maioria das vezes com boas intenções. Como já fui professora, sei bem que é necessário “pegar no pé” daqueles alunos que brincam muito ou aparentam não estarem interessado em aprender e assim, os pressionamos para serem melhores alunos, pensando somente no sucesso deles, sendo assim, é compreensível que as cobranças existem, é algo como “sofrimento obrigatório”.

Quando olhamos por esse lado tudo fica mais fácil de lidar, aqueles comentários disfarçados de puxões de orelha pode servir para nos “acordar” e perceber coisas que não estamos vendo por estarmos focados em outras coisas. Em minha adolescência, eu admito que era muito viciada em televisão, em especial na MTV e foram inúmeras as vezes que deixei de estudar para acompanhar a programação e saber quem estaria no topo da lista dos clipes mais votados e ainda torcer para que os meus artistas favoritos ficassem em primeiro lugar por muitos dias, semanas e anos. Na oitava série eu rodei de ano por causa de priorizar outras coisas, ao invés do estudo, além de me vestir mal e ter alguns pensamentos depressivos e isso fez com que minha família ficasse atenta a cada sinal que eu apresentava de que as coisas não estavam indo tão bem para mim.

Eu considerava tudo aquilo muito intrusivo e irritante (muitas foram as discussões e sentimentos de raivas guardados ou expressos em pequenas ações). Foi uma fase difícil, mas que com o passar dos anos e muita ajuda do grupo social que eu fazia parte (colegas do colégio, da igreja e parentes) fui superando. Nunca me senti satisfeita comigo mesma e isso não é algo que se aplica somente a mim, mas muitas pessoas que passaram por situações semelhantes. Aceitar e admitir que não se pode responder a todas as pressões, atender todas as expectativas é um processo longo e muito difícil. Admitir que não se pode chegar a um determinado lugar, ou que não posso fazer determinadas coisas ou querer ter determinados bens por inúmeras limitações é algo extremamente difícil, mas que faz parte do nosso amadurecimento e crescimento como pessoa. 

Ao olhar para mim mesma sinto-me um tanto frustrada por ainda estar muito longe de onde eu gostaria de estar, me sinto ainda como alguém que tem muito a aprender, muito para ouvir antes de falar, muito para analisar cuidadosamente e com profundidade, enfim… É uma longa caminhada que fazemos a passos curtos. E como tenho apenas 1m53cm os passos são curtos e lentos, como quem degusta cada coisa aos poucos ou guarda o melhor doce para o final e lido com ímpeto de querer tudo para mim mesma (algo normal para pessoas que vivem sozinhas e possuem poucos amigos). O aprender a compartilhar se faz no convívio coletivo que não deve ser forçado ou obrigado, mas deve ser uma experiência que se aprende pela troca saudável, por meio do diálogo e sinceridade enquanto se constrói algo. É como as crianças que trocam figurinhas quando possuem duplicatas, o objetivo é que todos completem seus álbuns e ninguém fique para trás. 

É com esse tipo de pensamento que podemos seguir adiante e lidar com o sentimento de que não podemos conseguir tudo aquilo que desejaram para nós, que não somos capazes de fazer tudo aquilo que nos mandam fazer, de que não podemos ser como outras pessoas que passaram por situações diferentes e viveram em lugares diferentes, de que somos falhos, mas podemos acertar uma vez ou outra.

 

 

 

 

 

De onde nasce o ódio?

O ódio tem melhor memória do que o amor. – Honoré de Balzac

Estava pensando sobre sentimentos diversos e de onde eles vêm. Alguns sentimentos nascem em nós sem uma razão aparente, outros nascem e acham algum motivo para se justificar, para ficar ali e para se manter forte e poderoso. 

O ódio é o mesmo que desprezo por alguém? Não. São sentimentos diferentes… O ódio envolve uma carga de energia que precisa sair de dentro e atingir um alvo. Não precisa ter motivo, não precisa ter uma razão, apenas precisa existir. O verdadeiro ódio é capaz de ser feroz como um terremoto e ser aniquilador de tudo que há de bom e pacífico. 

O desprezo é um sentimento que envolve um ar de superioridade, de quem sabe ou finge que sabe o que é melhor ou sobre como ser melhor e que possui internalizado em si mesmo uma escala de classificação para as atitudes cujo o parâmetro de aceitabilidade ou negação parece está mais ou menos delimitado. Esta escala de classificação daquilo que é melhor ou pior nutre o desprezo. Desprezamos aquilo que consideramos inaceitável para os nossos padrões, desprezamos aquilo que nos causa repulsa, pena, piedade, e também ódio (disfarçado de desprezo). O ódio é um sentimento coringa, ele pode vir revestido de verdade, como já expliquei, naquela avalanche de energia que precisa ser descarregada em um alvo, em um momento ou em alguma situação, mas pode também vir disfarçado de um interesse, ciúmes, obsessão, controle, possessão, sentimento de piedade, de generosidade e também mesmo, acreditem, de solidariedade e compaixão (estes casos o ódio é muito perigoso, pois aquilo que não vemos em sua honestidade precisamos desconfiar). O desprezo é mais complexo, pois envolve julgamento e logo um conhecimento por parte de quem despreza do que pode ser melhor para que algo ou alguém seja desprezado. 

Há cura para o ódio?

Ouvi dizer que o amor curava o ódio, também já ouvi o contrário, que amor pode causar mais ódio, amor mal resolvido ou não correspondido, pode gerar os mais diferentes sentimentos que vão de ódio mortal a desprezo absoluto (percebam que novamente ódio e desprezo sempre se encontram). Isto acontece porque pela nossa educação aprendemos a guardar pra nós certas manifestações de sentimento e o desprezo é um modo mais ou menos educado de se manifestar o ódio ou a reprovação por alguém. Aquele nariz empinado e expressão de negação pode ser entendida como uma forma, perdoem-me os críticos, elegante de dizer “eu te odeio”, mas não quero fazer barraco. É respeitável toda forma de afeto e desafeto. O importante e o que importa é a verdade e a honestidade em demonstrá-lo. Sem peso na consciência, sem ressentimento, sem rancor e dissabores.

Na maioria das vezes um “eu te odeio” bem dito pode ser libertador para quem odeia e para quem é odiado. Não há nada errado nisso. Saber que é odiado pode ser interessante para muitas pessoas saberem onde colocar seus pés ou quando podem ou não entrar ou sair, funcionando como uma espécie de “aviso” ou um pequeno lembrete de “não fica no meu caminho porque eu te odeio.”

Não há vacina, remédios ou qualquer tipo de cura para o ódio, mas expressá-lo abertamente pode ser libertador e informativo e servir de lição ou aprendizado para quem é o alvo do ódio. Sinceramente, eu prefiro saber do ódio do que ter detectá-lo em suas sutilezas, naquelas armações complexas demais para algo tão simples, como gritar para o mundo um lindo, simples e direto: EU TE ODEIO E PONTO FINAL. Após ouvir a célebre frase, o alvo do ódio precisa de um momento para reflexão ou para extrair de si suas reações, suas lágrimas, seu sentimento de ódio também (quando houver, na maioria dos casos é um sentimento recíproco) e em outros momentos nem tanto é ficar em silêncio absorvendo as informações e esperar tudo passar… Sempre passa. O ódio de outro pode ser a causa da nossa depressão, infelicidade, falta de paz e muita tristeza, mas ao sabê-lo encontramos uma pista para tratar as consequências de tal sentimento. Quanto ao desprezo esse é impossível curar, pois se trata de um julgamento a partir de um parâmetro que não conhecemos, ou se conhecemos, não lembramos para agirmos conforme manda a regra e ao errarmos damos argumento para o desprezo. Damos alimento ao nariz torto de alguém, ao olhar de pena de quem sente piedade, apenas. 

Pensar e falar sobre o sentimento de ódio pode ser útil por muitos motivos, o principal deles é a chance de rever e revisitar nossos sentimentos e compreender nós mesmos e o outro (aquele que nos odeia). Quando isso ocorre precisamos retomar nossas forças e seguir adiante ciente que haverão muitos ódios direcionados a nós. Que haverão muitas reações de desprezo e de ódio disfarçado de um monte de outros sentimentos e reações. Odiar é preciso. Falar sobre o ódio também. Expressá-lo pode ser devastador, libertador ou um mix dos dois. Entender sobre o ódio é entender sobre nossos sentimentos mais profundos.