Minimalismo – um documentário sobre as coisas que são importantes

Quando comecei a desapegar das coisas que acumulei durante toda a vida comecei a ver o que importa…

Procurando algo para assistir na interminável lista de programas, séries, filmes e documentários na Netflix me deparei com um de título “Minimalistic”, produzido em 2016, que no primeiro momento imaginei que se tratasse apenas de tendências de decoração de ambientes (muito em alta nos últimos 3 anos) especialmente divulgadas no Instagram, no Tumblr e por meio de Youtubers.

O documentário começa analisando as diferentes facetas do consumo em larga escala e um dos participantes que deu depoimento chegou a seguinte conclusão: “Compramos muitas coisas e por isso precisamos de muito espaço. O que acontece é que temos espaço sobrando e somos influenciados a ocupá-los com mais coisas e mais coisas que não precisamos. Isto é como uma prisão, pois não conseguimos nos mover com facilidade, por que as coisas nos prendem aos lugares.”

De fato, mais do que uma simples tendência, o “minimal”, que vem de uma escola de pintura abstrata que vê num quadro um objeto estruturado, composto basicamente de formas geométricas elementares executadas em estilo impessoal, reduzindo ao mínimo seus elementos  se apresenta no filme como uma filosofia de vida bastante interessante que se conecta à vários segmentos do budismo e outras filosofias e movimentos estéticos e arquitetônicos, como o das tiny houses.

Depois que me divorciei percebi que acumular muitos objetos ao longo da vida pode ser algo que pode atrapalhar a flexibilidade e a mobilidade. Dentre as várias mudanças que fiz, acabei perdendo muitos objetos pessoais, alguns de valor sentimental, como livros e roupas que ganhei ou comprei em viagens e isso meio que mexe conosco. As coisas possuem sentido e significado em nossas vidas e isso hoje tem sido muito forte para mim. Por outro lado, desapegar de muitas coisas abriu espaço para o vazio e neste vazio consigo pensar em novas possibilidades e experimentações que podem ser muito boas e trazer renovação e novas esperanças. 

Eu por exemplo sou daquelas que adoro comprar objetos de decoração e guardar aquelas lembrancinhas de festas e de eventos na estante. E assim, as coisas vão acumulando, mas ao desapegar de livros, móveis, roupas e objetos há espaço. E neste espaço eu posso refletir muito antes de preenchê-lo com novas coisas. Posso pensar sobre cada uma delas, pois o espaço que elas ocupam numa casa deve refletir um processo de pensamento e construção dentro de mim mesma do lugar para elas. 

No documentário alguém disse “não queremos apenas coisas, queremos o que as coisas trazem para nós”. Eu acrescentaria: “queremos que as coisas façam sentido para nós e depois ocupem espaço. Um sentido que vá além do utilitarismo de um objeto, uma roupa, um móvel ou um livro que li uma vez e guardei para nunca mais pegá-lo novamente”. 

Além de proporcionar esse tipo de reflexão sobre nossa relação com o consumo e os objetos, o documentário apresenta exemplos de pessoas que tomaram decisões radicais em suas vidas. Um ex-corretor de Wall Street mencionou ter passado muitos anos lutando arduamente para chegar ao topo com toda a garra que existe. Assim como outros, percebeu que muitas pessoas bem-sucedidas não eram felizes e desperdiçavam os melhores anos das suas vidas. E decidiu que iria tentar ser bem sucedido e também feliz. O que ele fez? Decidiu parar tudo que fazia, criou um blog, se livrou de boa parte das coisas que comprou e decidiu viajar procurando a felicidade. Eu queria ter este tipo de coragem e admiro muito quem faz. 

Meu processo com relação as coisas e o meu modo de comprar tem sido bem personalizado e adaptado ao tipo de vida que levo hoje. Cada pessoa o faz do seu próprio modo e assim vamos nos transformando nessa dança de desapega-adquire-novas-coisas-repensa-desiste-insiste. 

E ah, algo importante… Muito importante mesmo para quem não entendeu ainda o que significa ser minimalista.

Outra pessoa contou algo que muito me lembrou de como tenho vivido nos últimos meses depois que tive minha mala furtada de um hostel (não vou dizer qual por que eles foram super atenciosos e fizeram o possível para descobrir o que houve, sem muito sucesso). Depois que perdi todas as minhas roupas, fiquei com umas 8 ou 9 peças e sem dinheiro para gastar com isso, pois outras coisas para sobrevivência era mais importante. 

Voltando para o documentário,  Courtney Carver, uma americana que passou por uma situação semelhante (excluindo a parte do roubo made in Brazil) criou o projeto 333 – Simple is the new black), que consistiu em passar 3 meses utilizando apenas 33 itens de roupas, posando no instagram, postando em seu blog e ainda ganhando likes como qualquer outra fashionista que compra horrores e tem aqueles armários explodindo de tantas peças maravilhosas. 

O que ela revelou é tudo aquilo que já sabemos, mas não conseguimos acreditar frente às pressões sociais: NINGUÉM LIGA! É isso mesmo, viver com apenas 33 peças de roupas e ninguém se importa. O segredo para o sucesso? Peças de cores neutras e variadas (jeans, camisetas, casacos, camisa longa, suéteres. moletons e muitas peças pretas e cores que combinam bem). Com isso ela mostrou que é possível se vestir bem e adequadamente sem gastar muito e ter mais espaço para outras coisas ou dividi-lo com outras pessoas.

Em matéria para o “Review Slow Living” a autora do projeto foi além:

Ela não fazia ideia é que milhares de leitores também incorporariam esse desafio minimalista! Agora, já adepta do “slow fashion lifestyle” há quatro anos, ela também viaja com poucos itens na mala e acredita que o projeto tenha mudado não só sua bagagem, mas também sua visão de mundo

Por causa do sucesso do desafio, ela criou uma espécie de guia com algumas dicas para ajudar as pessoas que gostariam de reduzir as peças do seu armário e pensar em formas mais criativas de utilizar suas peças de roupas.

Princípios básicos:

Quando? A cada três meses. Nunca é tarde demais para começar, você pode aderir a qualquer momento.

O que? 33 peças, incluindo roupas, acessórios, jóias, vestuário e calçados.

O que não? esses itens não são contados como parte dos 33 – anel de casamento ou outra jóia sentimental que você nunca tira, lingeries, pijamas, roupa para ficar em em casa e de ginástica.

Como? ao escolher suas peças, guarde o resto de suas roupas, deixe tudo fora de vista e de alcance.

O que mais? considere que você está criando um guarda roupa em que você pode viver, trabalhar e se divertir/sair, por três meses. Lembre-se que este não é um projeto de sofrimento, se suas roupas não servem mais por algum motivo, ou estão em mau estado, substitua-as, sem complicações.

Dicas Bônus

– Use a primeira semana para se ajeitar e adaptar sua seleção de roupas. Também aproveite para doar algumas pecas, caso perceba que existem coisas fora de uso.

– Escolha três peças adicionais e deixe-as separadas em seu armário, para substituir por outras da sua seleção 33.

– Você pode trocar roupas com outras pessoas que participam do Projeto 333. É só postar os itens na página do facebook e se conectar com quem também escolheu participar e viver com menos roupas.

Acima de tudo:

Ainda mais importante do que escolher as roupas, é ser honesto e incluir apenas as que estão em bom estado e que podem ser coordenadas entre si. A autora gosta de frisar que esse não é um projeto para envolver frustração e nem sacrifício, ela só espera que o Projeto 333 traga alegria e leveza e uma maior consciência sobre a quantidade de roupas que a gente realmente precisa para viver bem.

O autor de “Life Edited” compartilhou ideias interessantes para organizar e desenvolver suas vida para incluir mais dinheiro, saúde e felicidade e com menos coisas, espaço e consumo de energia. Uma delas é de como transformar espaços pequenos em ambientes agradáveis e magicamente “mais espaçosos” e funcionais, nem que seja só aparente (para ser bem sincera, ter que desmontar a cama todos os dias é algo meio desconfortável para mim). Tudo muito limpo, com cores neutras e mobiliário simples, que pode ser comprado em qualquer loja de móveis. A parte tecnológica me pareceu interessante, com o uso de aplicativos para regular cortinas, abrir portas e outras funções: misturar a simplicidade, organização, espaços pequenos e internet das coisas me parece uma tendência que veio para ficar. 

Para os mais conservadores, este tipo de movimento parece coisa de radicais (os autores do documentário relataram ter sido comparados com ativistas veganos) sendo acusados de serem uma “ameaça ao sistema” que fortemente incentiva o consumo em larga escala. No começo do movimento só algumas pessoas se interessaram, mas é assim que surgem as boas ideias. Eu penso algo, compartilho com uma ou duas pessoas que fazem isso em suas casas e compartilham suas experiências e isto vai se multiplicando para um maior número de pessoas e de repente… Vira uma tendência de estilo e filosofia de vida. 

Em depoimento emocionante, um participante disse: “quando aderi a esta filosofia comecei a pensar coisas como – quero ter um apartamento do meu jeito. Mas como é o meu jeito? Como este quadro define o meu jeito grosseiro, honesto e complicado de ser? Como esta cafeteira demonstra o homem que eu sou? Do que mais eu preciso para me sentir satisfeito?”

O Minimalismo enquanto filosofia de vida te ajuda a refletir sobre como as coisas podem dizer ao nosso respeito e isso nos ajuda a realizar melhores escolhas e compras conscientes. Então após passarmos por aquele momento de tirar tudo do armário, vamos recolocando novas peças e novos objetos pensando na utilidade, na estética, no valor emocional e como cada peça fala sobre nós. Como nosso espaço de moradia fala sobre nós mesmos em tempos de “kits de seja-assim-assado” e de pacotes de qualidade e de casas todas iguais, tudo muito igual (afinal, tudo igual é tão chato, não é mesmo?). Sendo assim, o minimalismo nos ajuda nessa busca por uma identidade que se perde no meio de tantas coisas.

Resumindo: Tudo pode ser de outros (pessoas, épocas, lugares, lojas, etc), mas aquela xícara me representa por tal motivo. Resolvido!

E por fim, uma mensagem renovadora sobre a arte de morar bem: “ame as pessoas, use as coisas e nunca ao contrário, porque raramente dá certo”. Dica anotada! 

 

 

 

 

Por que precisamos criar um lar?

Hoje eu estava pensando em como decorar meu apartamento gastando o mínimo possível e procurando algumas ideias interessantes na internet, quando achei esse texto, que complementa as leituras do livreto “Calma & Relacionamentos” do The School of Life.

Segue abaixo. O original está publicado aqui.

Uma das atividades mais significativas que realizamos está na criação de uma casa. Ao longo de vários anos, normalmente com muito pensamento e dedicação considerável, juntamos móveis, panelas, quadros, tapetes, almofadas, vasos, aparadores, torneiras, maçanetas, entre outros, em uma constelação peculiar que associamos à palavra “casa”. Enquanto criamos nossos ambientes, ficamos envolvidos com a cultura com uma empolgação que raramente temos nos domínios supostamente mais altos de museus e galerias. Refletimos profundamente sobre o ambiente para um quadro, pensamos na relação entre cores em uma parede, notamos a consequência que o formato do encosto de um sofá pode ter e questionamos cuidadosamente quais livros realmente merecem nossa atenção constante.

Nossas casas não serão necessariamente os ambientes mais atraentes ou suntuosos nos quais poderíamos passar um tempo – sempre há hotéis ou espaços públicos muito mais impressionantes, mas, depois de fazermos uma longa viagem, depois de muitas noites em quartos de hotel ou camas de amigos, normalmente sentimos uma vontade imensa de voltar para o nosso próprio lugar, uma dor que tem pouco a ver com o conforto material em si. Precisamos voltar para casa para lembrar quem somos.

Nossos lares têm uma função de memorização e o que eles nos ajudam a recordar é, estranhamente, a nós mesmos. Podemos ver esta necessidade de ancorar a identidade em matéria na história da religião. Desde o início, os humanos tiveram enorme cuidado e criatividade na construção de lares para seus deuses. Não sentiam que eles poderiam viver em qualquer lugar, na floresta, como se ficassem em hotéis; acreditavam que precisavam de lugares especiais, lares-templos, onde seu caráter específico poderia ser estabelecido através da arte e da arquitetura.

Para os gregos antigos, Atena era a deusa da sabedoria, racionalidade e harmonia e, em 420 a.C., concluíram uma casa para ela nas encostas da Acrópole. Não era uma casa grande – tinha o tamanho de uma cozinha americana –, mas era excepcionalmente adequada e bonita. O templo parecia digno, mas acessível. Era rigorosamente equilibrado e lógico, sereno e sóbrio. Era sua moradora habilmente esculpida em calcário.

Os gregos cuidavam muito do lar-templo de Atena porque entendiam a mente humana. Sabiam que, sem a arquitetura, lutamos para nos lembrar do que gostamos – e, mais amplamente, de quem somos. Ouvir as palavras de que Atena representava graça e equilíbrio não seria suficiente. Precisava haver uma casa para concretizar a ideia de maneira firme e contínua.

Sem ter nada grandioso ou sobrenatural em mente, nossas casas também são templos – para nós. Não esperamos ser adorados, mas estamos tentando criar um lugar que, como um templo, incorpore adequadamente nossos valores.

Criar uma casa é frequentemente um processo muito árduo porque exige que encontremos nosso caminho até objetos que possam transmitir corretamente nossas identidades. Podemos ter de fazer esforços enormes para rastrear o que consideramos ser os objetos “certos” para funções em particular, rejeitando centenas de alternativas que teriam – no sentido material – sido perfeitamente úteis, em nome daquelas que acreditamos comunicar fielmente a mensagem certa sobre quem somos.

Ficamos exigentes porque os objetos são, à sua maneira, imensamente eloquentes. Duas cadeiras que têm basicamente o mesmo papel físico podem articular visões de vida totalmente diferentes.

Uma cadeira do arquiteto suíço do século 20 Le Corbusier emanará eficiência, empolgação com o futuro, espírito internacional, impaciência com a nostalgia e devoção à razão. A outra, do designer inglês do século 19 William Morris, demonstrará a superioridade do mundo pré-industrial, a beleza da tradição, o chamado da paciência e a atração do local. Podemos não reproduzir roteiros tão precisos em nossa mente ao olharmos para as cadeiras, mas logo abaixo do limiar da consciência podemos ser altamente reativos às mensagens que tais objetos transmitem de forma constante e perpétua ao mundo.

Um objeto parece “certo” quando representa lindamente qualidades que nos atraem, mas das quais não temos doses suficientemente fortes em nossa vida cotidiana. O objeto desejável nos dá uma percepção mais segura dos valores que estão presentes, mas são frágeis, em nós mesmos; ele endossa e estimula temas importantes em nós. As menores coisas em nossas casas sussurram em nossos ouvidos, oferecem estímulos, lembretes, pensamentos consoladores, advertências ou corretivos, enquanto preparamos o café da manhã ou fazemos as contas à noite.

Como todos queremos e precisamos ouvir essas coisas, seremos levados na direção de tipos muito diferentes de objetos. Há um lado profundamente subjetivo na sensação de beleza. Entretanto, nossos conflitos quanto a gosto não são arbitrários nem aleatórios – são fundamentados no fato de que os tipos de mensagens aos quais será bom nos expormos variarão dependendo do que é provisório e está ameaçado em nossa vida.

A busca por construir uma casa está conectada a uma necessidade de estabilizar e organizar nossos “eus” complexos. Não é suficiente saber quem somos em nossa mente. Precisamos de algo mais tangível, material e sensorial para fixar os aspectos diferentes e intermitentes de nossa identidade. Precisamos usar certos tipos de talheres, estantes, armários e poltronas para nos alinharmos com quem somos e queremos ser. Não estamos nos vangloriando; estamos tentando juntar nossas identidades em um receptáculo, preservando-nos da erosão e da dispersão. “Lar” significa o lugar onde nossa alma sente que encontrou seu recipiente físico adequado, onde, todos os dias, os objetos em meio aos quais vivemos silenciosamente nos lembram de nossos compromissos e amores mais autênticos.

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