Em “Hearts of Our People”,, mulheres indígenas americanas recuperam seu espaço através da arte

Original publicado aqui.

A arte se mostrou uma saída para um grupo de mulheres indígenas continuarem seus ofícios e manterem suas histórias tradicionais por séculos. Elas continuaram a criar e a desenvolver seus trabalhos até mesmo enquanto lutavam contra opressão, como nas residências e internatos em que muitas foram forçadas a viver ao longo do século 19 nos Estados Unidos, nos quais os colonizadores tentaram destruir sua cultura e assimilá-las ao modelo de vida branco e cristão. 

Hoje, suas obras são fortemente referenciadas na moda e no design, e muitas vezes sem reconhecimento; as artistas indígenas são frequentemente vítimas de apropriação cultural. Parece, sem dúvida, que relacionado a essa questão ainda não houve uma grande retorno para elas, como por exemplo, a criação de um grande museu dedicado a explorar essas mulheres – até o momento.

Em razão destas críticas o Instituto de Arte de Minneapolis (MIA) apresenta “Corações do Nosso Povo: Artistas Nativas Femininas”, a primeira grande vitrine para dar visibilidade às mulheres indígenas, tanto do Canadá como dos Estados Unidos, que foram repetidamente ignoradas no mundo da arte mainstream. Com curadoria de Teri Greeves e Jill Ahlberg Yohe, apresenta 117 objetos diferentes, todos feitos por mulheres nativas, que abrangem mais de 1.000 anos, incluindo pinturas, esculturas, roupas e muito mais. Uma das principais características é que as próprias artistas também variam em tribo e localização. 

Foto: Dan Dennehy / Cortesia do Minneapolis Institute of Art
Jamie Okuma and Keri Ataumbi, Adornment: Iconic Perceptions, 2014.
Foto: Charles Walbridge / Cortesia of The Minneapolis Institute of Arts
Jamie Okuma, Adaptation II, 2012
Foto: Cortesia do Denver Art Museum
Crow artist, Dress, 1930.
Foto: Gina Fuentes-Walker / Cortesia do The Smithsonian Institution
Sisseton Dakota artist, Table cloth, 1900
Foto: Tom Fields / Cortesia do Minneapolis Institute of Arts
Osage artist, Ribbon blanket, 1950.

O projeto tem tomado muito tempo para os curadores Yohe e Greeves. A dupla trabalha neste projeto há mais de quatro anos e, durante o processo de aquisição, eles trabalharam com um conselho consultivo de 21 artistas e acadêmicos nativos de diferentes regiões para garantir que a seleção final representasse a combinação certa e equilibrada de todas as regiões e etnias, “nenhum de nós poderíamos falar com autoridade sobre todas essas outras nações e etnias”, disse Greeves, enquanto Yohe acrescentou: “Para contar uma história tão rica quanto essa, não podemos contar essa história sem buscar outras fontes. A diretoria nos ajudou a garantir que fôssemos abrangentes no escopo.” Para atingir sua meta, os curadores dividiram a exposição em três temas: legado, relacionamento e poder.

No interior, as obras conseguem fazer justiça a essas grandes ideias. Power, por exemplo, chama a atenção em alta velocidade: um modelo do tipo El Camino totalmente personalizado, feito pela artista de mídia Rose B. Simpson, um Santa Clara Pueblo, abre o show. Com seu trabalho, Maria, se apresenta como uma cara de gasolina – algo visto como um passatempo muito masculino – então ela dá-lhe um toque de mulher indígena, equipando-o com decalques inspirados nas linhas encontradas nas cerâmicas Pueblo, que muitas vezes são feitas e dominadas por mulheres.

Em outra sala, uma pintura em grande escala, intitulada A Sabedoria do Universo, da artista Métis Christi Belcourt – pintada em um estilo pontilhado, para dar a sua tela a aparência de ser frisada – explora a relação entre os povos indígenas e a natureza. Nesta pintura os animais, plantas e água ocupam um lugar sagrado na vida indígena, e Belcourt refere-se especificamente às mudanças climáticas do século 21, pintando apenas as espécies que estão na lista de animais ameaçados do Canadá. É uma peça extremamente bonita com uma mensagem importante em seu núcleo.

Rose B. Simpson, Maria, 2014
Foto: Kate Russell

Enquanto isso, Legacy é um tema que percorre praticamente todas as peças do programa. Uma amostra de destaque é a joalheria colaborativa, intitulada “Adorno: Percepções Icônicas, da joalheira Kiowa Keri Ataumbi e do artista Shoshone-Bannock e Luiseño Jamie Okuma“, ambos com perfil para a Vogue aqui. Em um anel e colar de coquetel cintilante, Okuma pintou retratos de Pocahontas, com base em ilustrações históricas dela nos séculos XVII e XVIII; Ataumbi, em seguida, definem beading Okuma com metais preciosos, pérolas e pedras. São peças de moda fabulosas que re-imaginam uma figura histórica que há muito foi mal interpretada e estereotipada.

Em geral, as peças de moda mostram o quanto a arte indígena evoluiu e cortam qualquer mito de sua homogeneidade. Um vestido de jingle Anishinaabe e uma faixa de cabeça de contas dos anos 1900 evocam as silhuetas no estilo melindroso que dominaram o período de tempo, mostrando que uma peça tradicional pode até refletir as tendências atuais do dia. Outra peça de Okuma, um par de sapatos do tipo plataformas de Christian Louboutin, combina artesanato tradicional com um floreio ultramoderno.

Kay WalkingStick, Venere Alpina, 1997.
Foto: Kay WalkingStick / Minneapolis Institute of Art

Não podemos deixar de notar a relevância de um programa como “Hearts of Our People”, pois os direitos das mulheres estão cada vez mais sob ataque na América; leis controversas e draconianas, por exemplo, ameaçam por trazer debates como Roe v. Wade ao relembrar os traumas e todas as situações ruins vividas pelas mulheres indígenas, com intuito de conectar suas lutas por meio da solidariedade – o que é algo que Greeves acredita que esse programa pode oferecer.

“Esta exposição deveria ter iniciado em 2016, quando Hillary [Clinton] deveria ser a presidente. Então a eleição aconteceu ”, disse Greeves. “Eu percebi que tudo acontece por um motivo. Esse tipo de demonstração do efeito das mulheres nativas na arte americana, fazendo essa declaração agora e tomando uma posição sobre o poder das mulheres, está realmente revolucionando a medicina neste momento. Isso está acontecendo quando deveria estar acontecendo.

Anishinaabe artist, Jingle Dress and Headband, 1900
Foto: Courtesy of the Minneapolis Institute of Art

Minimalismo – um documentário sobre as coisas que são importantes

Quando comecei a desapegar das coisas que acumulei durante toda a vida comecei a ver o que importa…

Procurando algo para assistir na interminável lista de programas, séries, filmes e documentários na Netflix me deparei com um de título “Minimalistic”, produzido em 2016, que no primeiro momento imaginei que se tratasse apenas de tendências de decoração de ambientes (muito em alta nos últimos 3 anos) especialmente divulgadas no Instagram, no Tumblr e por meio de Youtubers.

O documentário começa analisando as diferentes facetas do consumo em larga escala e um dos participantes que deu depoimento chegou a seguinte conclusão: “Compramos muitas coisas e por isso precisamos de muito espaço. O que acontece é que temos espaço sobrando e somos influenciados a ocupá-los com mais coisas e mais coisas que não precisamos. Isto é como uma prisão, pois não conseguimos nos mover com facilidade, por que as coisas nos prendem aos lugares.”

De fato, mais do que uma simples tendência, o “minimal”, que vem de uma escola de pintura abstrata que vê num quadro um objeto estruturado, composto basicamente de formas geométricas elementares executadas em estilo impessoal, reduzindo ao mínimo seus elementos  se apresenta no filme como uma filosofia de vida bastante interessante que se conecta à vários segmentos do budismo e outras filosofias e movimentos estéticos e arquitetônicos, como o das tiny houses.

Depois que me divorciei percebi que acumular muitos objetos ao longo da vida pode ser algo que pode atrapalhar a flexibilidade e a mobilidade. Dentre as várias mudanças que fiz, acabei perdendo muitos objetos pessoais, alguns de valor sentimental, como livros e roupas que ganhei ou comprei em viagens e isso meio que mexe conosco. As coisas possuem sentido e significado em nossas vidas e isso hoje tem sido muito forte para mim. Por outro lado, desapegar de muitas coisas abriu espaço para o vazio e neste vazio consigo pensar em novas possibilidades e experimentações que podem ser muito boas e trazer renovação e novas esperanças. 

Eu por exemplo sou daquelas que adoro comprar objetos de decoração e guardar aquelas lembrancinhas de festas e de eventos na estante. E assim, as coisas vão acumulando, mas ao desapegar de livros, móveis, roupas e objetos há espaço. E neste espaço eu posso refletir muito antes de preenchê-lo com novas coisas. Posso pensar sobre cada uma delas, pois o espaço que elas ocupam numa casa deve refletir um processo de pensamento e construção dentro de mim mesma do lugar para elas. 

No documentário alguém disse “não queremos apenas coisas, queremos o que as coisas trazem para nós”. Eu acrescentaria: “queremos que as coisas façam sentido para nós e depois ocupem espaço. Um sentido que vá além do utilitarismo de um objeto, uma roupa, um móvel ou um livro que li uma vez e guardei para nunca mais pegá-lo novamente”. 

Além de proporcionar esse tipo de reflexão sobre nossa relação com o consumo e os objetos, o documentário apresenta exemplos de pessoas que tomaram decisões radicais em suas vidas. Um ex-corretor de Wall Street mencionou ter passado muitos anos lutando arduamente para chegar ao topo com toda a garra que existe. Assim como outros, percebeu que muitas pessoas bem-sucedidas não eram felizes e desperdiçavam os melhores anos das suas vidas. E decidiu que iria tentar ser bem sucedido e também feliz. O que ele fez? Decidiu parar tudo que fazia, criou um blog, se livrou de boa parte das coisas que comprou e decidiu viajar procurando a felicidade. Eu queria ter este tipo de coragem e admiro muito quem faz. 

Meu processo com relação as coisas e o meu modo de comprar tem sido bem personalizado e adaptado ao tipo de vida que levo hoje. Cada pessoa o faz do seu próprio modo e assim vamos nos transformando nessa dança de desapega-adquire-novas-coisas-repensa-desiste-insiste. 

E ah, algo importante… Muito importante mesmo para quem não entendeu ainda o que significa ser minimalista.

Outra pessoa contou algo que muito me lembrou de como tenho vivido nos últimos meses depois que tive minha mala furtada de um hostel (não vou dizer qual por que eles foram super atenciosos e fizeram o possível para descobrir o que houve, sem muito sucesso). Depois que perdi todas as minhas roupas, fiquei com umas 8 ou 9 peças e sem dinheiro para gastar com isso, pois outras coisas para sobrevivência era mais importante. 

Voltando para o documentário,  Courtney Carver, uma americana que passou por uma situação semelhante (excluindo a parte do roubo made in Brazil) criou o projeto 333 – Simple is the new black), que consistiu em passar 3 meses utilizando apenas 33 itens de roupas, posando no instagram, postando em seu blog e ainda ganhando likes como qualquer outra fashionista que compra horrores e tem aqueles armários explodindo de tantas peças maravilhosas. 

O que ela revelou é tudo aquilo que já sabemos, mas não conseguimos acreditar frente às pressões sociais: NINGUÉM LIGA! É isso mesmo, viver com apenas 33 peças de roupas e ninguém se importa. O segredo para o sucesso? Peças de cores neutras e variadas (jeans, camisetas, casacos, camisa longa, suéteres. moletons e muitas peças pretas e cores que combinam bem). Com isso ela mostrou que é possível se vestir bem e adequadamente sem gastar muito e ter mais espaço para outras coisas ou dividi-lo com outras pessoas.

Em matéria para o “Review Slow Living” a autora do projeto foi além:

Ela não fazia ideia é que milhares de leitores também incorporariam esse desafio minimalista! Agora, já adepta do “slow fashion lifestyle” há quatro anos, ela também viaja com poucos itens na mala e acredita que o projeto tenha mudado não só sua bagagem, mas também sua visão de mundo

Por causa do sucesso do desafio, ela criou uma espécie de guia com algumas dicas para ajudar as pessoas que gostariam de reduzir as peças do seu armário e pensar em formas mais criativas de utilizar suas peças de roupas.

Princípios básicos:

Quando? A cada três meses. Nunca é tarde demais para começar, você pode aderir a qualquer momento.

O que? 33 peças, incluindo roupas, acessórios, jóias, vestuário e calçados.

O que não? esses itens não são contados como parte dos 33 – anel de casamento ou outra jóia sentimental que você nunca tira, lingeries, pijamas, roupa para ficar em em casa e de ginástica.

Como? ao escolher suas peças, guarde o resto de suas roupas, deixe tudo fora de vista e de alcance.

O que mais? considere que você está criando um guarda roupa em que você pode viver, trabalhar e se divertir/sair, por três meses. Lembre-se que este não é um projeto de sofrimento, se suas roupas não servem mais por algum motivo, ou estão em mau estado, substitua-as, sem complicações.

Dicas Bônus

– Use a primeira semana para se ajeitar e adaptar sua seleção de roupas. Também aproveite para doar algumas pecas, caso perceba que existem coisas fora de uso.

– Escolha três peças adicionais e deixe-as separadas em seu armário, para substituir por outras da sua seleção 33.

– Você pode trocar roupas com outras pessoas que participam do Projeto 333. É só postar os itens na página do facebook e se conectar com quem também escolheu participar e viver com menos roupas.

Acima de tudo:

Ainda mais importante do que escolher as roupas, é ser honesto e incluir apenas as que estão em bom estado e que podem ser coordenadas entre si. A autora gosta de frisar que esse não é um projeto para envolver frustração e nem sacrifício, ela só espera que o Projeto 333 traga alegria e leveza e uma maior consciência sobre a quantidade de roupas que a gente realmente precisa para viver bem.

O autor de “Life Edited” compartilhou ideias interessantes para organizar e desenvolver suas vida para incluir mais dinheiro, saúde e felicidade e com menos coisas, espaço e consumo de energia. Uma delas é de como transformar espaços pequenos em ambientes agradáveis e magicamente “mais espaçosos” e funcionais, nem que seja só aparente (para ser bem sincera, ter que desmontar a cama todos os dias é algo meio desconfortável para mim). Tudo muito limpo, com cores neutras e mobiliário simples, que pode ser comprado em qualquer loja de móveis. A parte tecnológica me pareceu interessante, com o uso de aplicativos para regular cortinas, abrir portas e outras funções: misturar a simplicidade, organização, espaços pequenos e internet das coisas me parece uma tendência que veio para ficar. 

Para os mais conservadores, este tipo de movimento parece coisa de radicais (os autores do documentário relataram ter sido comparados com ativistas veganos) sendo acusados de serem uma “ameaça ao sistema” que fortemente incentiva o consumo em larga escala. No começo do movimento só algumas pessoas se interessaram, mas é assim que surgem as boas ideias. Eu penso algo, compartilho com uma ou duas pessoas que fazem isso em suas casas e compartilham suas experiências e isto vai se multiplicando para um maior número de pessoas e de repente… Vira uma tendência de estilo e filosofia de vida. 

Em depoimento emocionante, um participante disse: “quando aderi a esta filosofia comecei a pensar coisas como – quero ter um apartamento do meu jeito. Mas como é o meu jeito? Como este quadro define o meu jeito grosseiro, honesto e complicado de ser? Como esta cafeteira demonstra o homem que eu sou? Do que mais eu preciso para me sentir satisfeito?”

O Minimalismo enquanto filosofia de vida te ajuda a refletir sobre como as coisas podem dizer ao nosso respeito e isso nos ajuda a realizar melhores escolhas e compras conscientes. Então após passarmos por aquele momento de tirar tudo do armário, vamos recolocando novas peças e novos objetos pensando na utilidade, na estética, no valor emocional e como cada peça fala sobre nós. Como nosso espaço de moradia fala sobre nós mesmos em tempos de “kits de seja-assim-assado” e de pacotes de qualidade e de casas todas iguais, tudo muito igual (afinal, tudo igual é tão chato, não é mesmo?). Sendo assim, o minimalismo nos ajuda nessa busca por uma identidade que se perde no meio de tantas coisas.

Resumindo: Tudo pode ser de outros (pessoas, épocas, lugares, lojas, etc), mas aquela xícara me representa por tal motivo. Resolvido!

E por fim, uma mensagem renovadora sobre a arte de morar bem: “ame as pessoas, use as coisas e nunca ao contrário, porque raramente dá certo”. Dica anotada!