Pelas páginas de Erico Verissimo

Livro do professor Márcio Miranda Alves traz uma contribuição para a leitura e análise de O Tempo e o Vento tecendo uma fronteira entre literatura e história, por meio dos jornais reais e ficcionais.

Original publicado aqui.

Erico Verissimo e o jornalismo: fontes para a criação literária (Paco Editorial, 2019), do professor Márcio Miranda Alves (Universidade de Caxias do Sul), traz uma contribuição para a leitura e análise de O Tempo e o Vento, romance em três partes – O ContinenteO Retrato O Arquipélago, editado em sete volumes. O autor explora o trabalho de citação por dentro do romance, tecendo uma fronteira entre a literatura e a história, por meio dos jornais consultados pelo escritor e dos jornais existentes apenas no mundo ficcional da obra.

Erico ainda era vivo quando saiu a coletânea Contador de histórias (Globo, 1972), sobre sua vida e trajetória de escritor, com textos de acadêmicos, escritores e críticos literários, trabalho que se antecipou a uma proliferação de estudos críticos das últimas décadas. Àquele elenco reunido por Flávio Loureiro Chaves, veio se juntar depois o nome de Maria da Glória Bordini, cuja dedicação à obra de Erico Verissimo se tornou notória, sendo responsável por inúmeros estudos e preservação do arquivo literário.

Foto: Reprodução. 

Partindo de uma experiência de leitor de ficção, Márcio Alves retorna ao campo do jornalismo para mostrar como o escritor se vale de periódicos em busca da verossimilhança no romance, mesmo que tenha um olhar crítico sobre o material recolhido dessa imprensa e de revistas ilustradas. No capítulo que trata da relação entre Imprensa e Literatura, Alves examina o episódio Chantecler (O Retrato) à luz de reportagens da revista L’Illustration, levado pelo personagem Rodrigo Cambará, leitor desta publicação. Em nota de rodapé, informa que a referência constante a textos da revista está prevista no projeto de criação, de acordo com uma agenda do escritor. Ao final de Erico Verissimo e o jornalismo, há uma “relação dos episódios, principais eventos e títulos de jornais, revistas e almanaques citados no romance O Tempo e o Vento”.

Ao pesquisador de arquivos e jornais, distante da historiografia e temáticas sul-rio-grandenses, o livro contribui como registro da vivacidade que o jornalismo carrega para dentro da literatura e/ou que a literatura resgata do jornalismo, do bom jornalismo. E também pela forma como o autor recoloca a história do Rio Grande do Sul, de modo panorâmico e didático, através de cenas do romance construídas com registros de jornais da época, os quais teve o cuidado de consultar em arquivos e coleções de periódicos no Rio Grande do Sul, em São Paulo e na Alemanha.

*Wagner Coriolano de Abreu é professor de literatura e pesquisador. Licenciado em Letras, com mestrado e doutorado em Teoria da Literatura, autor de Quando o teatro encena a cadeira (Unisinos, 2001) e Sempre aos pares (Carta Editora, 2012), leciona na Oficina de Literatura do Projeto Guardiões da Água (Secult/Semae), em São Leopoldo.

Brincadeira de criança: Brinquedos e brincadeiras para crianças pequenas

Vamos brincar? Conheça diversas brincadeiras educativas e divertidas para fazer com crianças pequenas!

A brincadeira de alta qualidade faz a diferença na experiência presente e futura, contribuindo de forma única para a formação integral das crianças. As crianças brincam de forma espontânea em qualquer lugar e com qualquer coisa, mas é preciso associar tal espontaneidade com a qualidade do brincar.

A alta qualidade é resultado da atenção do adulto, que procura oferecer autonomia às crianças para a exploração dos brinquedos e a recriação da cultura lúdica. É essa atenção que resulta na intervenção que se faz no ambiente, na organização do espaço físico, na disposição de mobiliário, na seleção e organização dos brinquedos e materiais e nas interações com as crianças.

É o conjunto desses fatores – as concepções, o planejamento do espaço, do tempo e dos materiais, a liberdade de ação da criança e a intermediação do adulto – que faz a diferença no desenvolvimento, resultando em uma educação de qualidade para a primeira infância. Não se separa, portanto, a qualidade da brincadeira da qualidade da educação infantil. Assim, neste material, a brincadeira é sempre considerada com o sentido de um brincar de qualidade. Para educar crianças pequenas, que ainda são vulneráveis, é
necessário integrar a educação ao cuidado, mas também a educação e o cuidado à brincadeira.

Este eBook distribuído gratuitamente é uma adaptação contextualizada do material “Brinquedos e Brincadeiras de Creche – Manual de Orientação Pedagógica” elaborado pelo Ministério da Educação, por meio da Secretaria de Educação Básica, com a parceria do UNICEF em 2012.

Guia reúne as espécies mais comuns nas várzeas da Amazônia

Original publicado aqui.

Grupo de pesquisa lançou o Guia de campo de herbáceas aquáticas: várzea Amazônica, que reúne as espécies mais comuns nas várzeas, especialmente da Amazônia Central, com fotos, ilustrações e esquemas sintetizando o ciclo de vida das plantas ao longo do ciclo hidrológico. No livro, são descritas espécies de 38 diferentes famílias de plantas, incluindo pteridófitas, hepáticas, monocotiledôneas e dicotiledôneas.

O principal objetivo da obra é fornecer informações básicas para identificar essas plantas em campo, conhecer sua ecologia e morfologia adaptativa e, adicionalmente, expandir o conhecimento de todos os interessados por seus aspectos estéticos, recreativos e de embelezamento.

Imagem de herbáceas aquaticas
Foto: Típica paisagem de um lago de várzea às margens do Rio Amazonas; em primeiro plano a belíssima vitória-régia [Victoria amazonica (Poepp.) J.E.Sowerby], entremeada pelo capim-membeca (Paspalum repens P.J.Bergius); no fundo a exuberante floresta alagável. Foto: Acervo Grupo MAUA.

A obra conta com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM) e é assinada pelos pesquisadores Maria Teresa Fernandez PiedadeAline LopesLayon Oreste DemarchiWolfgang JunkFlorian WittmannJochen Schöngart e Jefferson da Cruz. O livro ainda não foi impresso por falta de recursos, mas está disponível, gratuitamente, para download na página do INPA na internet.

Segundo os autores, “as plantas aquáticas amazônicas pertencem a vários grupos taxonômicos, e sua identificação e organização não se mostrou um exercício banal”. Várias ideias se sucederam ao longo dos anos, mas a opção foi fazer uma obra mais concisa e rica visualmente que atendesse às necessidades de um público maior. Entretanto, uma compilação mais robusta está em construção.

Foto: Mureru (Eichhornia azurea (Sw.) Kunth), espécie comum em vários lagos da várzea amazônica. Foto: Acervo Grupo MAUA.

O livro é apresentado pelo Professor Sir. Ghillean Prance, um dos maiores botânicos do mundo, que trabalhou muitos anos junto ao INPA. Ele destaca a importância da publicação e ressalta que “a vegetação aquática tem um papel bastante importante na ecologia da região, então é essencial facilitar o trabalho dos pesquisadores na identificação exata das espécies”. Prance destaca, ainda, que “os detalhes da estrutura das plantas são claramente ilustrados mostrando adaptações aos diversos nichos do ecossistema aquático”.

Para  a pesquisadora do INPA, Maria Teresa Fernandez Piedade, coordenadora do sítio do Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração do CNPq PELD-MAUA, considerando o papel ecológico e econômico que as herbáceas da várzea desempenham, a obra é essencial para auxiliar o entendimento de como as espécies se comportam em função das variações de nível da água dos rios da região, ou seja, a dinâmica do pulso de inundação. Segundo ela, essas informações são de interesse para alunos, pesquisadores, gestores públicos, bem como para o público em geral.

Foto: Eichhornia crassipes (Mart.) Solms, uma das espécies mais abundantes das várzeas amazônicas, onde frequentemente forma estandes monoespecíficos. Foto: Acervo Grupo MAUA.

“Além de um guia ilustrado que auxilia a identificação das espécies em campo, (o livro) representa a reunião de diversas informações ecológicas e morfológicas até agora ausentes para este importante e magnífico grupo de espécies das várzeas amazônicas. Esse trabalho visou atender não apenas aos especialistas em plantas aquáticas, como também a outros pesquisadores que necessitam identificar as plantas aquáticas, como, por exemplo, aqueles que estudam aves, peixes e insetos que usam as plantas como alimento ou habitat”, disse, Maria Teresa, que é bolsista de Produtividade em Pesquisa 1A do CNPq.

A professora ressalta, ainda, que a publicação conta com informações fundamentais sobre a ecologia das principais espécies de plantas aquáticas e em que período do ano elas podem ser encontradas. “Assim, se trata de um trabalho inédito, que vem sendo idealizado há muitos anos por pesquisadores que são referências na área de ecologia de áreas úmidas amazônicas, e sintetiza informações de diversas outras publicações anteriores, mas, principalmente, o conhecimento de campo acumulado durante anos de experiência na área”, finaliza.

Foto: Nymphaea rudgeana G.Mey., espécie que ocorre em águas calmas de lagos de várzea e igapó da região amazônica. Por Aline Lopes

Sobre os autores

Aline Lopes, bióloga, doutora em ecologia. Bolsista PNPD Capes do PPG Ecologia, Universidade de Brasília. Pesquisadora Colaboradora do PELD-MAUA e Grupo MAUA/INPA. Estuda ecologia de macrófitas aquáticas e efeitos da poluição sobre as plantas aquáticas. alopesmga@ gmail.com

Florian Wittmann, doutor em geografia física e livre-docente em geografia física. Pesquisador do Instituto de Geografia e Geoecologia da Universidade de Karlsruhe, Alemanha, e líder do Departamento de Áreas Úmidas. Pesquisador do PELD-MAUA e Grupo MAUA/INPA. Estuda a ecologia e fitogeografia das áreas alagáveis neotropicais. f-wittmann@web.de

Jefferson da Cruz, biólogo, doutor em botânica. Professor Associado da Universidade Federal do Amazonas – UFAM. Pesquisador Colaborador do Grupo MAUA/ INPA. Estuda morfologia, taxonomia e ciclos de vida de macrófitas aquáticas e de palmeiras amazônicas. jeffdacruz2@gmail.com

Jochen Schöngart, doutor e livre docência em ciências florestais. Pesquisador Associado do INPA atuando no grupo de pesquisa MAUA e projeto PELD-MAUA. Estuda a idade de árvores e as relações entre o crescimento arbóreo e fatores ambientais em áreas úmidas com aplicações na ecologia, conservação, climatologia, hidrologia e manejos de recursos madeireiros. jochen.schongart@inpa.gov.br

Layon Oreste Demarchi, ecólogo, mestre em ecologia e doutorando em botânica pelo INPA. Grupo MAUA/INPA. Estuda florística e fitossociologia de formações vegetais amazônicas e seus usos pelas populações humanas. layon.lod@gmail.com

Maria Teresa Fernandez Piedade, bióloga, doutora em ecologia. Pesquisadora Titular do INPA e responsável pelo Grupo de Ecologia, Monitoramento e Uso Sustentável de Áreas Úmidas – MAUA. Pesquisadora coordenadora do Grupo MAUA e PELD-MAUA. Estuda a ecologia de áreas úmidas com ênfase em macrófitas aquáticas. maitepp@inpa.gov.br

Wolfgang Junk, doutor em zoologia, botânica, química, oceanografia e limnologia com livre docência em Ecologia Tropical. Professor visitante da Universidade Estadual do Amazonas – UEA. Coordenador Científico do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Áreas Úmidas (INCT-INAU) na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Cuiabá. Pesquisador Colaborador do PELD-MAUA e Grupo MAUA/INPA. Estuda ecologia tropical com ênfase em áreas alagáveis, biodiversidade e manejo sustentável. wjj@evolbio.mpg.de

Ebook: Entenda de vinhos – Primeiros passos

O “Entenda de Vinhos” é um guia prático para você dar os primeiros passos no apaixonante universo do vinho.

O e-book trata de conceitos básicos e traz algumas dicas clássicas de harmonização, finalizando com uma receita simples para você surpreender em momentos especiais.

Para baixar é preciso preencher um formulário disponível neste link.

Don’t Eat and Read

Original publicado aqui.

WALTER BENJAMIN, 1928. CORTESIA DO ARQUIVO DE WALTER BENJAMIN NA ACADEMIA DE ARTES, VIA WIKIMEDIA COMMONS.

Todos os livros não devem ser lidos da mesma maneira. Romances, por exemplo, estão lá para serem devorados. Lê-los é um ato voluptuoso de absorção, não um ato de empatia. O leitor não se imagina no lugar do herói, mas assimila o que lhe acontece. O relato vívido dessas experiências é a apetitosa guarnição em que um prato nutritivo chega à mesa.

Há, com certeza, uma dieta crua de experiência – assim como há uma dieta crua para o estômago – a saber: as próprias experiências. Mas a arte do romance, como as artes culinárias, começa além dos ingredientes crus.

Quantas substâncias nutritivas existem e que não são apetitosas em estado bruto! Quantas experiências são aconselháveis para ler, mas não para ter! Alguns leitores são atingidos com tanta força que teriam sido devastados se tivessem sofrido as experiências diretamente.

Em resumo, se houvesse uma musa do romance – uma décima musa – seu emblema seria o cozinheiro. Ela eleva o mundo de seu estado bruto a fim de criar algo apto para comer, para realçar a plenitude de seu sabor. Pode-se, se necessário, ler o jornal enquanto se come. Mas nunca um romance. Essas são duas obrigações conflitantes.

—Translated from the German por Tess Lewis.

III Encontro Internacional de Inovação na Educação: Educação fora da caixa

O Encontro Internacional de Inovação na Educação – Educação Fora da Caixa busca, desde 2015, discutir tendências e mudanças necessárias à educação do futuro. O evento promove a troca de experiências entre educadores, pesquisadores, gestores e empreendedores em educação reconhecidos nacional e internacionalmente. A rede fortalecida, em cada edição do evento, vem ativar o ecossistema de inovação de forma a conectar diferentes atores em prol das práticas inovadoras para o ensino-aprendizado dos diferentes públicos.

Em 2019, o Edu Fora da Caixa, organizado e promovido por pesquisadores do grupo VIA – Estação conhecimento e do grupo LabMídia, do Departamento de Engenharia do Conhecimento e do Departamento de Metodologia de Ensino da Universidade Federal de Santa Catarina, chega à sua 3ª edição, em uma parceria com o SEBRAE, que realiza conjuntamente a 3ª edição do Seminário ConheCer. Os eventos compõem a programação da Semana da inovação e do empreendedorismo na educação, de 07 a 12 de outubro de 2019, na cidade de Florianópolis – Santa Catarina.

Para maiores informações sobre a programação da Semana e dos eventos, acesse o site http://via.ufsc.br/educacao-fora-da-caixa/

Comitê organizador:

Clarissa Stefani Teixeira – Universidade Federal de Santa Catarina

Cristiane Dall’ Cortivo Lebler – Universidade Federal de Santa Catarina

Ida Luciana Martins Noriler – SEBRAE Santa Catarina

José Eduardo de Lucca – Universidade Federal de Santa Catarina

Juliana Grigoli – SEBRAE Santa Catarina

Luciana Matos Santos Lina – SEBRAE Santa Catarina

Márcio Vieira de Souza – Universidade Federal de Santa Catarina

Mariana Marrara Vitarelli – SEBRAE Santa Catarina

Rayse Kiane – Universidade Federal de Santa Catarina

Rita de Cassia Clark Teodoroski – Centro Universitário Estácio de Santa Catarina

Nem morena, nem mulata

Segundo o IBGE, no Brasil, 7,6% da população se considera de cor preta e 43,1% se considera de cor parda. Entre eufemismos como “moreno”, “mulato” e “cor de jambo”, como delimitar quem é, de fato, negro, mesmo que tenha a pele mais clara?

Original publicado aqui.

A cultura brasileira tem uma forma complexa de lidar com questões raciais. Por causa da miscigenação, as pessoas aceitam como regra o discurso do ser “moreno”, recorrendo a outros eufemismos para adjetivar uma cor de pele que não é branca: cor de bombom, chocolate, cor de jambo, mulato, entre outras variações e apelidos. É difícil se declarar negro – primeiramente, pelo estigma social causado pelo racismo; depois, porque há a percepção de que somente uma pessoa de pele muito escura é realmente negra.

Apesar disso, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), hoje mais de metade da população brasileira se autodeclara como “negra”. Na prática, quer dizer que 7,6% se considera de cor preta e 43,1% se considera de cor parda; lamentavelmente, “pardo” não diz muita coisa sobre consciência política a respeito do racismo ou sobre negritude. Há pessoas loiras e de olhos azuis que se declaram pardas, assim como muitas pessoas de pele escura e cabelo crespo. Como então delimitar quem, de fato, é negro? E como despertar nas pessoas brasileiras o interesse de ir mais a fundo nos debates sobre racismo?

“Descobri que sou negra”

Vanessa Rodrigues (Foto: Arquivo pessoal)
Vanessa Rodrigues (Foto: Arquivo pessoal)

A jornalista Vanessa Rodrigues, a professora Bianca Santana e a militante Ariane Cor são integrantes da ONG feminista Casa de Lua, que promove o Círculo de Mulheres Negras. O que elas três relatam e possuem em comum é também o retrato de muitas outras mulheres negras que passaram por longos processos de autorreflexão e conflito até que se descobrissem e se reconhecessem como negras – e não como “morenas” ou “mulatas”.

Rodrigues inicia seu relato levantando a questão da miscigenação: “Minha mãe tem uma aparência mais indígena, de pele morena e cabelos lisos. Já o meu pai, filho de pai branco e mãe negra, nasceu com a pele mais escura entre os irmãos e, certamente, foi o que mais sofreu racismo”, introduz. “Nasci com pele e cabelos claros. Com isso, fui lida como branca durante a minha infância. Mas acredito que o fato de ter traços negros – nariz, boca, cabelos cacheados – provocava um estranhamento e uma confusão nas pessoas, nos meus pais e parentes, por exemplo”.

Segundo Vanessa, embora a cor da sua pele a embranquecesse, seus traços a enegreciam. “Então, comecei a ser estimulada a frequentar salão de beleza desde muito novinha, pra alisar os cabelos, por exemplo. As pessoas faziam referência ao meu nariz, inventavam apelidos, apertavam com os dedos pra ‘afilá-lo’, sugeriam usar pregador de roupa pra isso”, relata.

No entanto, ao morar fora do Brasil, Rodrigues começou a se enxergar mais como não branca, lembrando-se também de situações racistas – embora não identificasse como tais na ocasião. “Fui seguida em lojas, já tive que abrir bolsa em saída de loja, já fui abordada por seguranças querendo conferir se eu tinha nota sobre o produto comprado, fui mal atendida muitas vezes em lojas caras de shopping center e coisas assim”. Tudo isso só viria como uma questão racial mais tarde, depois de muita leitura e reflexões. “Também quando as pessoas começaram a se referir a mim como morena, quando as pessoas começaram a fazer referência à cor da minha pele pra me descrever e me definir. Isso também acabou ajudando a me ver, a me reconhecer”, acrescenta.

Além disso, os laços familiares de Vanessa foram um ponto forte em sua autoidentificação racial. “O fato de ter uma avó e madrinha negras foi me deixando mais sensível e mais atenta à questão. Sem falar das histórias vividas pelo meu pai, que sempre me machucaram muito ao ouvir, porque sabia o quanto tinham doído nele”, conta.

Em meio ao seu processo de autoidentificação e reconhecimento, Rodrigues teve dois filhos – “dos quais o mais velho tem cor de pele mais escura e é lido como negro” – explica – “E já nos aconteceu de viver uma situação muito agressiva de racismo com ele”. Em seu texto “Eu negra”, publicado no Brasil Post, Vanessa conta que entrou em uma loja de doces com sua família, quando seu filho – vestido como qualquer criança comum de classe média – foi retirado do estabelecimento por um segurança. E naquele momento, por seu filho, o processo de autoidentificação deixou de ser somente sobre ela. “A partir dali, não dava mais pra fingir que não seríamos vítimas de injúria ou atos racistas. Porque se o ‘meu ser-não-ser negra’ tinha me colocado em situações por vezes difusas de preconceito, mas me poupado de ser expulsa dos lugares, não pouparia o meu filho. E todo o meu processo de autoidentificação também passou a ser sobre nós, não apenas sobre mim.”

A professora da Faculdade Cásper Libero (FCL) Bianca Santana também publicou um texto no qual conta seu caminho até a autoidentificação como negra. Sua postagem, intitulada “Quando me descobri negra”, foi escrita quando Santana ainda estava no terceiro ano da faculdade.  “Um professor propôs uma investigação profunda das [minhas] próprias origens. E isso estimulou uma conexão de várias experiências e percepções: da acolhida como professora do cursinho popular Educafro à minha avó falando pra não prender o cabelo de determinada forma porque parecia ‘essas neguinhas’”. Santana relata que se considera negra há alguns anos – antes disso, era morena. “Era morena para as professoras do colégio católico, coleguinhas — que talvez não tomassem tanto sol — e para toda a família que nunca gostou do assunto”, afirma.

Segundo Bianca, tudo começou quando resolveu conhecer a proposta do cursinho comunitário Educafro. “O coordenador pedagógico me explicou a metodologia de ensino com a cumplicidade de quem olha um parente próximo. Quando me ofereci para dar aulas, seus olhos brilharam. Ouvi que, como a maioria dos professores era branca, eu seria uma boa referência para os estudantes negros. Eles veriam em mim, estudante da Universidade de São Paulo e da Faculdade Cásper Líbero, que há espaço para o negro em boas faculdades. Saí sem entender muito bem o que tinha ouvido.”

A partir daí, passou a reparar mais na cor das outras pessoas nos lugares em que frequentava. Como não identificou nada de africano nos costumes de sua família, concluiu que a ascensão social teria clareado sua identidade. “Óbvio que somos negros. Se nossa pele não é tão escura, nossos traços e cabelos revelam nossa etnia. Minha mãe, economista, funcionária de uma grande empresa, foi branqueada como os mulatos, que no século XIX passavam pó-de-arroz no rosto porque os clubes não aceitavam negros”, argumenta, em seu texto.

Já a ativista Ariane Cor conta que seus pais são brancos, de pele e identificação, “mas vindos da Bahia (mãe, que é a famosa sarará: filha de negros com pele clara e cabelo crespo, claro) e norte de Minas Gerais (pai, caboclo, mameluco)”. Ariane cresceu entre bisavós, avós, tios e primos com uma enorme diversidade de pigmentação, estando ela entre os membros mais claros da família. “O que sempre me diferenciou dos outros brancos da família foram os cabelos crespíssimos”, declara.

Cor explica que em sua família, o racismo sempre foi muito naturalizado e todas as manifestações de ancestralidade indígena ou africana foram embranquecidas em São Paulo. “Mas eu cresci na Vila Mariana e depois vivi a adolescência na Mooca, bairros de classe média. Se por um lado não me sentia pertencente àquela negritude da família, também não pertencia à branquitude do cabelo liso e sobrenome ‘diferente’ de pessoas nascidas no centro.”

Bianca Santana (Foto: Arquivo pessoal)
Bianca Santana (Foto: Arquivo pessoal)

Sobre situações de racismo, Ariane relata que tem uma “irmã de criação” – que é sua prima, mas criada por seus pais – que sempre foi sua grande parceira e melhor amiga. “Na primeira série, lembro que esqueci o lanche em casa e ela, que é sete anos mais velha, foi levar pra mim na escola pública onde eu estudava”. Sua irmã, que tem a pele escura, foi anunciada como sua empregada na sala de aula. “Isso me constrangeu de uma maneira absurda, porque minha mãe é empregada doméstica e eu não entendia como poderiam supor que minha irmã, com uns 15 anos, seria minha empregada”, relembra.

Em 2002, sua irmã teve um filho, do qual Ariane se tornou madrinha – o que a levou a um engajamento político mais sério. “Desde que esse menino nasceu eu estive muito dedicada a compreender o que é ser negro no Brasil e vivo isso com ele por onde passamos”, diz.

Até então, Cor não se identificava como negra, apesar de não se achar branca. “Submetia meus cabelos a procedimentos domadores e coloria de vermelho. Aí, meu marido – branco, de família italiana, mas umbandista – começou a questionar minha identidade racial, propositalmente, porque ele, branco, não me via como branca. Foi aí que eu tive a ‘epifania da negritude’ e percebi o quanto havia sido embranquecida e negava minhas origens africanas. O quanto eu considerava a minha negritude feia e me achava incapaz de subverter esse olhar”. A partir de então, abandonou os tratamentos capilares e passou a pesquisar sobre cabelos crespos e estética negra. “Me aprofundei nas questões de periferia, porque esses caminhos se cruzam bem no começo.”

O racismo cotidiano

Os exemplos acima, repletos de referências a características físicas, revelam uma verdade incômoda: mesmo com a pele clara e encarando tentativas de deslegitimação da identidade negra, o racismo se mantém presente. Muitas pessoas simplesmente não aceitam a autoidentificação negra e agem de forma debochosa e discriminatória com relação às características físicas percebidas como negras – como por exemplo, cabelos crespos ou narizes mais largos.

De fato, muita gente pode dizer que mulheres como Rodrigues, Santana e Cor não são negras, mas sim “morenas” ou “pardas”; porém, no dia a dia, dentro das lojas, no banco ou mesmo na rua, o racismo se revela por meio do reconhecimento de que aquela pessoa não é branca ou “se assemelha” a uma pessoa negra – condição esta que, por sua vez, é associada à pobreza, ou relacionada com atos criminosos.

Rodrigues relembra: “Vivi situações ao longo da vida que somente hoje consigo identificar como racistas. Situações mais agressivas, como vasculhar bolsa ou ser seguida, tenho a impressão de já não viver há algum tempo. Mas consigo identificar e interpretar como racistas aquelas mais sutis, relacionadas ao cabelo (cada vez mais assumidamente natural) ou a um não saber como me classificar socialmente, por exemplo. E acontece, invariavelmente, de técnicos de serviços ou entregadores terem dúvidas se sou a ‘dona da casa’ ou a ‘empregada’”.

Vanessa também conta que já foi abordada por duas vezes por um “comediante” que faz performances em uma praça. “Ele se ‘fantasia’ de mulher negra e gorda e por duas vezes me abordou se referindo a mim como sua ‘irmã gêmea’. Isso me parece altamente agressivo e preconceituoso, racista e gordofóbico (além de transfóbico). Na segunda abordagem, reagi de um jeito mais ostensivo, acabamos numa discussão quando ele, finalmente, me chamou de feia!”.

As experiências de Bianca Santana com o racismo não são muito diferentes. Em sua publicação “Nem todo lugar é lugar de preto”, no Brasil Post, ela cita alguns exemplos de situações em que foi alvo de racismo: “Na porta de um café, esperando uma amiga sair do banheiro. Três pessoas me fizeram pedidos de forma rude, em menos de cinco minutos. Com a resposta ‘eu não trabalho aqui’ e um sorriso desconcertante ninguém sabe onde enfiar a cara! Porque a pessoa entende o que aconteceu; Abrindo o arquivo com uma apresentação, no auditório de uma universidade pública, alguém me pergunta onde estava uma outra pessoa, imagino que funcionária da universidade. Eu respondo que não sei, que não trabalho lá. E a pessoa se assusta, perguntando, em tom de bronca, por que estou mexendo no computador. Eu respondo que vou fazer uma apresentação em alguns minutos. A pessoa desmonta, olha o folder do evento e solta um: ‘Ah! Você é a Bianca Santana!’; No parque, com meu bebê de olho claro no sling: ‘Sua patroa deixa você carregar ele assim?’.”

Ariane Cor cita situações que envolvem muito a questão do cabelo crespo, assunto profundamente familiar e comum às mulheres negras: “Há cinco anos abandonei os procedimentos químicos capilares e uso meus cabelos como eles são. Elementos de cultura negra como turbantes, estampas e acessórios também estão presentes na minha imagem sempre e eu chamo muita atenção por onde passo, quando não é um ambiente ‘descoladinho’. Isso não é ruim, necessariamente. Eu só acho desagradável quando elogiam minha coragem ou me acham exótica”.

Além disso, Cor relata que, quando abre o portão de sua casa térrea, a confundem com empregada doméstica e pedem para chamar a patroa – e que em lojas mais caras, demoram para atendê-la. “Uma vez, no ponto de ônibus, uma senhora enfurecida com a demora reclamou que a culpa era desses ’baianos que vinham pra cá fazer filho’ e apontou pra mim. Falei várias bobagens para a senhora, parei um táxi e fui embora”. Ariane também diz já ter sido questionada por uma garçonete se realmente gostava do seu cabelo armado, e se achava bonito.

Reconhecimento

Ariane Cor (Foto: Arquivo pessoal)
Ariane Cor (Foto: Arquivo pessoal)

Depoimentos pessoais são extremamente importantes e falam diretamente com quem os lê ou escuta. Em muitas dessas falas, algo remexe e traz à memória situações semelhantes, casos que geraram sofrimento e que muitas vezes não foram bem compreendidos no momento em que aconteceram, mas que com a ajuda de outra pessoa em posição similar chegam à tona sem máscaras, revelados como verdadeiramente são. Assim, muitas pessoas acabam constatando que sofreram racismo e que por muitos anos se negaram a viver e abraçar uma parte importante de sua subjetividade e identidade: a ancestralidade negra e sua amplitude no presente, incluindo o potencial transformador de uma autoimagem positiva e a chance de romper paradigmas nocivos.

Debater o racismo e a identificação racial no Brasil ainda é difícil e tem o peso do silenciamento. É preciso muita coragem para olhar para o passado e buscar respostas – e ainda mais para se permitir enxergar-se negro, não como lamentação introjetada por todas as mensagens depreciativas disseminadas na sociedade, mas como força pessoal e política que gera mudanças significativas.

É possível que alguns pontos dos relatos presentes nesse texto sejam, não por acaso, pontos importantes nos relatos de muitas pessoas que os leem. Que identidades possam, então, ser reconhecidas e reconstruídas em plenitude.

Evento: Missão Acadêmico Empresarial à Nova Zelândia da ASL

Ocorrerá no dia 13 de Agosto, às 19h, o evento oficial de lançamento da Missão Acadêmico Empresarial  à Nova Zelândia junto  a sede da Associação Software Livre.Org, apoiadora oficial da missão, a qual tem opções partindo Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, São Paulo – Guarulhos, Rio de Janeiro – Galeão e Brasília com destino a Auckland, Nova Zelândia.

A missão terá foco em inovação e será realizada entre os dias 11 a 20 de Outubro de 2019.

As inscrições para o evento de lançamento são gratuitas. 

lançamento será realizado no na sala 101 – Auditório Bill Hewlett – David Packard P.97A, do Tecnopuc, Av. Ipiranga 6681, Bairro Partenon, Porto Alegre-RS.

A Missão é chancelada oficialmente pela Embaixada Brasileira na Nova Zelândia e pela Massey University, a melhor escola de negócios da Nova Zelândia, e uma das melhores do mundo. A Missão também é apoiada pelo Conselho Regional de Administração do Rio Grande do Sul.

O objetivo da Missão é explorar o ecossistema de inovação e startups, empreendedorismo, desenvolvimento de relacionamento com entidades empresariais e acadêmicas, envolvendo ainda palestras sobre gestão pública do governo da Nova Zelândia, bem como comércio e cultura local.

As inscrições podem ser realizadas aqui  ou pelo endereço: abre.ai/missaonz