“Porque se sujar faz bem!”: pensando e espantando os monstros da sujeira da Educação Infantil

“A vida é maravilhosa se não se tem medo dela”.
Charles Chaplin.

O famoso slogan da marca de sabão em pó OMO “Porque se sujar faz bem!”  me fez refletir sobre os modos de constituição das infâncias contemporâneas e sobre o meu desafio enquanto docente de contribuir para que o direito à expressão, à curiosidade, imaginação das crianças que é potencializado quando as incentivamos a se expressarem através da linguagem dos desenhos, pinturas, colagens, exploração de argila, massas, melecas, etc., (BRASIL, 2009) seja garantido nas instituições de Educação Infantil onde posso vir a atuar no futuro.

A partir das vivências adquiridas durante meu estágio obrigatório constatei que para a garantia deste direito fundamental das crianças que passam horas do seu dia na creche, se faz necessário muita disposição para enfrentar alguns atravessamentos e desafios surgem ao se propor romper com a lógica da escolarização que vem permeando os espaços da educação infantil – um desses desafios são as restrições impostas a expressividade infantil por parte de familiares de algumas crianças, professores e outros profissionais que atuam na educação infantil baseadas no medo da “sujeira”, “das bactérias” e dos “inúmeros perigos” e até “danos e males” que certas propostas na opinião destes podem causar as crianças. Serão sobre tais “medos” e os esforços para compreendê-los a partir dos estudos sobre as infâncias contemporâneas que este texto terá como foco de discussão.

1. Quando os monstros saem do armário …

As inquietações que levaram a produção deste texto são oriundas de reflexões durante o meu Estágio de Docência Obrigatório – 0 a 3 anos, realizado em turma de Maternal (dois e três anos), em uma instituição pública, composta por 17 crianças e três professoras que atuam em docência compartilhada.

Minha proposta de ação pedagógica naquele espaço teve como propósito o de proporcionar para o grupo de crianças e adultos uma diversidade de experiências sensoriais, a partir da exploração de diferentes materiais do cotidiano, propondo uma educação sensível (DUARTE JR., 2004) a partir das linguagens (sensoriais, corporais e estéticas) buscando tornar o espaço da creche mais criativo, inventivo, lúdico, aberto à imaginação e a autoria das crianças e adultos.

A partir destas intencionalidades minhas as ações pedagógicas naquele espaço vem propondo caminhos e possibilidades para as crianças aprenderem sobre o que há no mundo a partir de suas sensoriedades privilegiando os materiais de uso comuns em nosso cotidiano. Entretanto, o contato das crianças com diferentes materiais (texturas, sons, sabores, cheiros, etc.,) tem despertado alguns “medos” presentes em algumas famílias e em alguns educadores – especialmente o “monstro da sujeira” decorrente do contato das crianças com tintas, melecas, etc.

Não querendo transformar tais familiares/educadores/demais profissionais que atuam nas creches em vilões nesta reflexão apontarei que tais medos são reflexo de toda uma cultura produzida para determinadas infâncias que cada vez mais restringe e limita os espaços e os materiais disponíveis para as crianças conhecerem e ampliarem seus repertórios – o que sem dúvida é um grande desafio para nós docentes comprometidos na garantia do direito que as crianças possuem à expressividade e a descoberta do mundo e das coisas que existe nele.

2. Pensando sobre as crianças, infâncias, as culturas para as infâncias e os “monstros contemporâneos”

Quem são as crianças que compõem o grupo ao qual minhas propostas estão sendo dirigidas? Como estas vivem as suas infâncias? Que relações se estabelecem entre tais infâncias e as inquietações por mim pontuadas? Para pensar sobre as infâncias e crianças é preciso conceituá-las a partir de alguns referenciais.

A partir das contribuições dos estudos da Pós-Modernidade, marcos da nossa contemporaneidade, compreende-se a infância como uma categoria construída social e historicamente, sendo sempre contextualizada e relação ao tempo, ao local e à cultura, variando segundo a classe, o gênero e outras condições socioeconômicas. Sendo assim, não há uma infância natural nem universal, nem uma criança natural ou universal, mas muitas infâncias e muitas crianças.

Em tais estudos considera-se que as crianças precisam ser olhadas não apenas na sua aparente unidade, mas também na sua diversidade, pois as crianças não formam um conjunto social cujo principal atributo é o de ser constituído por indivíduos pertencentes a certa fase da vida, mas formam também como conjunto social com atributos sociais/culturais que as diferenciam os adultos.

Para Sarmento (2003), as novas concepções de infância e de criança apontam para a aceitação de uma multiplicidade e um devir que não se fecha em si mesmo. Este autor defende que todas as crianças possuem modos diferenciados, face aos adultos, de interpretação do mundo e de simbolização do real. São esses modos que constituem o que ele chama de “culturas da infância” (SARMENTO, 2003, p.6).

De acordo com Sarmento (2003) em se tratando destas culturas, uma universalização precisa ser considerada – aquela que ultrapassa os limites da cultura local de cada criança, pois a oferta de um mercado de produtos culturais para a infância colabora para a globalização da infância, onde, “aparentemente, há uma só infância no espaço mundial, com todas as crianças partilhando os mesmos artefatos, gostos e espaços” (Sarmento, 2003, p. 6).

A expressão de tal cultura criada/pensada/digirida/vendida para as infâncias em nosso cotidiano pode ser percebida a partir dos: CD’s, DVD’s, brinquedos, literatura, roupas, sapatos, bonés, cadernos, estojos, mochilas, produtos de higiene pessoal, etc., e demais artefatos trazidos pelas crianças à creche. É possível ainda ver a expressão da cultura para as crianças fortemente presente nos repertórios musicais, imaginários e também nos espaços que estas frequentam em seu cotidiano: os shoppings centers, as viagens internacionais, os restaurantes, os apartamentos apertados, os bancos dos automóveis, as festinhas de aniversário feitas por empresas, etc.

Uma característica da cultura criada para as crianças é a sua uniformidade e homogeneidade, que encontramos por exemplo nos brinquedos – mesmas cores, mesmas texturas e materiais (predominância de petróleo), ausência de cheiros, a ênfase no digital (pintura/desenho na tela do tablet), a restrição dos espaços do brincar (os cercadinhos, os tapetinhos, o gramado sintético, etc), a ausência de diversidade de raça (bonecos e bonecas negras, indígenas, ruivas, asiáticas, etc), de gênero, de corpos (gordos, com tatuagem, carecas, com algum tipo de deficiência, etc.) e idade (bebês, crianças, jovens, adultos e idosos), além dos brinquedos que delimitam papéis de gênero – a boneca barbie que é mãe e, cuida da casa e o boneco super herói que salva o mundo do mal e vive intensas aventuras, dentre outros.

O discurso que legitima a homogeneidade dos artefatos criados para as crianças é o da praticidade e da economia – não sujam a roupa e nem o corpo, não emitem cheiros, não exigem atenção dos adultos quando as crianças estão manipulando, são duráveis e difíceis de quebrar (o que significa economia) ou seja, “é comprar e largar para as crianças, pois tudo está tranquilo”. Isso pode explicar o estranhamento que alguns adultos sentem ao imaginar as crianças em contato com materiais “diferentes”, que sujam, que necessitam de uma certa atenção e que podem ser destruídos, transformados e re(in)ventados pelas crianças, ou seja, que permitem as culturas produzidas pelas crianças.

3.  Espantando os monstros: “Se sujar é bom e faz bem!”

Ao propor trabalhar com as sensibilidades favorecendo a expressividade das crianças nas múltiplas linguagens ao longo do estágio já previa os desafios que poderia enfrentar. Ter clareza quanto às minhas intencionalidades e ter um embasamento teórico para fundamentar as ações por mim propostas para o grupo tem se mostrado o caminho mais adequado a seguir ao longo do estágio.

Para Duarte Jr., (1994, p. 112) é preciso compreender que a atividade artística da criança apresenta o sentido de organização de suas experiências, ou seja, é a partir processo e do sentimento que a criança demonstra seja na exploração dos materiais, ou no desenho e pintura que esta seleciona os aspectos da sua experiência que ela vê como importantes, articulando-os e integrando-os num todo significativo. Para este autor para a criança:

“a arte é mais do que um passatempo; é uma comunicação significativa consigo mesma, é a seleção daqueles aspectos do seu meio com que ela se identifica, e a organização desses aspectos em um novo e significativo todo. A arte é importante para a criança. É importante para os seus processos de pensamento, para seu desenvolvimento perceptual e emocional, para sua crescente conscientização social e para seu desenvolvimento criador”. (DUARTE JR., 1994, p.112)

Para promover tais encontros das crianças com as suas experiências venho ao longo do estágio oferecendo uma diversidade de possibilidades a partir de elementos do cotidiano para que as crianças experimentem e sintam as propriedades de tais elementos, brinquem, rasguem, destruam, transformem, sintam prazer e claro, se sujem e sujem o espaço! E não há nenhum monstro nisto, apenas é o processo da criança, o seu pensamento, suas percepções e reações ao ambiente e a curiosidade em conhecer o mundo e as coisas “diferentes” que nele há e que estão disponíveis para elas.

Para CUNHA et al. (2014, p. 34) há nas crianças (especialmente nas da faixa etária do grupo em que atuo) um desejo muito grande de exploração dos materiais. De acordo com a autora é uma fase em que tudo vira meleca, em que a mão desliza nas superfícies convencionais, nas roupas e no seu corpo, no corpo dos colegas, etc. As crianças podem simplesmente desejar provar os materiais, jogar no chão, passar em seus cabelos, rasgar, furar, lamber, etc,. e o que para muitos educadores/adultos pode parecer uma cena de filme de terror, para a maioria das crianças é um momento único e mágico e ainda de muito aprendizado que não pode ser aferido.

MELECANDO: Quanto apresentei para as crianças uma bacia transparente com amido de milho e água, elas ficaram completamente confusas, pois não conseguiam imaginar o que era aquilo branco naquele balde. Quando coloquei as minhas mãos e apertei aquele material “duro” mas que se dissolvia nas minhas mãos em seguida, pude notar a expressão de admiração e surpresa estampada nos olhos das crianças. Elas queriam entender como era possível algo ser duro e mole ao mesmo tempo. Descobriram experimentando!

MELECADOS: As crianças ficaram impressionadas quando viram toda aquela quantidade de massa de modelar caseira disponível, pois conheciam apenas as do tipo industriais geralmente de caixinha. Elas me perguntavam se era a massa era de comer, eu respondia que era possível experimentar e quanto provavam as crianças comentavam sobre como era salgada (a receita incluía uma quantidade significativa de sal), comentavam sobre como a massa era geladinha e a colocava em várias partes dos seus corpos, para senti-la melhor.

PINTANDO EM QUALQUER LUGAR E COM O CORPO TODO JUNTO E MISTURADO: Além do espaço da sala tentei explorar outros espaços da creche – como os pátios, corredores e salas de multi-atividades para propor a exploração de materiais diversos. Para as crianças pintar no chão usando os pés, as mãos e todo o corpo junto e misturado a partir das linguagens expressivas permitem as crianças simbolizarem suas sensações e sentimentos por meio de jogos construtivos sobre a matéria (CUNHA et. al, 2014, p. 59).

Para a autora tal transformação construtiva, que é em si um ato estético, pois é essencialmente lúdico e poético ao envolver o prazer da sensorialidade e ao mesmo tempo em que a criança vai descobrindo o mundo exterior (cores, texturas, superfícies, etc) e nele exerce ações, sua imaginação se desenvolve, faz descobertas, realiza invenções, vivencia conflitos e passa a conhecer mais sobre as suas possibilidades e ação e também seus limites.

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Resolução CEB n. 05, 17 dez. 2009. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Diário Oficial República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 18 dez. 2009a. Seção 1, p. 18.

DUARTE JR, João Francisco. Fundamentos estéticos da educação. 3.ed. Campinas: Editora Papirus, 1994.

________________________. O sentido dos sentidos: a educação (do) sensível. 2.ed. Curitiba: Criar, 2004.

CUNHA, Susana Rangel Vieira da (Org.). As artes no universo infantil. 3.ed. Porto Alegre: Editora Mediação, 2014.

SARMENTO, Manuel Jacinto. As culturas da infância nas encruzilhadas da 2ª modernidade. Braga: Instituto de Estudos da Criança, Universidade do Minho, 2003. (texto digitado).

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