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Artigo: “Aluno não é robô”: os desafios e as perspectivas para uma Educação a Distância mais humanizadora no Ensino Superior

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Por Rafaela da Silva Melo

Resumo: Este breve ensaio tem objetivo oferecer mais subsídios que venham evidenciar a necessidade de uma reformulação das concepções e práticas pedagógicas existentes na Educação a Distância no Ensino Superior. Destaco as contribuições de Paulo Freire, Jean Piaget e Juan Delval, além de estabelecer diálogos com minha experiência enquanto discente em disciplinas na modalidade EaD. Neste ensaio analiso as concepções e práticas pedagógicas que permeiam a organização desta modalidade e constato a necessidade de superação de uma concepção de educação bancária na educação a distância.

Palavras-chave: Educação a Distância; Aprendizagem; Autonomia discente.

INTRODUÇÃO

A Educação a Distância é uma modalidade de educação em que professores e alunos estão separados no tempo, no espaço geográfico e entre si, ou seja, eles não estão presentes no mesmo lugar, como na sala de aula comum. Na Educação a Distância compreende-se que o ensino e a aprendizagem não devem ocorrer apenas na sala de aula, mas em diferentes espaços e tempos.

Utilizado na história da nossa escolarização como um recurso fundamental para medir a aprendizagem em função do movimento do relógio, o tempo também é uma convenção social, construída em nossa cultura e que portanto, pode ser ressignificado. Muitos projetos de EaD baseiam-se no conceito de tempo cronológico que é tradicionalmente utilizado nas atividades presenciais, que envolvem modelos de cursos, das disciplinas, os currículos, a ideia de hora-aula, prazos para entrega de trabalhos, a avaliação e outros. Já na concepção de tempo virtual (ou tempo relativo), que surge no campo da educação a partir da popularização das Tecnologias de Informação e Comunicação, pode ser ressignificado, conduzido e construído pelos sujeitos da EaD, alunos e professores podem aprender onde e quando quiserem e puderem, ou seja, de acordo com o seu tempo e a disponibilidade (Maia; Mattar, 2007).

Sendo assim, a constatação de uma nova categoria de tempo – o virtual tão presente nos pressupostos da Educação a Distância, apresenta novos desafios que venham a garantir a qualidade desta modalidade, tal como a necessidade do respeito aos diferentes tempos de aprendizagem de cada aluno, o aperfeiçoamento da comunicação assíncrona (não há sentido em insistir que todos devem estar presentes no mesmo tempo cronológico, quando a EaD possibilita a comunicação deferida), uma consequentemente mudança nos papeis de professor, aluno, nas concepções de ensino e aprendizagem, nas metodologias e no modo de conceber o conhecimento. A modalidade EaD também tem como principal desafio a democratização do acesso a educação, com qualidade, para aqueles que por razões diversas não possuem.

Apesar da Educação a Distância ser nova na legislação e nas discussões educacionais a origem desta modalidade de ensino e aprendizagem se encontram nos cursos por correspondência, que tiveram início no final do século XVIII e atingiram seu desenvolvimento no século seguinte. Neste período, a “grande invenção tecnológica” foi o sistema de correios, através do qual os protagonistas enviavam materiais (livros, apostilhas, cartas) para o desenvolvimento de seus cursos. (Bastos, Cardoso e Sabbatini, 2000). Do início do século XX até a Segunda Guerra Mundial, realizaram-se diversas experiências visando a melhoria das metodologias aplicadas ao ensino porcorrespondência, influenciados pelos meios de comunicação de massa, principalmente o rádio, com a utilização dos multimeios, desde impressos, televisão e Internet.

A Educação a Distância atualmente uma das modalidades em que mais se empregam recursos, sendo muito utilizada em programas de governo de formação de professores ou capacitação dos recursos humanos, nos cursos livres, nas videoaulas (muito crescente nos canais do YouTube) e principalmente no Ensino Superior, como apoio a cursos presenciais, em disciplinas totalmente em EAD e também são oferecidos cursos de graduação e pós-graduação nesta modalidade.

2. CONCEPÇÕES E PRÁTICAS PEDAGÓGICAS NA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA

Com a expansão da modalidade EAD nas instituições de ensino superior, especialmente nos cursos de formação de professores, surgem alguns desafios e questões no que diz respeito as diferentes concepções e práticas pedagógicas que vem sendo utilizadas nesta modalidade, afinal, com o surgimento das novas mídias interativas como ferramentas de apoio ao ensino e na aprendizagem, é preciso pensar no ato de aprender, de ensinar e de construir o conhecimento, como destaca o autor abaixo:

É preciso, porém, muita clareza sobre as condições de ter a EAD como alternativa de democratização do ensino. As questões educacionais não se resolvem pela simples aplicação técnica e burocrática de um sofisticado sistema de comunicação, num processo de “modernização cosmética”. Isso a ninguém serve, exceto aos “empreendedores espertalhões com suas escolas caça-níqueis” ou governos mal-intencionados. Sob o ponto de vista social, a Educação à Distância, como qualquer modalidade de educação, precisa realizar-se como uma prática social significativa e consequente em relação aos princípios filosóficos de qualquer projeto pedagógico: a busca da autonomia, o respeito à liberdade e à razão. (FERREIRA, 2000, p. 09).

Não há dúvidas que a EAD possibilita a concretização do processo ensino-aprendizagem independente do contexto geográfico em que o aluno se encontra promovendo uma democratização do acesso ao conhecimento, principalmente a partir da ampliação do acesso as tecnologias de informação e comunicação. Entretanto, como veremos a seguir, existe atualmente uma diversidade de concepções e práticas pedagógicas que circulam nas instituições que nem sempre utilizam todo o potencial inovador presentes na imensa variedade de tecnologias digitais na construção da aprendizagem pelos alunos.

De um modo geral ao analisarmos os modelos de cursos, disciplinas e ambientes para a EAD existentes é possível constatar desde as concepções nas quais a interatividade não existe, em que se prevalece a inflexibilidade dos programas, cursos planejados sem a participação dos educandos e os conteúdos sistematizados e fragmentados por um único professor que atua como mero transmissor do conteúdo para a versão virtual/digital desconsiderando a realidade e interesse dos alunos. Superar uma concepção de educação bancária, em que o professor deposita o conteúdo nos educandos, se apresenta atualmente como um dos principais desafios desta modalidade, que embora tenha a palavra “distância” em seu nome, esta deve se referir apenas a distância espaço-temporal e não na relação entre professores e alunos.

É possível também perceber (embora em menor número em comparação com o anterior), algumas propostas para a educação a distância, em que o potencial interativo promovido pelas atuais ferramentas são muito bem aproveitadas propiciando uma relação mais interativa e colaborativa, tendo os alunos como sujeitos do seu próprio processo de aprendizagem (LUZ, 2005). Nessa concepção a autonomia se faz presente e o ambiente é rico em diversidade, possibilitando uma construção conjunta dos alunos e professores. Exemplos dessas concepções serão tratados nas próximas sessões.

2.1 Abordagem Behavorista: O aluno como um robô, programado para responder e executar tarefas

Neste tipo de abordagem acredita-se que os comportamentos complexos podem ser interpretados a partir de conceitos e princípios simples, e que a aprendizagem é um processo pelo qual o comportamento é modificado como resultado da experiência, ou seja, mecanicamente determinada por estímulos externos.

Para Delval (2007) em muitas instituições escolares (e aqui também se incluí aquelas que fornecem cursos/disciplinas/projetos em EAD) acredita-se que o conhecimento deve ser transmitido, em vez de construído. Sendo assim, o professor tem como função planejar, arranjar e controlar a aprendizagem para um maior desempenho, sendo ele e os textos a fonte de informação. Ao aluno cabe adquirir os comportamentos desejáveis, fazendo os ajustes necessários.

De acordo com essa concepção, a atividade educativa consistiria em transmitir conhecimentos ao aluno, que os aprenderia e ficaria marcado por eles. A maior parte dos indivíduos seria formada por consumidores de conhecimentos e apenas alguns os fabricariam ou produziriam (Delval, 2007, p.116).

A aprendizagem, por sua vez, pautada nesta abordagem, reduz-se a assimilar, memorizar, copiar e imitar modelos daquilo que é ensinado. Nos modelos de EAD baseados nesta abordagem, os alunos necessitam realizar uma série de atividades avaliativas sequencialmente. O aluno estuda de forma linear, com conteúdos e atividades pré-determinadas, com um tempo determinado e limitado, e ainda sob o controle de um sistema que apresenta a pontuação alcançada. Como formas da utilização desta teoria em cursos de educação a distância (HACK, 1999), tem-se:

  • estabelecimento de objetivos de aprendizagem em termos mensuráveis;
  • avaliação do aluno, é feita somente através de testes, ignorando o processo de aprendizagem;
  • ênfase dada ao planejamento das experiências de aprendizagem;
  • aluno mantido passivo, como mero receptor do conteúdo;
  • apresentação do conteúdo em pequenas doses de informação, devendo ser realizados exercícios logo em seguida;
  • feedback imediato de questões e provas.

Uma das razões pela qual os modelos behavioristas são comuns na prática da EaD, é que eles são parecidos com as aulas presenciais do modelo tradicional: o professor, geralmente, tem um conjunto de objetivos da aula que vai ministrar; dá uma aula expositiva; usa exemplos, proporciona oportunidades para a prática e testa a compreensão dos alunos em torno do conhecimento que lhe foi apresentado.

A avaliação da aprendizagem nesta concepção está voltada aos aspectos mensuráveis e observáveis do comportamento (se o aluno realizou as tarefas, acessou a plataforma, comentou em algum fórum, realizou uma postagem obrigatória em algum blog). Geralmente a avaliação da aprendizagem neste modo é feita através do acúmulo de pontuação, desconsiderando todo o processo de aprendizagem. O papel da avaliação na aprendizagem supervaloriza o acerto (a incidência de erro deve ser igual a zero). A avaliação deve ser feita por itens, para que haja controle do estímulo-resposta. A teoria comportamentalista, ainda tem as seguintes considerações sobre a avaliação do aluno (HACK, 1999):

  • o escopo da avaliação deve ser discreto, com habilidades isoladas;
  • como forma de avaliação tem-se os testes objetivos e com respostas curtas;
  • a avaliação é individual;
  • nos cursos a distância a maioria das questões são objetivas e o sistema fornece os escores de acertos e erros.

Nesta abordagem há um distanciamento na relação entre professores e alunos e entre os alunos entre si. Além da ausência de respeito ao tempo de aprendizagem dos alunos, nos levando a refletir sobre a necessidade de “humanização” nesta modalidade. A partir do pensamento freireano entende-se que a educação para a humanização significa pensar e agir fundamentando-se em princípios éticos, de respeito ao ser humano em sua inteireza. Para Freire a vida humana só tem sentido a partir da busca incessante da libertação de tudo aquilo que nos desumaniza e nos proíbe de ser mais humanos, dignos e livres em nosso ser existencialmente situado.

2.2 Abordagens Construtivistas: O aluno como construtor do conhecimento

Numa abordagem construtivista, se concebe a função do professor como a de criar situações favorecedoras de aprendizagem, a construção do conhecimento pelos alunos é fruto de sua ação, o que faz com que eles se tornem cada vez mais autônomos intelectualmente. Sendo assim, a concepção de conhecimento tem outro significado, pois este não é tomado como pronto ou acabado, mas como estando sempre em construção (Delval, 2007).

A partir da teoria de Jean Piaget, entende-se o conhecimento como algo que se constrói na interação entre sujeito e objeto, resultante das sucessivas transformações de esquemas (formas de pensar ou resolver problemas). Essas elaborações resultam de um processo de equilibrações majorantes que corrigem e completam as formas anteriores de desequilíbrio. É na interação sujeito-objeto e pelo processo de equilibração majorante – auto-regulação – que o sujeito constrói conhecimento. (Delval, 2007).

Essa interação implica, do ponto de vista do sujeito, em poder assimilar o objeto aos seus esquemas, entendendo-se por esquema uma forma de agir, que se conserva ou se enriquece pelo próprio processo de equilibração.Da mesma forma que o sujeito incorpora o objeto aos seus esquemas, estes se ajustam às características do objeto, isto é, modificam-se, transformam-se. Esse processo só é desencadeado quando há a presença de um desequilíbrio, de uma perturbação – de um conflito cognitivo. É na busca da reequilibração que se avança no processo de construção do conhecimento.

Para a teoria construtivista, o aluno é o sujeito do processo e deve participar ativamente do próprio aprendizado, mediante a experimentação, a pesquisa em grupo, o estímulo à dúvida, o desenvolvimento do raciocínio, a revisão dos seus pensamentos e a apresentação da melhor solução que puderem encontrar.

Nesta abordagem, se concebe a função do professor como a de criar situações favorecedoras de aprendizagem, a construção do conhecimento pelos alunos é fruto de sua ação, o que faz com que eles se tornem cada vez mais autônomos intelectualmente. Tendo como ponto de partida a sua realidade, ele deve construir do conhecimento, considerando as mudanças das suas estruturas cognitivas, afetivas e psicomotoras. (Delval, 2007).

Ao saber como se organiza a aprendizagem na estrutura cognitiva, o aluno capacita-se a aprender como se aprende. Exemplos de propostas pedagógicas em EAD onde está concepção está presente, são nas plataformas de escrita coletiva (wikis, pbworks, redes sociais, blogs e outras).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir das formulações elaboradas com base nos estudos dos textos e nas discussões, constata-se uma necessidade de um repensar a educação a distância, a partir de uma perspectiva de humanização, levando em conta e considerando os diferentes ritmos e tempos de aprendizagem dos sujeitos, concebendo o conhecimento como algo a ser construído por alunos e professores, repensando a avaliação de aprendizagem e a organização dos currículos visando a superação da fragmentação do conhecimento e o reconhecimento da multiciplidade dos tempos e dos espaços para aprender e ensinar.

REFERÊNCIAS

BASTOS, C. CARDOSO D. e SABBATINI M. Uma visão geral da educação à distância. 2000. Disponível em http://www.edumed.net/cursos/edu002. Acesso 23 de outubro de 2013.

DELVAL, Juan. Aprender investigando (tradução de Fernando Becker e Tania B. I. Marques). In BECKER, Fernando; MARQUES, Tania Beatriz Iwaszko. Ser professor é ser pesquisador. Porto Alegre: Mediação, 2007.

FERREIRA, Ruy. A Internet como ambiente da Educação à Distância na Formação Continuada de Professores. Universidade Federal do Mato Grosso. Dissertação de Mestrado: Cuiabá, 2000. Disponível em:http://cev.ucb.br/qq/ruy_ferreira/tese.htm Acesso em 22 de outubro de 2013.

HACK, Luciano Emilio. Mecanismos complementares para a avaliação do aluno na educação a distância. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 1999. Disponível em:http://www.pgie.ufrgs.br/webfolioead/biblioteca/artigo7/artigo7.html Acesso em 21 de outubro de 2013.

LUZ, Elisa Flemming. Estratégias pedagógicas. Palhoça: Unisul, 2005.

MAIA, Carmem; MATTAR, João. ABC da Ead: a educação a distância hoje. São Paulo: Perarson Prentice Hall, 2007.

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Ensaio elaborado para a disciplina de EDU 01021 – Psicologia da Educação: Aprendizagem.

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