Dia do Livro Infantil: 18 de abril

Para comemorar o dia do livro infantil reli trechos de um livro indicado durante a disciplina de Literatura Infantil com a professora Rosa Maria Hessel Silveira extraído de um texto de Rebecca Lukens: A Teia de Charlotte (no original Charlotte’s web), que muito me marcou, pois o “destino” da gentil, amável, leal e doce aranha não ficou muito claro para os leitores da obra tanto no original quanto na produção cinematográfica.

Na literatura infantil é comum “suavizarmos” temas mais delicados e profundos, o que é uma questão polêmica entre os especialistas em educação infantil, já que as crianças precisam ter diferentes experiências com os livros, dentre estas, poder sentir a dor da perda de um personagem tão querido (quando isto acontece). Pra ser bem sincera, o que mais gostei no livro, além da amizade desenvolvida entre duas espécies tão diferentes como uma aranha e um lindo porquinho, foi da representação de uma espécie que comumente aparece nos livros como um ser “asqueroso”, “venenoso” e “horripilante”, como sendo boa. Por outro lado a tamanha devoção da aranha pelo lindo porquinho demonstrado em forma de apoio incondicional deixa algumas marcas que me faz pensar sobre o sentido da generosidade. Eu me percebo como alguém que muitas vezes foi tão gentil e aberta com tantas diferentes pessoas e que nem sempre fui correspondida a altura. Na maioria vezes recebi milhões de espinhos e muito desprezo e com isso aprendi muito sobre mim mesma e fui até ficando mais individualista, fria e insensível para muitas coisas que aconteciam em minha volta.

Apesar disso, esse trecho abaixo é muito emocionante para mim, pois mostra uma capacidade importante dos seres humanos: a de dar por apenas querer dar e em troca receber apenas a amizade ou qualquer mínima relação de afeto, mesmo que isso gere desconfiança. 

Alguém já se sentiu nesta situação? Eu sim, muito recentemente. 

Eu confesso ter medo de aranhas assim como de baratas e escorpiões, mas uma aranha tão simpática e que de tão amorosa foi chamada de “joy” (que quer dizer alegre e feliz) eu definitivamente não esperava ver algo assim, ponto para o livro que fez uma enorme diferença em minha vida. Embora a história se apresente no Brasil como a relação entre a menina e o porquinho, levando a uma interpretação de que a menina não é um dos personagens centrais da história, como argumentado por  Rebecca Lukens, mas sim a própria aranha (em minha opinião).

A menina se destaca de modo expressivo quando no médico registra-se o seguinte fato: “ela acredita que animais falam” e isto mostra um pouco da fantasia que envolve a literatura infantil em que seres inanimados podem ganhar vida na imaginação das crianças e fazer parte de suas construções, algo que os adultos se esquecem quando crescem é que já passaram por isso. Eu me considero uma mulher de 31 anos que se encanta ao ver animações e livros de literatura infantil com diferentes seres com habilidades e sentimentos humanos. Sobre a imaginação infantil este trecho é brilhante:

E quando se trata de animais podemos reconhecer que estes possuem sentimentos como dor, amor por alguém e pressentimento quando algo de ruim pode acontecer com eles. Este artigo, por exemplo, diz que os animais sentem ainda mais dor do que os seres humanos. Outro momento marcante da obra é quando o porquinho precisa lidar com a frustração de não ter sido o vencedor (algo que significou mais para a aranha e o porquinho do que para a menina). Eu senti uma espécie de “ranço” quando eu vi a reação da menina, afinal todo crédito era do porquinho e pra ela aquilo não significava tanto. Para o porquinho sim, ele teve que lidar com a decepção, mas logo depois superou tudo.

E por fim, a despedida da aranha e o encontro do porquinho com suas três filhas. Como todos sabem as aranhas não vivem muito tempo e dizem que em algumas espécies é comum que seus filhos se alimentem do seu próprio corpo. O modo como a aranha saí de cena me recorda muito o que acontece com os animais quando estão para morrer, eles se afastam dos seres humanos e ficam lá quietinhos em seus últimos momentos. Eu já perdi vários animais deste modo e a dor é horrível, quase insuportável e mais ainda é o sentimento de impotência diante de algo que não podemos mudar, apenas esperar e seguir adiante. A demonstração de afeto de Wilbur para Charlotte é emocionante e definitivamente um lindo testemunhal contado para suas filhas: Joy, Aranea e Nellie.

Lindo, não acham?

Este ciclo de vida dos animais que raramente é percebido pelos seres humanos pode ser analisado nesta obra a partir de várias lentes. Para mim, esta personagem tão especial merece viver eternamente, mesmo que isso contrarie a sua natureza que é morrer para que seus filhos tenham vida. 

E por fim, a sinopse do livro e uma síntese de um texto crítico da obra a partir da viés do personagem. E feliz dia do livro! 

Sinopse: Depois de evitar que um porco seja abatido por ser nanico (anão), uma menina chamada Fern adota-o e o chama de Wilbur. No entanto, ela é obrigada a separar-se do porco e levá-lo para a fazendo do seu tio, Homer Zucherman. Fern continua tendo uma ligação mútua com Wilbur, mas ele é esnobado pelos outros animais do celeiro. No entanto, ele descobre uma voz invisível que promete fazer amizade com ele, prometendo se revelar ao amanhecer. Wilbur descobre que a voz é de uma aranha chamada Charlotte, e faz amizade com Charlotte. No entanto, descobre que corre risco de ser abatido e por isso, Charlotte faz um plano para tentar salvar a sua vida. No dia seguinte, de manhã, os Zuckermans descobrem uma teia com as palavras porco incrível, atraindo uma grande notoriedade e publicidade. Entretanto, as chances de sobrevivência de Wilbur podem ser reforçadas se outros milagres semelhantes ocorressem. Por isso, Charlotte pede ajuda ao rato Templeton para procurar palavras de inspiração para as mensagens na teia. Ao longo que o tempo passa, mais palavras começam a aparecer nas teias de aranha elogiando Wilbur e dizendo que ele é especial. Logo, Wilbur vai para a feira agropecuária, junto com Charlotte e o guloso Templeton, que só foi convencido a ir à feira por causa dos alimentos descartados ao longo da feira. Logo depois, Charlotte tece um saco contendo seus ovos – que ela se refere como a sua “obra prima” – que é fortemente vigiado por Wilbur. No entanto, o porco fica triste ao Charlotte informar a sua morte iminente. Desolado, Wilbur guarda o saco de ovos deixado por Charlotte antes de sua morte. Porém, Wilbur se entristece ainda mais quando as aranhas vão embora logo após o seu nascimento, deixando apenas três filhotes jovens demais para deixar ainda. Satisfeito por ter feito novos amigos após a morte de Charlotte, Wilbur dá às três aranhas os nomes de Joy, Nellie, e Aranea. O livro conclui-se mencionando que mais e mais gerações de aranhas fizeram amizade e companhia com Wilbur, que agora está salvo da morte.

Minha síntese:

Referência: LUKENS, Rebecca. Character. In: LUKENS, Rebecca J. A critical handbook of children’s literature. 5a ed. New York, Harper Collins, 1994. P. 39-59.

Na introdução do texto a autora destaca falas comuns ditas pelas crianças como: “Eu gosto de histórias onde as pessoas começam o livro de um jeito e o terminam de outro”. A partir dessa frase, a autora argumenta que nós professores ainda temos uma noção superior de que as crianças são imaturas demais para reconhecer o que faz um ser humano inteiro (completo) ou para ver como as pessoas podem ser uma coisa em uma hora e depois se tornar outra pessoa com a passagem do tempo e eventos.

E também que admitimos erroneamente que as crianças não tem nenhuma experiência ou não são treinadas pessoa ficcionais e suas diferenças. Como resultados das hipóteses formuladas argumenta-se que devemos parar de subestimar a capacidade das crianças oferecendo outros títulos além de tradicionais, com personagens mais complexos. Outros aspectos destacados pela autora sobre o potencial que as crianças possuem para compreender as várias facetas do ser humano são:

  • As crianças normalmente sabem e esperam consistência nas pessoas;
  • Os personagens contribuem para que as crianças possam detectar as diferenças nas personalidades nos seres humanos/estórias que eles leem.

Definição de Personagem:

O termo é geralmente usado para significar a agregação de qualidades mentais, emocionais e sociais que distinguem uma pessoa. Na literatura, o termo personagem é usado para representar uma pessoa, ou no caso da literatura infantil, ou as vezes um animal personificado ou objeto. A autora adiciona a palavra “desenvolvimento” que também tem um significado especial.

Outros aspectos à destacar:

  • Na vida o desenvolvimento de um caráter de uma pessoa ou personalidade compreende crescimento e mudança;
  • Na literatura o desenvolvimento de um personagem significa mostrar o personagem – que pode ser uma pessoa, ou animal ou objeto – com a complexidade de um ser humano.
  • Cada um de nós na vida real é tridimensional, isto é, nós somos uma mistura de qualidade.
    No desenvolvimento completo de um personagem no senso literário, o escritor o mostra completo, composto de uma variedade de falhas (facetas) que são aquelas dos seres humanos reais.

O escritor

Tem ambos privilégios e responsabilidade em matéria de desenvolvimento de personagem.
NOTA: Desde que nós acompanhamos um personagem central em uma história é a obrigação do escrito fazer que os pensamentos e as ações destas pessoas acreditáveis. Se o personagem é menos importante, o escritor tem o privilégio de fazer o personagem bidimensional ou até mesmo a representação de um grupo (por exemplo, o irmão mais velho mandão…).
A importância de um personagem em uma história em níveis: primário, secundário, menor ou de fundo, determina o quão completo o personagem é desenvolvido ou compreendido.

2. Revelação do personagem

A autora faz uma comparação:

Para decidirmos se gostamos ou não de um vizinho nós observamos a maneira que eles trabalham, falam, agem, respeitam as regras de convivência… Na literatura o processo é o mesmo, entretanto o escritor tem uma alternativa adicional: ele pode escolher contar/dizer o que os personagens estão pensando. O escritor ou ator pode descrever com detalhes sobre as ansiedades internas, sonhos, padrões de comportamento na infância e vida caseira. Nos tópicos a seguir a autora descrever os modos como é possível caracterizar um personagem utilizando como exemplo a obra “Charlotte’s Web” (em Português, a menina e o porquinho).

2.1 Pelas ações

Ela cita o personagem Templeton como um exemplo de personagem que ações ajudam a definir a natureza dele. Esse personagem em questão tem várias características que suas ações revelam para o leitor, aqui as características são descobertas mediante o comportamento das ações do personagens (grosseira, centrado em si mesmo, etc…)

2.2 Pelo discurso

No livro o personagem se auto caracteriza por ele diz, mostra-se sendo cínico e egoísta, ressentido sobre qualquer tipo de intrusão aos seus propósitos.

2.3 Pela aparência

O personagem Gluttony (o rato) tem muitas características e a aparência dele mostra isso. Há uma série de situações na história em que há modificações corporais nele… Ele tem um grande apetite, cresce mais gordo e maior do que qualquer outro rato conhecido. Neste tópico a autora nos ajuda a identificar nos personagens a partir da aparência traços da personalidade nas análises de livros.

2.4 Pelos comentários de outras pessoas

Templeton é caracterizado pelo que ele faz, o que ele veste e pela maneira ele parece. Contudo, aprendemos mais sobre ele pelos comentários dos outros ao seu respeito. A autora destaca que esse tipo de abordagem é utilizada por muitos escritores, pois sabe-se que nós conseguimos confiar mais nas pessoas por aquilo que ouvimos sobre elas, e portanto os comentários dos outros nos ajudam a mostram o caráter.

2.5 Pelo comentário do autor

O autor faz comentários como: “ele não tem moral, não tem consciência dos seus atos e ações, não tem qualquer escrúpulos…” E assim, conhecemos o personagem com mais profundidade pelo modo como ele é descrito pelo autor. 

NOTA: A riqueza de descrições sobre o desenvolvimento dos personagens pode ter levado aos autores a escolher essa obra.

União entre o personagem e suas ações

O escritor cria um completo repertório de personagens para a estória (alguns importantes, alguns menores, alguns complexos, alguns relativamente simples) através do uso dessas técnicas e a partir da maneira como reconhecemos essas características nos personagens, nós respondemos para elas. A autora dá um exemplo sobre como escritores conseguem unir as características de um personagem e suas ações em uma narrativa. Ela diz que um exemplo muito usado é quando o personagem começa uma história de um jeito (malvado, cruel, egoísta, mimado, etc) e muda as suas atitudes no final da história, e isto no meu ponto de vista contribuí para que o leitor também possa mudar o seu ponto de vista sobre o personagem (antes odiado e depois amado).

Em outro exemplo extraído da obra “The Ugly Duckling” de Hans Christian Andersen, a construção desse personagem é baseada em suas características e também através de suas ações na medida que as provas e perseguições que ele passa em sua vida para o seu amadurecimento determinam uma mudança pessoal dele e do seu caráter, ou seja, a história identifica a realidade de maturidade.

Outros exemplos citados pela autora são: “Strider” de Beverly Cleary que o personagem principal muda os seus hábitos ao achar um cachorro, Strider e a compartilha-lo com o seu melhor amigo Berry e eles passam a correr com frequência, e neste processo ele deixa de ser tão sedentário, faz novos amigos e fica mais feliz com si mesmo. Outro exemplo citado é “Like Jack and me” de Mavis Jukes em que um personagem que tem medo de tudo mas a relação com Alex faz com que ele amadureça em alguns sentidos. E continua dando outros exemplos…

Tipos de personagens

Neste tópico a autora destaca que há muitos termos que descrevem os níveis de desenvolvimento de personagens. Os principais tipos são:

1. “Personagem completo”: É aquele que nós o conhecemos bem, que tem uma variedade de características que faz ele ou ela credível. Como uma pessoa real, este tipo de personagem pode nos surpreender ou responder de modo impetuoso (ou precipitado).
2. “Personagem raso”: É menos desenvolvido e tem menos características (detalhes).
3.“Personagem dinâmico”: É um personagem completo que muda suas características ao longo da história.
4.“Personagem estático”: Apesar deste tipo apresentar credibilidade, ele não muda no curso da história. Estes personagens são essenciais para a história, mas eles não são bem desenvolvidos e não parecem existir como um individual ser humano. Quando um personagem tem poucas características que não o distinguem de um grupo de pessoa, ele pode ser chamado de estereótipo. Outro termo utilizado pela autora é “personagem frustrado”, um personagem que tem poucas características em contraste ao personagem principal, o que favorece ao principal. Estes personagens dão poucas contribuições para se conhecer os seres humanos.

Avaliando personagens na literatura Infantil

Neste tópico a autora destaca alguns aspectos que podem ser avaliados na literatura infantil sobre personagens:

  • Literatura Tradicional: Há muitos tipos de personagem na literatura tradicional que apresentam uma variedade de características e ações.
  • Realismo Animal: São aquelas obras em que os animais ganham características humanas. Algumas críticas são feitas a este tipo de abordagem argumentando a existência de uma concepção antropocêntrica do homem sobre os animais. Ela cita Burnford que desenvolveu os seus personagens primeiramente a partir da observação, e depois descreveu aquilo que ela acredita-se que eles são.
  • Ficção Científica: Atualmente há uma grande preocupação com o desenvolvimento dos personagens, de uma realidade subjetiva, e para a sutileza na linguagem.
  • Clássicos: São livros que continuam a ser lidos independente das gerações, são livros com personagens sólidos e memoráveis (Peter Pan, Os três porquinhos, etc.) e que fazem uma contribuição significante na exploração de características dos seres humanos.

A autora concluí o seu texto destacando que tanto na vida quando nos livros, as crianças podem perceber diferenças nos seres humanos e elas são capazes de reconhecer e responder aos personagens bem desenvolvidos e que até mesmo nas mais simples histórias é possível achar personagens que parecem ser partes da natureza humana, e se isso ajuda as crianças, é preciso investir mais nisso.

O livro Charlotte’s Web está disponível em .pdf aqui.

Deixe uma resposta