O que fazer quando se não consegue ser além do que se consegue ser?

Os imperativos para sermos melhores, mais ricos, mais bem sucedidos e bem “apanhados” são muitos, entretanto quando sentimos que são muitas as pressões sobre nós e as limitações e barreiras para conseguirmos atender a determinadas exigências e critérios que muitas vezes são utópicos, até para aqueles que os designam é preciso respirar fundo e pensar se há algum outro caminho entre ser exatamente aquilo se exigem de nós com tanta rapidez e entre ser tudo isso aos poucos como uma escalada que vamos alcançando com base em nossos esforços e aprendizagens diárias. 

Eu sempre fui uma daquelas pessoas que sempre se sentiu muito cobrada pelo meu círculo familiar e de amigos, acredito que por ser a única filha mulher na família e também ser a mais velha (de dois irmãos) com mais responsabilidades e cobranças de comportamento “exemplar”. As cobranças que apareciam geralmente nas reuniões de família eram as mais diversas possíveis, desde tirar boas notas no colégio, andar em boas companhias até mesmo sobre o tipo de lugares que eu frequentava e o tipo de assunto ou conversa que é permitido para alguém como eu.

As notas do colégio, as aspirações para o futuro e principalmente a aparência eram sempre assuntos da mesa nos eventos familiares: “quando você vai se arrumar melhor?” ou “quando você vai arrumar um namorado?”, “fulana de tal está estudando pra ser médica”, “o que você vai fazer na vida?” todas essas perguntas eram interpretadas por mim como pressões sociais e frequentemente me causavam muita tristeza e frustração por eu não conseguir atingir tais objetivos ou trabalhar neles em outro ritmo.

O sentimento de decepção era algo que eu precisava lidar quando as cobranças vinham até mim e eu não sabia como lidar com elas. Embora eu soubesse meios de enfrentar as pressões e tentar realizá-las ora para me sentir melhor comigo mesmo, ora para agradar as pessoas (ou ser menos criticada por elas). A questão é que eu não gostava muito de ser vista pelos parentes por qualquer motivo que fosse (seja para ser colocada em um pedestal e tomada por modelo de perfeição ou de sucesso) ou para ser escrutinada por todos e ter sempre aquelas inúmeras pessoas pegando no meu pé “faz isso” ou “faz aquilo”, na maioria das vezes com boas intenções. Como já fui professora, sei bem que é necessário “pegar no pé” daqueles alunos que brincam muito ou aparentam não estarem interessado em aprender e assim, os pressionamos para serem melhores alunos, pensando somente no sucesso deles, sendo assim, é compreensível que as cobranças existem, é algo como “sofrimento obrigatório”.

Quando olhamos por esse lado tudo fica mais fácil de lidar, aqueles comentários disfarçados de puxões de orelha pode servir para nos “acordar” e perceber coisas que não estamos vendo por estarmos focados em outras coisas. Em minha adolescência, eu admito que era muito viciada em televisão, em especial na MTV e foram inúmeras as vezes que deixei de estudar para acompanhar a programação e saber quem estaria no topo da lista dos clipes mais votados e ainda torcer para que os meus artistas favoritos ficassem em primeiro lugar por muitos dias, semanas e anos. Na oitava série eu rodei de ano por causa de priorizar outras coisas, ao invés do estudo, além de me vestir mal e ter alguns pensamentos depressivos e isso fez com que minha família ficasse atenta a cada sinal que eu apresentava de que as coisas não estavam indo tão bem para mim.

Eu considerava tudo aquilo muito intrusivo e irritante (muitas foram as discussões e sentimentos de raivas guardados ou expressos em pequenas ações). Foi uma fase difícil, mas que com o passar dos anos e muita ajuda do grupo social que eu fazia parte (colegas do colégio, da igreja e parentes) fui superando. Nunca me senti satisfeita comigo mesma e isso não é algo que se aplica somente a mim, mas muitas pessoas que passaram por situações semelhantes. Aceitar e admitir que não se pode responder a todas as pressões, atender todas as expectativas é um processo longo e muito difícil. Admitir que não se pode chegar a um determinado lugar, ou que não posso fazer determinadas coisas ou querer ter determinados bens por inúmeras limitações é algo extremamente difícil, mas que faz parte do nosso amadurecimento e crescimento como pessoa. 

Ao olhar para mim mesma sinto-me um tanto frustrada por ainda estar muito longe de onde eu gostaria de estar, me sinto ainda como alguém que tem muito a aprender, muito para ouvir antes de falar, muito para analisar cuidadosamente e com profundidade, enfim… É uma longa caminhada que fazemos a passos curtos. E como tenho apenas 1m53cm os passos são curtos e lentos, como quem degusta cada coisa aos poucos ou guarda o melhor doce para o final e lido com ímpeto de querer tudo para mim mesma (algo normal para pessoas que vivem sozinhas e possuem poucos amigos). O aprender a compartilhar se faz no convívio coletivo que não deve ser forçado ou obrigado, mas deve ser uma experiência que se aprende pela troca saudável, por meio do diálogo e sinceridade enquanto se constrói algo. É como as crianças que trocam figurinhas quando possuem duplicatas, o objetivo é que todos completem seus álbuns e ninguém fique para trás. 

É com esse tipo de pensamento que podemos seguir adiante e lidar com o sentimento de que não podemos conseguir tudo aquilo que desejaram para nós, que não somos capazes de fazer tudo aquilo que nos mandam fazer, de que não podemos ser como outras pessoas que passaram por situações diferentes e viveram em lugares diferentes, de que somos falhos, mas podemos acertar uma vez ou outra.

 

 

 

 

 

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