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A metáfora do aeroporto: textos soltos

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Na última viagem que fiz passei mais tempo do que eu deveria no aeroporto: praticamente toda a madrugada e fiquei lá observando o movimento das pessoas e pensando sobre as coisas, dentre elas é o que significa ser como um aeroporto? Acredito que ser como um aeroporto é ter que ficar estático e constante quando diferentes coisas passam por nós. 

É um lugar que requer muito equilíbrio e um certo auto-conhecimento para não ser levado com aquilo que nos passa e esquecermos das nossas obrigações ou compromissos. Ser como um aeroporto é receber todos dias muitas informações vinda de diferentes lugar. Essas informações poderiam ser os vôos (nacionais e internacionais com diferentes tripulantes e passageiros), que cada vez que passam por nós trazem novos dados. 

Ser como um aeroporto é estar aberto a muitas coisas, pois cada um que passa pode levar um pouco de nós e de nos deixar muitos problemas também. Ser como um aeroporto é chato, entediante e uma luta pelo foco e concentração, mas ser um aeroporto pode nos proporcionar muitas experiências até descobrirmos o nosso lugar e nosso posto seguro. 

Pra ser bem honesta ser como um aeroporto é o lugar mais seguro de se estar, embora seja o menos interessante, já que tudo passa e ficamos lá. Em determinadas épocas ser um aeroporto é cansativo, porque há muito movimento nele, muitos aviões pousando, fluxo intenso de passageiros, confusões por causa de bagagens extraviadas, vôos perdidos e problemas técnicos nas aeronaves. Há muita coisa bonita que acontece dentro dos aeroportos… Idas e vindas, chegadas e despedidas, desencontros e reencontros, abraços, lágrimas, plaquinhas, festas e pessoas felizes. 

Há coisas mais interessantes que podem ser encontradas nos aeroportos: diversidade, lojas maravilhosas, cafés, restaurantes, inúmeros serviços, segurança, fiscalização e todos trabalhando em seus postos, 24 horas por dia. Se olharmos com atenção ser como um aeroporto pode não ser tão ruim, é apenas frustrante ver que todos embarcam para lugares maravilhosos e os aeroportos ficam apenas no mesmo lugar. 

Outra questão importante sobre os aeroportos é refletir se é realmente esse o nosso posto, se não seria outro, se por uma obra do acaso, se não houve trocas. Como por exemplo, aeroportos sendo “aquelas maravilhosas coisas que passam” e as coisas maravilhosas coisas que passam, sendo como aeroportos, e por isso, se sentindo entediadas, já que aeroportos costumam ser como são: estáticos, estão sempre lá para qualquer coisa que aconteça, conhecem apenas aquilo que passa por lá e nisto pode residir muitas críticas, estão acostumados com um tipo de iluminação, um tipo de temperatura, alguns padrões que não se alteram, gostam de estar seguros e dar para o seu público alguma segurança e organização.

E pode haver ainda algo mais interessante: aeroportos que gostariam de alçar vôos como uma aeronave. 

Para o que passa e quem passa as percepções, características e os interesses são distintos. A pressa em trocar de vôos, a preocupação com a bagagem e as perspectivas para chegar no seu destino. Os homens de negócio vestindo terno, os adolescentes animados para curtir as férias, famílias numerosas com aquelas crianças que não param de chorar, casais em lua de mel, pessoas partindo para viagens solitárias, selfies, pessoas dormindo nos bancos, os inúmeros profissionais que trabalham em horários diferentes, as câmeras, os procedimentos de segurança, os painéis com as informações sobre os horários, a sinalização (algo muito importante nos aeroportos) para localizar os portões corretos, as lojas, praças de alimentação, serviços bancários, dentre outros setores. Tudo isso faz parte de um aeroporto, entretanto o significado mais apropriado em minha opinião seria daquele lugar estático, embora com muitas atividades onde as coisas e pessoas passam. 

Ser como um aeroporto ainda que espero eu, por pouco tempo até a ordem natural das coisas volte retorne e reorganize todas as coisas e postos, incluindo o meu que definitivamente não é esta que deve ser do tamanho de um grão de linhaça. Olho de todos os pontos que me encontro as coisas passarem, as pessoas passarem e as informações, seja lá qual for transitarem, serem compartilhadas, distorcidas, mas enviadas aos seus destinatários. 

Ser um aeroporto, embora temporariamente (na verdade há quase três anos) tem sido interessante, embora chato e exaustivo física e mentalmente. Tal função não pode ser confundida com outra coisa, vocês sabem, aqueles “duplos sentidos” e associações que costumamos fazer utilizando outros elementos do cotidiano – e do imaginário popular. Ser como um aeroporto é tenta buscar aquele equilíbrio necessário mesmo em momentos e situações mais complicadas. 

Ser como um aeroporto é ser leal a algo que não sabemos exatamente o que é, pois apenas as coisas nos passam e conhecemos apenas aquele determinado espaço, mas se tem algo que temos que fazer é seguir e cumprir nosso papel, ainda que haja muitos problemas, dilemas e provas. Ser como um aeroporto é ser um porto seguro e forte, saber como melhor atender as mais exigentes demandas e deixar que as coisas passem sem que deixemos nossos postos e nos perdemos. Quando se é um aeroporto é preciso ser e continuar, mesmo que daqui há uma hora, sejamos forçados a ser outra coisa, ou voltar para nossa original função sem maiores explicações ou meios para fazê-lo.

E, por fim, ser como um aeroporto, nos desafia a lidar com muita tristeza e mentiras em nossa volta, mas isso é outra conversa. 

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