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O brilho eterno de uma mente sem lembranças: notas sobre memórias e tempo

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Tempos atrás assisti um filme que me marcou e me marca até hoje: O brilho eterno de uma mente sem lembranças. O enredo é simples. Um casal se conhece e a partir disso suas vidas mudam completamente. Após uma série de brigas eles resolvem terminar o relacionamento, mas para lidar com a dificuldade em esquecer o parceiro, Clementine se submete a um tratamento para remover todas as lembranças do ex-namorado. E ele faz o mesmo processo. Contudo, entre o esquecer, apagar e remover da memória tudo o que eles viveram juntos e lidar com o sentimento que ambos sentiam um pelo outro, eles se encontram nas profundezas da mente monitorada por equipamentos eletromagnéticos, mas já não conseguem voltar ao que era antes. 

Cada um seguiu com a sua vida… 

Para muitas pessoas esquecer do passado é algo fácil, outros precisam ser lembrados o tempo todo de todas coisas que já fizeram na vida e de todas experiências que já viveram, seja elas boas ou memórias ruins. 

Confesso que muitas vezes senti vontade de esquecer traumas e experiências ruins que tive na vida. Experiências que me bloquearam para muitas coisas. Afinal, sem lembranças ou entraves seguimos em frente com mais rapidez. Muita rapidez, pois nada mais nos detém. Primeiro relembramos de tudo muitas vezes. É como um filme que vai e volta. Vai e volta. Depois de nos cansarmos de ver esse mesmo filme inúmeras vezes, este deixa de fazer o efeito que causava antes em nós. E vamos vivendo… 

Lendo comentários sobre este filme mencionado destaco esse trecho:

“Enxergo algo de infantil na ideia de que as experiências ruins devem ser ignoradas para não doerem. A facilidade apresentada pela tecnologia de “formatação” do filme é também um indício de que estamos cada vez menos resistentes a dor. E aprender sobre a dor é um mecanismo de sobrevivência futura, a dor faz com que nos sintamos vivos, é como um banho de água gelada. Fico pensando como o mundo seria se realmente existisse essa tal empresa chamada “Lacuna”. E se a gente pudesse apagar mágoas, decepções, pessoas, traumas, gafes, amores? E se você pudesse escolher uma coisa para apagar da memória, qual seria?”

É como remédios para dor, pois sentir dor é algo que lutamos para evitar, sejam elas físicas ou emocionais. A proposta de remover lembranças que nos causam dor é algo muito tentador, contudo ao lidar com a dor aprendemos muito sobre mesmos e sobre os outros. Tentar sentir a dor de outras pessoas é uma experiências interessante e enriquecedora em que passamos a ter outro ponto de vista sobre nós mesmos e sobre os outros.

Como é chorar pela dor de outra pessoa? Talvez possamos até sentir mais do que elas dependendo da nossa formação de valores e modo de perceber e entender as coisas. O mesmo sobre nossas dores que para outros podem ser insignificantes ou coisas sem importância alguma. Quando apagamos todas as nossas lembranças acontece algo como no filme: nossos corpos agem como se estivéssemos em modo controle automático e temos a sensação de somos únicos no mundo, que somente nós temos determinadas necessidades e problemas, que somente nós nos sentimos deslocados, que somente nós ignoramos a dor e o sofrimento. Apenas pensamos em seguir o mais depressa possível e de maneira eficiente, sem levar em conta tudo o que passamos, afinal já não há lembranças, ou preferimos mantê-las em um lugar seguro o bastante para que ninguém as toque ou as destrua de nós mesmos. O que fazem delas para os outros não interessa mais. 

Das minhas memórias o que ficou para mim hoje é o que preciso para seguir adiante com algumas coisas, outras delas eu gostaria de guardá-las em um pequeno baú e trancá-las. Eu mais do que outra pessoa já assisti muitas vezes o filme da minha própria vida, em câmera lenta, modo lento, modo rápido, trailer, curta-metragem, longa-metragem… E principalmente, por meio de outras pessoas que as viveram e para aquelas que desejam ardentemente viver as próximas ou aquelas que eu não consegui viver, e assim, ter o prazer de vivê-las por mim ou de fazer por mim o que eu não consegui fazer. 

Falo isso com um tom de tristeza, já que vi lembranças tão profundas despejadas no esgoto, um jogo de destruição que nunca tem fim, é o pega usa e joga o corpo fora, já sabemos quem vence e quem sempre perde: os sem memórias ou os que têm suas memórias lançadas ao rio para os pescadores de almas fisgarem, devorarem e jogarem os restos fora. Um saco imenso de peixes apenas com escamas e nada mais. E um rio que secou ou que já está tão poluído que não há mais nada para retirar dele. 

No filme todos os personagens seguem adiante e levam suas vidas normais, o segundo o grupo, eu ainda não sei o que acontecerá com eles, não sei se eles terão um bom futuro. Acredito que sim, pois apesar de tudo ainda me resta um pouco de otimismo. 

Sobre o tempo, por ser do segundo grupo já teve suas memórias remexidas, o tempo passa muito lento: dois anos é como se fossem quatro anos. Somente agora aos 31 que minha primeira ruga apareceu em meu rosto e sem sinais de cabelos branco, apenas algumas quedas e perda de fios e nada mais. De tanto rever minhas memórias passei a me ver como se eu fosse outra pessoa e ao rever tudo que já fiz e vivi (algo como no filme Click de 2006) me analiso e me reconheço de outra maneira, talvez não tão sensacional ou horrível e “baixa” como as memórias me fazem parecer. Apenas como alguém com 31 anos que viveu muito pouco. É como ver uma Brás Cubas jovem de cabelos com mexas e digitando no smartphone ouvindo indie rock ou algo como 13 reasons why de você mesma.

Só quem passou por tal experiência sabe descrever esse tipo de sentimento. Apesar de fazer parte deste segundo grupo, estou seguindo em frente e caminhando do jeito que dá, a diferença é a percepção do tempo que para mim é mais lento. No fim, é como ter um cartão de memória para que eu sempre me lembre quem eu sou ou o que deveria fazer. O que é chato, repetitivo e desanimador, ninguém deveria precisar de um cartão de memória, mas questionar sobre o verdadeiro porquê de todas essas coisas. Isso já é outra história…

 

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