De onde nasce o ódio?

O ódio tem melhor memória do que o amor. – Honoré de Balzac

Estava pensando sobre sentimentos diversos e de onde eles vêm. Alguns sentimentos nascem em nós sem uma razão aparente, outros nascem e acham algum motivo para se justificar, para ficar ali e para se manter forte e poderoso. 

O ódio é o mesmo que desprezo por alguém? Não. São sentimentos diferentes… O ódio envolve uma carga de energia que precisa sair de dentro e atingir um alvo. Não precisa ter motivo, não precisa ter uma razão, apenas precisa existir. O verdadeiro ódio é capaz de ser feroz como um terremoto e ser aniquilador de tudo que há de bom e pacífico. 

O desprezo é um sentimento que envolve um ar de superioridade, de quem sabe ou finge que sabe o que é melhor ou sobre como ser melhor e que possui internalizado em si mesmo uma escala de classificação para as atitudes cujo o parâmetro de aceitabilidade ou negação parece está mais ou menos delimitado. Esta escala de classificação daquilo que é melhor ou pior nutre o desprezo. Desprezamos aquilo que consideramos inaceitável para os nossos padrões, desprezamos aquilo que nos causa repulsa, pena, piedade, e também ódio (disfarçado de desprezo). O ódio é um sentimento coringa, ele pode vir revestido de verdade, como já expliquei, naquela avalanche de energia que precisa ser descarregada em um alvo, em um momento ou em alguma situação, mas pode também vir disfarçado de um interesse, ciúmes, obsessão, controle, possessão, sentimento de piedade, de generosidade e também mesmo, acreditem, de solidariedade e compaixão (estes casos o ódio é muito perigoso, pois aquilo que não vemos em sua honestidade precisamos desconfiar). O desprezo é mais complexo, pois envolve julgamento e logo um conhecimento por parte de quem despreza do que pode ser melhor para que algo ou alguém seja desprezado. 

Há cura para o ódio?

Ouvi dizer que o amor curava o ódio, também já ouvi o contrário, que amor pode causar mais ódio, amor mal resolvido ou não correspondido, pode gerar os mais diferentes sentimentos que vão de ódio mortal a desprezo absoluto (percebam que novamente ódio e desprezo sempre se encontram). Isto acontece porque pela nossa educação aprendemos a guardar pra nós certas manifestações de sentimento e o desprezo é um modo mais ou menos educado de se manifestar o ódio ou a reprovação por alguém. Aquele nariz empinado e expressão de negação pode ser entendida como uma forma, perdoem-me os críticos, elegante de dizer “eu te odeio”, mas não quero fazer barraco. É respeitável toda forma de afeto e desafeto. O importante e o que importa é a verdade e a honestidade em demonstrá-lo. Sem peso na consciência, sem ressentimento, sem rancor e dissabores.

Na maioria das vezes um “eu te odeio” bem dito pode ser libertador para quem odeia e para quem é odiado. Não há nada errado nisso. Saber que é odiado pode ser interessante para muitas pessoas saberem onde colocar seus pés ou quando podem ou não entrar ou sair, funcionando como uma espécie de “aviso” ou um pequeno lembrete de “não fica no meu caminho porque eu te odeio.”

Não há vacina, remédios ou qualquer tipo de cura para o ódio, mas expressá-lo abertamente pode ser libertador e informativo e servir de lição ou aprendizado para quem é o alvo do ódio. Sinceramente, eu prefiro saber do ódio do que ter detectá-lo em suas sutilezas, naquelas armações complexas demais para algo tão simples, como gritar para o mundo um lindo, simples e direto: EU TE ODEIO E PONTO FINAL. Após ouvir a célebre frase, o alvo do ódio precisa de um momento para reflexão ou para extrair de si suas reações, suas lágrimas, seu sentimento de ódio também (quando houver, na maioria dos casos é um sentimento recíproco) e em outros momentos nem tanto é ficar em silêncio absorvendo as informações e esperar tudo passar… Sempre passa. O ódio de outro pode ser a causa da nossa depressão, infelicidade, falta de paz e muita tristeza, mas ao sabê-lo encontramos uma pista para tratar as consequências de tal sentimento. Quanto ao desprezo esse é impossível curar, pois se trata de um julgamento a partir de um parâmetro que não conhecemos, ou se conhecemos, não lembramos para agirmos conforme manda a regra e ao errarmos damos argumento para o desprezo. Damos alimento ao nariz torto de alguém, ao olhar de pena de quem sente piedade, apenas. 

Pensar e falar sobre o sentimento de ódio pode ser útil por muitos motivos, o principal deles é a chance de rever e revisitar nossos sentimentos e compreender nós mesmos e o outro (aquele que nos odeia). Quando isso ocorre precisamos retomar nossas forças e seguir adiante ciente que haverão muitos ódios direcionados a nós. Que haverão muitas reações de desprezo e de ódio disfarçado de um monte de outros sentimentos e reações. Odiar é preciso. Falar sobre o ódio também. Expressá-lo pode ser devastador, libertador ou um mix dos dois. Entender sobre o ódio é entender sobre nossos sentimentos mais profundos.