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Ainda não há evidências de que telas sensíveis ao toque são boas para bebês (tradução livre)

Por Susan Linn – Harvard Medical School.

Texto original aqui.

Dimitri Christakis, co-autor de recomendações da Academia Americana de Pediatria (AAP) para desencorajar a exposição de crianças menores de 2 anos a tecnologias com touch screen (telas interativas), mudou sua posição. Ele fez isso, apesar de reconhecer a falta de apoio a pesquisas sobre o tema, baseadas no que ele francamente identifica como um “palpite” associado com ao crescimento de vendas do iPad.

No artigo divulgado pela JAMA Pediatrics, o renomado pediatra diz que agora ele acredita que pais podem permitir a exposição de crianças menores de dois anos as telas interativas dos dispositivos móveis. Christakis argumenta que passar mais tempo acessando telas interativas tem benefícios similares ao brincar com blocos, que é conhecido por ajudar no desenvolvimento de leitura e escrita.

Infelizmente para bebês, suas previsões que tem sido espalhadas como notícias pelos meios de comunicações nos Estados Unidos (NBC’S e Today.com) e estão se transformando em um guia para os pais que buscam orientação sobre se e quando introduzir seus bebês e crianças em telas. Muitos pais que veem estas notícias são suscetíveis para ignorar os detalhes e a falta de pesquisa para apoiar tais declarações.

Uma notícia bastante lida publicada no The Huffington Post em 2014 relatou que “bebês podem se beneficiar com o uso das telas interativas se usadas de 30 a 60 minutos por dia”. Uma manchete de outra notícia diz “Rendidos ao iPad: médicos em Seattle afirma que bebês devem usar tablets”. Até o momento, nenhum artigo incluiu comentários da AAP ou de outros autores de suas recomendações baseadas em evidências.

É confuso o artigo publicado pelo períodico JAMA pediatrics de título “O uso de mídia interativa de crianças menores de 2 anos: momento de repensar o guia da Academia Americana de Pediatria?” Este artigo mais sucinto e visivelmente raso apresenta um quadro enganosa comparando as características de três categorias de objetos: “brinquedos tradicionais”, “telas interativas” e “televisão”.

O quadro apresentado pelo pesquisador pretende mostrar que “telas interativas” possuem mais qualidades positivas do que brinquedos tradicionais e a própria televisão. Depois, Christakis indica que a tabela não compara “telas interativas” com brinquedos tradicionais em geral, invés disso, o autor parece compará-las com um brinquedo não identificado.

É intrigante que o exemplo dado por Christakis de um “brinquedo tradicional” é um jack-in-the-box, cuja única função sempre foi assustar bebês inocentes. Christakis identifica equipamentos “touch screens”, mas não brinquedos tradicionais como interativos, argumentando que estes são capazes de promover reações imediatas baseadas em algo que uma criança faz. Entretanto, muitos dos brinquedos tradicionais atendem aquele padrão. Uma torre de blocos caí se uma criança a constrói muito alto, argila pode ser moldada em milhares de diferentes formas, bolas rolam, saltam ou giram. Até mesmo bonecas e bichos de pelúcia que sequer se movem ou falam por conta própria são notavelmente interativos pela definição de Christakis.

Equipamentos com telas sensíveis ao toque, mas não brinquedos tradicionais, são também descritos como “adaptáveis” definido como o diferente comportamento baseado na idade das crianças e em suas preferências, e progressivo, mudando a complexidade conforme a criança vai amadurecendo. Blocos, argila, bolas, bonecas, bichos de pelúcia e todos os tipos de outros brinquedos tradicionais que estes critérios atendem.

Estes objetos não podem mudar por eles mesmos, mas eles evocam possibilidades em desenvolvimento para o uso quando as crianças crescem. Um olhar sobre a complexidade nos modos como crianças de 18 meses, 3 anos, e 7 anos de idade brincam com aqueles objetos mostra que eles atendem os critérios de Christakis por serem adaptáveis e progressivos. Entretanto, é problemático que muitos dos recursos identificados na comparação do autor são complexos e merecem maiores explorações e explicações. Ele descreve a interatividade eletrônica nas telas sensíveis ao toque como um “boom” para o aprendizado de crianças, mas ebooks que falam e fazem sons ao serem tocados com os dedos tem sido em alguns estudos desencorajados por contribuírem com a diminuição dos diálogos entre crianças e adultos através da contação de histórias.

Não há pesquisas sobre o impacto da resposta instantânea das telas sensíveis ao toque sobre a capacidade de desenvolvimento do bebê para resistência, paciência e resolução de problemas, mas o senso comum sugere que ele deve ser considerado. Christakis baseia suas previsões sobre os benefícios das telas sensíveis ao toque em sua crença que eles promovem um senso de ação, ou que ele descreve como um sentimento de “eu fiz isso”. Ele não menciona que muitos dos populares apps para bebês, como “Play-Doh Creativity ABC’s” ou “Fisher-Price’s laugh and learn” privam as crianças de ações, porque suas atividades somente permitem uma correta e predeterminada resposta. De fato, um estudo recente mostra que a interatividade de muitos dos aplicativos mais usados/vendidos para crianças são limitados para atos físicos de deslizar e tocar. A maioria desencoraja a criatividade, iniciativa e uma ampla gama de possibilidades de respostas como muitos brinquedos tradicionais fazem.

Da perspectiva da saúde pública, o que mais preocupa é sugestão de Christakis sobre a exposição de crianças menores de dois anos a telas interativas ao toque por 1 hora diária, o que constitui-se como um “uso judicioso de telas interativas ao toque”. Desde do fato de que ele não faz distinções entre recém nascidos e crianças, o artigo defende que é bom para os pais introduzir crianças a utilizarem tecnologias móveis (tablets e smartphones) desde o nascimento das crianças. É irônico que ele legitima o uso diário de telas sensíveis ao toque por crianças e ao mesmo tempo ele demonstra preocupações sobre a natureza potencialmente viciante das telas. Christakis descreve a “emergência da problemática sobre o uso da internet por crianças e adolescentes” e especula que “nós podemos começar a ver casos recentes de uso compulsivo de iPads entre nossas crianças”.

Dada a plasticidade de cérebros de bebês, a formação e o reforço de padrões de comportamento por experiências repetidas, por que um notável pediatra e pesquisador incentivaria os pais introduzirem na vida dos seus filhos a 1 hora de exposição diária a telas sensíveis ao toque? A credibilidade combinada de JAMA Pediatrics e a reputação de Christakis como um pesquisador, e a posição dele no “AAP Concil on Media and Communication” vão tornar ainda mais difícil para as famílias a decisão sobre como, quando e em que situações introduzir as crianças para tecnologias com tela sensíveis ao toque.

Pesquisas relevantes estarão disponíveis nos próximos anos. Dada a preocupação de Christakis com relação ao fato que o uso prolongado dessas tecnologias podem ser viciantes e pode substituir atividades comprovadamente benéficas, bebês podem ser prejudicados se este tipo de posição contribuir para encorajar mais familiares a incentivar a exposição de seus filhos a telas sensíveis ao toque por 1 hora diárias, especialmente aquelas crianças mais vulneráveis. Enquanto isso, nenhum bebê será machucado se as famílias continuarem a seguir as recomendações atuais de instituições como as AAP’s, baseadas em evidências e manter seus bebês longe das telas.

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Pacto Internacional de Mulheres EUA – Plataforma

A Parada Internacional de Mulheres de 8 de março de 2017 é um dia internacional de ação que tem sido planejado e organizado por mulheres de 30 países diferentes.

Baseado no princípio de solidariedade e internacionalismo, nos EUA em 8 de março será um dia de ação organizado por e para as mulheres que vem sendo marginalizadas e silenciadas por décadas de neoliberalismo principalmente dirigido contra mulheres trabalhadoras, mulheres de cor, mulheres indígenas, mulheres com deficiência, mulheres migrantes, muçulmanas e população LGBT.

O dia 8 de março será o começo de um novo movimento feminista internacional que organiza a resistência não apenas contra o governo Trump (não confundir com movimentos que buscam desestabilizar e deslegitimizar o sistema “democrático” do país, aqui foca-se a crítica numa série de ações e decisões tomadas pelo presidente, em especial na criação de políticas misógenas e racistas), mas também contra décadas de desigualdade econômica, violência racial e sexual, e a guerra imperialista no exterior.

Celebramos a diversidade dos vários grupos sociais que estão reunidos e vinculados a Parada Internacional de Mulheres. Viemos de distintas tradições políticas, mas estamos unidas ao redor dos seguintes princípios:

Por um fim a violência de gênero 

Todas as mulheres merecem uma vida livre de violência, tanto doméstica como institucional. Mulheres trabalhadoras, transgêneros, e mulheres de cor sofrem os piores aspectos da violência institucional direta, bem sobre a forma de brutalidade policial, as invasões pelos agentes de imigração, a violência que dia a dia sofrem como resultado de políticas públicas estatais que reproduzem e consolidam a pobreza em nossas comunidades.

Contra todas estas violências estatais e pessoais demandamos que nossas vidas e nosso trabalho sejam tratados com dignidade, já que eles formam a base desta sociedade.

Justiça reprodutiva para todas 

Defendemos a justiça reprodutiva para todas as mulheres, cisgêneros e transgêneros. Queremos completa autonomia sobre nossos corpos e total liberdade reprodutiva. Demandamos o livre direito ao aborto sem condições e assistência médica acessível para todas, sem restrições baseadas na entrada, na identidade racial, ou o status de cidadania. A história da esterilização das mulheres de cor neste país vão de contra aos ataques aos direitos sobre o aborto. Para nossa justiça reprodutiva significa a liberdade de escolher se tem filhos ou não, ou quando tê-los.

Direitos trabalhistas 

Os direitos trabalhistas são direitos das mulheres, por que tanto o trabalho remunerado em seu lugar de trabalho, quanto o trabalho não pago em casa é a base da riqueza em nossa sociedade.

Ao redor do mundo inteiro milhões de mulheres são forçadas a trabalhar por salários escravizadores, em perigosos galpões de exploração do trabalho e “fábricas infernais” que matam milhares a cada ano. Nos Estados Unidos as mulheres correspondem a 46% dos membros total dos sindicatos, e a grande maioria delas são mulheres de cor e de diferentes etnias. Todas as mulheres, sem considerar seu status de cidadania ou identidade racial, devem receber um salário igualitário pelo mesmo trabalho que realizam (nota da tradutora: o texto original fala sobre 15 dólares, equivalente à R$ 46. Eu acho que refere-se ao valor pago por hora de trabalho, o que acho muito pouco), incluindo, especialmente para aquelas que cuidam de outras pessoas, o cuidado infantil universal gratuito (e expansão das creches), pagamento de licença maternidade, licença por enfermidade, licença familiar remunerada e a liberdade para organizar um sindicato que lute pelos seus direitos em seu local de trabalho. Como mulheres trabalhadoras que sustentamos a metade do céu, nos recusamos a ser divididas pelo tipo de trabalho que realizamos, seja ela bem qualificado ou não qualificado, formal ou informal, trabalho sexual ou doméstico.

Nota da tradutora: Por ser uma tradução livre e não oficial, me coloco no direito de argumentar que não considero o trabalho sexual como forma de trabalho, e sim, como uma exploração dos corpos das mulheres, meninas, lésbicas e transgêneros. 

Aprovisionamento social completo

Em três décadas de políticas públicas neoliberais, temos visto o violento desmantelamento do aprovisionamento social que afeta a todas as mulheres. Enquanto nossas vidas laborais estão cada vez mais precárias, os serviços sociais que deveriam prover certa segurança contra as severas condições de exploração em que trabalho tem sido completamente removidas ou estão sobre constante ataque. Contra estes ataques exigimos uma reestruturação expansiva do sistema de bem-estar estadounidense capaz de satisfazer as necessidades da maioria, o que implica um acesso universal ao sistema de saúde, garantias sociais contra o desemprego e fortes benefícios em seguridade social para todos. Demandamos que o sistema de bem-estar funcione para apoiar nossas vidas e não para nos envergonhar quando temos acesso aos nossos direitos.

Por um feminismo antirracista e anti-imperialista 

Nos pronunciamos contra a aberta supremacia branca do atual governo e contra os movimentos da ultra-direita e os movimentos anti-semitas que tem dado sua confiança. Defendo um feminismo antirracista e anti-colonial que não está disposto a comprometer estes princípios. Isto significa que movimentos como Black Lives Matter (As vidas negras importam), a luta contra a brutalidade policial e o encarceramento massivo, a demanda por fronteiras abertas e direitos que protejam os emigrantes, e descolonização da Palestina, constituem para nós o coração palpitante deste novo movimento feminista. Queremos destruir todos os muros desde os muros das prisões até os muros das fronteiras desde o México até a Palestina.

Justiça ambiental para todas

Cremos que tanto a desigualdade social como a degradação ambiental são o resultado de um sistema econômico que coloca o lucro acima das pessoas. No lugar desse sistema demandamos que os recursos naturais da terra sejam preservados e sustentados para enriquecer nossas vidas e aquelas de nossas filhas e filhos. Nos inspira a luta dos Protetores da Água contra o Oleoducto que querem construir em Dakota (Dakota Access Pipe Line). A emancipação das mulheres e a emancipação do planeta dever andar de mãos dadas.

Este link mostra como organizações mulheres podem se inspirar e criar eventos semelhantes em seus países.

A organização deste evento também disponibilizou um e-mail para auxílio e apoio de pessoas interessadas: internationalwomenstrikeus@gmail.com

Alguns jornais internacionais publicaram sobre o evento:

https://www.theguardian.com/commentisfree/2017/feb/06/women-strike-trump-resistance-power

Nota: o evento não é apenas um protesto contra o governo Trump, mas o texto mostra um excelente panorama de outros movimentos feministas internacionais, inclusive o Ni una a menos (organizado por coletivos feministas na Argentina, Uruguai e Peru).

 

 

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